Meus tempos de USP – 1948-1951

No começo de 1948 prestei vestibular (não a loucura de hoje, bem mais simples). O cursinho tinha feito no próprio colégio, com os professores do científico.
Por que escolhi o curso de História Natural?
Entre o vestibular para a Faculdade de Medicina e Faculdade de Filosofia Ciência e Letras da USP (magistério para curso secundário) escolhi o segundo. Que eu tinha tendências para Ciências Biológicas, não tinha dúvidas. Minha vontade mesmo era estudar Medicina, mas depois de muito pensar, optei por História Natural porque achava que poderia, como professora, ter uma carreira compatível com uma família que eu pretendia ter. Hoje, analisando melhor, vejo que, não ter feito medicina me frustrou um pouco. Só um pouco. Era o que eu gostaria de ter feito, mas o vestibular para Medicina era muito difícil, e agora, acho mesmo que a minha opção foi mais por covardia.
Entrei, e comigo entraram mais 22, a maioria vinda de reprovações em Medicina, e que voltaram a prestar vestibular no ano seguinte.
O primeiro ano foi difícil, de adaptação, de greve de alunos e até segunda época de Química, coisa para mim excepcional. Tive caxumba na época de exame, mas eu acredito que tenha sido por não entender nada da Química. Só foram para o segundo ano cinco alunos: Helena Villaça, hoje Cerqueira Cézar, com quem ainda mantenho contato, Eudóxia Maria de Oliveira Pinto, Cláudio Gilberto Froelich, que no fim do curso se casaram, Liliana Forneris, que permaneceu solteira e trabalhando na Usp, e eu, então Neuza Guerreiro.
A ida para a Faculdade me propiciou mudança completa de ambiente. Vindo de um colégio médio, com colegas se não do mesmo bairro, pelo menos de níveis sociais parecidos, agora meu ambiente era muito heterogêneo. Colegas de bairros mais sofisticados, de níveis culturais mais altos, alguns estrangeiros cultos (Liliana e Cláudio), outros de pais já com nome como cientistas (Eudóxia) e pessoas mais finas como Helena filha de um médico famoso, Dr. Cássio Martins Villaça, morando em uma mansão no Pacaembú, indo à Faculdade de carro com motorista.
A única que tinha mais ou menos o meu nível social e cultural era a Walburgis, mas como era viva, esperta, namoradeira, independente, vistosa, compensava talvez a frustração de morar na Mooca, um bairro operário. Pelo seu comportamento, não tivemos muito em comum.
Eu era tímida, sem quase nenhum embasamento familiar no que se referia à cultura, vindo de um bairro também operário, o Ipiranga, compensava não com comportamento moderno, mas estudando tanto quanto podia. Mas nunca fui aluna brilhante.
Na nossa turma quem se sobressaia pela dedicação aos estudos era a Eudóxia Oliveira Pinto que no final do curso se casou com Cláudio Gilberto Frölich, e fez carreira universitária, passando todo o seu tempo profissional estudando Planarias (um verme). Liliana Forneris brilhante também, fez carreira universitária na Zoologia. Helena. nunca trabalhou na profissão, casou, constituiu família.
Fiz l8 anos ainda no sobradinho.
Aos 20 anos, continuava sempre estudando, lecionando e sem me interessar por ninguém.
Do curso me lembro bem. Foi ótimo, bons colegas, bons professores. Félix Rawitscher, de Botânica, Ernest Marcus, de Zoologia, Saldanha da Gama de Mineralogia, Moacir Coutinho de Petrografia, Victor Leinz de Geologia, Paulo Sawaya de Fisiologia, André Dreyfus de Biologia. Assistentes que deixaram lembranças: Diva Diniz Correia, Michel Sawaya, Domingos Valente, Erasmo Garcia Mendes, Marta Vanucci, Rosina de Barros, Clodoaldo Pavan, Antonio Brito da Cunha, Elisa do Nascimento, Rui Ribeiro Franco, Rui Osório de Freitas, Josué de Camargo Mendes, Sérgio Estanislau do Amaral.
Um dos nossos professores mais queridos era André Dreyfus, prof. de Genética. Para demonstrar a ele essa nossa simpatia, nós da minha minúscula turma, achamos que ele merecia uma homenagem, qualquer que fosse ela.
Havia nessa época, um programa de rádio Honra ao Mérito , onde personalidades eram homenageadas com um programa em que se salientava fatos vividos, pessoas ligadas à vida do homenageado. Tudo era surpreso, conhecido só no momento do programa e que causavam grande emoção em quem estava recebendo a homenagem. (já apareceram diversos programas na mesma linha, agora na Televisão).
Assim, procuramos o produtor e roteirista do programa, Walter George Durst, que nos atendeu muito simpaticamente e escreveu a história de vida do prof. Dreyfus. Foi um sucesso.
O texto começava assim: …uma ervilhinha amarela….uma ervilhinha verde…., uma alusão à leis de Mendel da qual o prof. Dreyfus nos falava nas aulas.
Em março de 2000 consegui, o texto em questão. O original tem 50 anos e veio até com o discurso de agradecimento do Prof. Dreyfus. Veja anexo.
O ambiente na História Natural era diferente. O curso funcionava em um casarão antigo na Alameda Glette, esquina da rua Guaianazes. Ia sempre de bonde e ônibus e voltava de ônibus, ou então meu pai me levava.
O lugar era péssimo, perto da zona pesada (já então). Eu passava o dia na Faculdade, almoçava lá em um restaurante simples, a cantina de D. Carolina, ao lado de uma árvore centenária a já famosa Figueira. As salas de aula eram todas adaptações de quartos e até cozinhas residenciais, com escadas escuras e fantasmagóricas, mil cantinhos perigosos As aulas de Química eram em um prédio anexo, onde durante algum tempo estudou um rapaz que matou a mãe e os irmãos e os enterrou em um poço no fundo de seu quintal: o famoso crime da rua Santo Antonio. A Física era na Brigadeiro Luiz Antonio + ou – 600 com o prof. Rômulo Pieroni. No final do curso tivemos aulas de Didática (prof. Onofre) e Psicologia Educacional (prof. Arrigo), na rua Maria Antonia. Nunca estudamos nos prédios da Cidade Universitária. Nem existiam ainda. A primeira turma que estudou lá foi a de 1957..
Nas minhas lembranças estão:
. O exame de trânsito que prestei em junho de 1951.
. Meu carro Volvo, 1951, do ano.
. Árvore centenária cujo tronco ficava em frente à cantina da Faculdade, na Al. Glete e cuja copa, saindo pelo muro da r. Guaianazes atravessava a rua até a calçada do outro lado.

