Meus Tempos de Ginásio Paulistano – 1941-1947

Quem estudou nessa época nesse Ginásio, certamente vai recordar muita coisa.

Toda a minha adolescência – nem se usava o termo na época – está ligada ao Ginásio Paulistano. Em fins de 1940, fiz o curso de Admissão de três meses, nesse ginásio, que ficava longe de casa. Eu ia de bonde, do Ipiranga até a rua da Glória, andava a pé toda a rua São Joaquim até a Rua Taguá, onde ficava o ginásio.
O Ginásio Paulistano foi muito importante em minha vida. Freqüentei durante sete anos suas salas, seus corredores, sua quadra de Educação Física, seus pátios e recreios (separando os meninos das meninas), seu auditório.
Nos meus primeiros dois anos no ginásio, (1941-42), o curso ginasial funcionava no prédio principal, na Rua Taguá 150. Quando eu estava nas 3ª e 4ª séries (1943-1944), o curso ginasial passou para um prédio novo, com frente para a Rua São Joaquim e entre os dois prédios pelos fundos de ambos, havia uma grande área aberta, de interligação, hoje toda construída. No curso científico passamos de novo para prédio da Rua Taguá e ali ficamos os três anos do curso: grande saguão onde terminava a escada da frente, uma portaria onde seu Campos carimbava as cadernetas de presença e de notas, uma sala à direita com laboratório de Física e uma sala à esquerda com laboratório de Química. Nova escada larga dava diretamente para o auditório e em nível mais elevado ficavam as salas de aula, que não deveriam ser muitas. Na frente, um amplo jardim em toda a largura do prédio bem isolado de ambos os lados, com corredores largos, por onde se entrava. Plantas pequenas, baixas e bem cuidadas. Era um ginásio particular e com mensalidade cara para nosso padrão – na 1ª série do ginasial, em 1941 eu pagava $50.000 (cinqüenta mil réis).
Colegas desse tempo?
Revendo a fotografia de formatura da quarta série ginasial, em dezembro de 1944, me lembro de alguns: Silvia Tuth Medeiros a quem eu era muito ligada, talvez porque era alta, bonita, contrastando comigo que era baixinha e feiosa. Nair O' Hara, uma japonesa muito rica, em cuja casa estive e que me encantou pelo luxo; Maria de Magdala, portuguesa também rica com uma casa muito linda, onde pela primeira vez eu vi um biombo; Irene de Mori, que reencontrei na Faculdade fazendo Letras; Rosita Arantes, Diógenes Marins Favery, Lélia Menucci, Neiva Therezinha Costa, Guaracy Mirgalowska, Jeanne Hortense Villin, Rubens Retroz (irmão de Orlando Retroz um grande organista)
Quando passei para o curso científico (havia também o clássico), o ambiente mudou completamente. Éramos só quatro mulheres para uns 40 homens. Havia até preconceito de mulher fazer o científico. Dos colegas me lembro de poucos José Renato Borghi (gozador e brincalhão, vivia amarrando cordões dos sapatos nas carteiras); Antonio Rubino de Azevedo (também muito alegre), Olintho Grazziani Maria Aparecida Paskowisk (Zeth) …

Professores?
Lembro-me de: Professor Chiquinho, de História; Matemática, foi dada por Renato Pasquale, no ginasial e Osvaldo Sangiorgi, no científico; Português foi matéria lecionada por Rafael Pero Sobrinho, no ginasial e Francisco da Silveira Bueno no Científico, sempre sério, mas muito competente e que também dava aula de Literatura. Antonio de Sá Ferros, – no científico, português que ensinava Francês com sotaque português deixou na minha lembrança a primeira estrofe da Marselhesa : Allons enfants de la patrie…..; .e Monsier D'Arnoux, dava aula de Francês no ginasial; Lybio Pasquale ensinava desenho; Mr. Sheppard dava Inglês; Celestino Correira Pina era professor de Latim; d. Chiquita, dava Ginástica e Margarida Taranto, ensinava Inglês; Deusdá Magalhães Mota, era o prof. de Geografia e Ernestino Lopes, de Biologia (usava "apostilas, não comuns na época). Max Gevertz, lecionava Física, Nelson Tartucci, Química, Maestro Domingos Bentivegna, Música. Abraão Korkes ensinava Ciências (então só na 3ª e 4ª séries). De suas aulas devem ter surgido as sementes de meu gosto pelas Ciências. Tenho até a memória fotográfica de meu caderno de Ciências, bem escrito, ilustrado, de espiral e capa cinzenta. Na época (1943-1944) só se estudava pelo caderno: fazia-se um rascunho durante as aulas e passava-se a limpo em casa.

