Muita gente cresceu querendo se locutor de radio. Isso porque se ouvia muitos locutores com voz grave que era praticamente a voz padrão do rádio nos anos 50. E bem verdade que também era preciso saber ler o texto sem engasgar, ou ficar com a mão na orelha como concha, querendo ouvir o retorno da voz.
Grandes locutores faziam inveja a muitos que gostariam de estar no lugar deles. Na Rádio Gazeta tinha Ita Ferraz, um vozeirão. Na Rádio Bandeirantes, Edson Leite, Humberto Maçal, José Paulo de Andrade, Lourival Pacheco, Celso Guizard Faria, Jose Nello Marques e Helio Ribeiro que perambulou por diversas emissoras.
Nos programas de calouros alem de cantores e instrumentistas muitos iam se apresentar como locutores. Mesmo não tendo uma voz grave, forçavam e, com essa preocupação muitas vezes erravam o texto ou paravam no meio do caminho dando aquele chamado “ branco”.
Em Santos tinha um cidadão que ia ao estádio com uma lata de óleo daquelas retangulares, imitando um microfone como aqueles antigos que a gente via com o Silvio Luiz na TV Record, nas transmissões do futebol. Ele insistiu tanto que acabou conseguindo ser repórter de campo de uma emissora santista.
Na Vila Olímpia havia duas pessoas que gostavam de um microfone; “seu” Luiz, o encanador da Vila, com uma voz pouco recomendável, e Mario Lucio esse sim tinha a voz de locutor. Quando tinha quermesse na igreja do Divino Salvador, eles dividiam a locução, na apresentação de músicas que rapazes e moças trocavam com prova de carinho e amor.
Entre os dois, Mario Lucio se destacava não só por ter uma voz muito bonita como também pelo jeito de ler os textos. Sua voz não era tão grave, talvez um meio grave, e também era boa pinta. Todos os parques de diversão que aparecia na Vila Olímpia ou Vila Nova Conceição, lá estava ele impondo sua voz no alto falante; ai ele não dividia a tarefa com ninguém, ele era o dono do assento e do microfone.
Um dia o encontrei no Anhangabaú e ele estava todo feliz me dizendo que estava trabalhando na Rádio Bandeirantes, já com endereço no chapadão do Morumbi.
Fiquei muito feliz por ele, e logo perguntei:
— Esta trabalhando como locutor não é?
— Que nada xará, eu trabalho na portaria — respondeu.
Bem, mais do que certo ele já tinha meio caminho andado para realizar seu sonho. Já pensou ser locutor da mais popular emissora paulista?
Para Mário Lucio seria a glória, pois a Rádio Bandeirantes vinha desde a metade dos anos 1950 deixando todas as outras distante na preferência dos ouvintes.
Já no inicio dos 1970, ele viu a chance de ser locutor num programa de televisão que o, até então radialista, Alfredo Borba apresentava um programa diário, às 14 horas onde quebrava discos de cantores picaretas. Também na TV Bandeirantes ele estava apresentando aos sábados à tarde o programa “Gaiola de Ouro”, no qual havia uma parte de calouros.
Um dia ele falou com Borba que gostaria de participar do programa e se apresentar como candidato a locutor. E, num belo sábado lá estava o Mário Lucio com um texto a mão em frente as câmeras do canal 13, com muita desenvoltura mostrando sua maravilhosa voz.
Na banca de jurados, entre outros, estava Xênia Bier, que elogiou muito a voz dele e também a leitura do texto, mas fez um reparo:
— Esse rapaz não pode participar do programa porque ele é funcionário da TV Bandeirantes. É meu porteiro.
No que foi também apoiada por outros, entre os quais o diretor artístico da Rádio Bandeirantes, Clodoaldo José, também do júri.
Ponto. Jogaram um balde de água fria no sonho do Mário Lucio. E ele não participou da disputa com os demais participantes do programa. Ainda bem que era o Mário Lucio, um cara muito educado, porque se fosse um outro Mário, porca miséria!
e-mail do autor: [email protected]