Do meu comportamento nesse tempo o que posso comentar:
– Poucas viagens. Íamos às vezes para Atibaia, para a Estância Lince e uma vez ficamos, sozinhas no hotel eu, Helena e Liliana. Não era usual na época e foi um avanço no comportamento.
– Namorado – nenhum, nem ameaços.

– Programas mais ousados – nem pensar. Não era de minha formação nem do meu contesto familiar quadrado e antiquado para o novo ambiente em que eu vivia. Apesar de ter 20 anos, quase não saia sozinha a não ser para a Faculdade. Também era tímida.
– Pouco ligada à moda, não sabia bem como me vestir (nunca soube, pelos tempos afora). Fazia da Helena meu modelo, mas não chegava a seus pés em elegância e classe. Já então usava roupas compradas feitas, ou mandadas fazer em costureiras que nessa época proliferaram. Eram pessoas que não queriam ser operárias, aprendiam um oficio e a ele se dedicavam. Na rua Lucas Obes (na primeira casa) uma amiga, Abigail, terminado o curso primário e tendo que trabalhar foi ser "costureirinha", trabalhando em casa ou em lojas grandes. Não era uma profissão bem conceituada.
– Usava os perfumes da época em meu contexto social, – os populares e quase únicos – L'Aimant e Emeraud Coty, Pó de arroz Coty (caixa cor ocre com estampas de esponginhas), Nas classes sociais mais elevadas usava-se perfume francês e conta minha tia Nena, que uma de suas freguesas de costura, tinha uma camareira que passava tais perfumes até nas portas dos armários de roupa.

Durante essa época e em um futuro próximo a ela, vivi mudanças intensas: o advento do Modess, por ex., deu à mulher uma independência que só pode ser avaliada por quem viveu nas duas épocas: a das toalhinhas higiênicas (vendidas até em magazines ou feitas em casa), laváveis, trabalhosas, constrangedoras, volumosas, anti-higiênicas, e depois os absorventes descartáveis relativamente baratos, fáceis de usar (e vem sendo cada vez mais) -embora no começo houvesse até cintinhas especiais com presilhas – discretos, higiênicos. Mesmo assim, foi preciso muita propaganda e preparo para se tornar um hábito.
Vivi também a saga do Papel Higiênico, a partir de folhas de jornal ou papel manilha previamente cortada e dependuradas ao lado do vaso sanitário. Dá para imaginar tal situação?

Já no final do curso comecei a trabalhar com responsabilidade.
Dei aulas particulares para interioranos que vinham prestar concurso para professor de Ciências. Dei aula também no cursinho do professor Max Gevertz (que me deu a primeira oportunidade de trabalho) na rua da Liberdade, em uma sala que ficava no fim de uma escadaria, e aí conheci o Ruy, a Mê, e o Décio que me apresentaram o Ayrton. Dei aula também no Colégio Independência, do prof. Leo Bonfim.

Minha vida familiar corria bem. Mudamos do sobradinho para uma "mansão" (pelo menos para nós era isso), na Av. D. Pedro I 1236. Era uma casa muito grande: jardim com 8m de recuo, terraço toda frente…A casa foi mobiliada como casa fina. Engraçado é que não tínhamos telefone (não era fácil na época). Até um piano novo eu tinha. Meu avô (pai de minha mãe) morava conosco e por isso tínhamos então mais contato com meus primos pelo lado materno.
Também continuávamos convivendo com a família paterna. Em 1951 ganhei um Volvo, do ano, mas fiquei com ele só alguns meses, porque meu pai, mal nos negócios teve que devolvê-lo. Comecei a dirigir em junho de 1951 e nunca mais parei. Meu pai tinha um Mercury 1949, azul metálico, e esse ficou.
Em 2 de setembro de 1951 conheci o Ayrton. Mas isso já é uma outra história, que abre uma nova fase em minha vida.