Como os ginásios que tinham curso ginasial eram centrais, para eles convergia gente de todos os bairros. Isso fazia com que a convivência com os colegas fosse quase que exclusivamente na escola, não se estendendo fora dali. Assim, no meu tempo, as colegas de escola eram só de escola.
Por volta de 1941-42, tive duas amigas, Perla e Rachel Piltcher e através delas vi pela primeira vez um piano e tomei meu primeiro contato com música.
Nessa época ouvia-se muito rádio. Já começavam as novelas diárias ou três vezes por semana.
Ouvíamos também às 5h da tarde um programa de tangos argentinos cujo prefixo era Ri-Fi-Fi. Nos fins de semana, sábados logo depois do almoço e domingos à tarde, havia o célebre Teatro Manuel Durães. Não se perdia.
De minhas fantasias de adolescente ficaram na lembrança os "vestidos" que eu fazia com restos de tule que minhas tias me davam, vendo-me como bailarina. Fazia parte da indumentária um colar de contas azuis, de cristal (ou vidro) que me enfeitavam. Nessa fase narcisista, quando ia à casa de minhas tias me encantava com minha imagem refletida nos espelhos de seus "psichés" que por serem angulares multiplicavam essa imagem. Isso me fascinava.
Durante minha infância e adolescência, embora não me ligasse muito em roupa, só fazendo disso um valor indispensável, ficaram na minha lembrança, por exemplo, os algodões comuns para roupas caseiras, com o qual se costuravam em casa as roupas íntimas, como calcinhas e soutiens, as "combinações", camisolas, cuecas e pijamas. Durante muitos anos (quantos?) minhas calcinhas foram feitas por minha mãe, costuradas à mão com moldes tradicionais. Meus vestidos também eram costurados em casa, com fazendas bem simples, geralmente algodõezinhos estampados. Até meu vestido de formatura do ginásio, em 1944 foi minha mãe quem fez.

Ainda na minha adolescência, nos mudamos para outra casa, na mesma rua Lucas Obes, agora do lado de baixo da rua Silva Bueno, em frente a Fabrica de Juta. Tinha o numero 612. O assoalho já era de tacos, encerado (palha de aço para tirar a cera velha, cera passada com a mão, ajoelhada, escovão para o primeiro lustro e escovão mais pano de lã para o brilho final). Cozinha e banheiro no corpo da casa, banheiro em baixo ao lado da cozinha e não dos quartos, chuveiro elétrico e banheira. Sala de jantar completa: mesa elástica, bufet, etajer e cristaleira. Tivemos a primeira geladeira, importada, Crosley Shelvador, Na cozinha, não mais guarda – comidas, mas, guarda louças, com vidros em lugar de tela e prateleiras forradas com papel com bordos picotados em desenhos variados. Era arte da dona de casa ter desenhos complicados e bonitos. Mais tarde, tais papéis já eram vendidos prontos.

Meu ídolo de adolescente era Chopin. Data dessa época um filme sobre a vida de Chopin, À Noite Sonhamos, bem holiwoodesco, muita fantasia sobre fatos reais e muita música (cuja qualidade hoje contesto, sendo mais comercial do que verdadeira). O pianista era medíocre – José Iturbi – mexicano, desaparecendo depois do filme. Assisti a esse filme umas oito vezes.
Eu não tinha nenhuma ligação com música popular e não saberia dizer o que marcou essa época.

Lembranças do tempo de curso ginasial e colegial:
. A moeda de 400 réis, grande, brilhante, que meu pai nos dava, a mim e à minha irmã quando íamos acompanhá-lo até o ponto do bonde e que dava para comprar dois doces na padaria da esquina.
. O bonde "cara-dura" que ficava atrelado ao principal e que cobrava a metade da tarifa, isto é, um tostão.
. Com passe escolar pagava-se um tostão o bonde comum.
. O bonde "camarão", grande, maior que os outros, vermelho, cuja cobrança era feita só na saída, com o cobrador sentado, só para controlar. O camarão Angélica era mais luxuoso que os outros: tinha tapete, as portas abriam automaticamente, e os bancos eram estofados. Chamados de Gilda
. Os bondes cheíssimos, com cinco ou seis pessoas sentadas nos bancos e outras tantas entre os bancos. Descer era uma aventura. Os estribos eram apinhados, com passageiros em várias "camadas", e o cobrador fazendo malabarismo para cobrar a passagem, registrar a cobrança e dar o troco.
. As varetas que ficavam do lado esquerdo do bonde, e que o protegia. No ponto final era passada para o outro lado e quando ela e os bancos eram virados todos pagavam passagem de novo.
. As placas de metal com letras recortadas para indicar o itinerário dos bondes, com luz por trás. Depois substituídas por rolo de pano, girado com manivela.
. Os postes com faixas brancas pintadas para demarcar os pontos onde os passageiros esperavam o bonde
. O barzinho na esquina da Rua São Joaquim com Rua Galvão Bueno onde, em 1947, todas as tardes eu tomava um Toddy a caminho do cursinho que era durante o terceiro Científico, no próprio Ginásio Paulistano..
. O itinerário do bonde Fabrica que era longo: saía da Praça da Sé, descia a Rua da Glória onde eu o tomava, continuava pela Rua do Lavapés, Largo do Cambuci, Rua da Independência, Av. D. Pedro I, Rua Tabor, Rua Bom Pastor, Rua dos Sorocabanos, Rua Silva Bueno, até o Sacomã. Eu descia uns nove ou 10 pontos antes do final. Fiz esse itinerário durante sete anos.
. Música de coral com o prof. Domingos Bentivegna
o "Trinta dias tem novembro
o Abril, junho e setembro
o Vinte e oito só tem um
o E os mais todos trinta e um."

Mais ou menos em 1947-48 tínhamos um carro – Chevrolet coupê 1939 – e costumávamos ir à Vila Atlântica, na Praia Grande. Ficávamos hospedados em uma casa velha, quase na beira da praia, que servia de hotel.
Nessa época, conhecemos duas pianistas que desapareceram do cenário artístico: Marina Mendes Leite e Elce Panaim. Em casa da primeira assistimos a uma audição do maestro Souza Lima.