Quando criança, na década de 60 e já no meio das turbulências do regime da ditadura militar, eu vivia em um paralelo aos fatos que aconteciam na capital paulistana e, consequentemente, em todo o país.
Mandatos políticos eram cassados por força do famoso AI-5, estudantes eram presos, o DOI-CODI e suas temíveis masmorras que encerravam intelectuais e revolucionários, ainda não desenhavam em minha mente infantil o que, de fato, significavam os horrores daquela situação.
Minha vida era pueril e de velada inocência, nem tão inocente assim, pois, já começava a desenvolver a minha mente para alguns dos prazeres juvenis e já despertava para alguns interesses que a idade pudesse me favorecer. Estava na chamada “fronteira” da transição da infância para a juventude. A doce idade já se avizinhava e mostrava a sua aproximação com as famosas espinhas no rosto, a impostação da voz, o interesse pelas meninas, a música, carros e roupas. Enfim, nada diferente dos jovens de hoje em dia, pois se trata de uma mutação universal.
Com este cenário, sempre encontrava com outros garotos de turmas diferentes da minha e o que mais “rolava” em nossas conversas eram as absurdas mentiras ou “papos-furados” como se dizia – e ainda se fala – quando a mentira é muito “cabeluda”.
Parecia uma disputa de poder e posições onde só os mais afinados conseguiam perceber que tudo ou quase tudo o que se falava naquela roda de “caras-de-pau”, eram mentiras. Tínhamos as mais mirabolantes “estórias’ de alguns que já haviam viajado para o exterior, que outros já tinham morado na Europa, que alguns eram amigos pessoais do Roberto Carlos, outros só faziam suas refeições no Terraço Itália. Havia ainda aqueles cujos pais eram alguém importante no governo, mas, por força da “discrição” não gostavam de serem “citados”.
A farsa ainda seguia adiante quando algum deles bradava em alto e bom som que o pai era proprietário de um belíssimo Jaguar com motor de doze cilindros em “v” ou de um reluzente Cadillac “último tipo” com todos os confortos internos. Pelo Cadillac menos mal, mas, um Jaguar com motor de doze cilindros em “v”? Sei lá… Pelo pouco que entendia a respeito do famoso bólido inglês, ele vinha com no máximo uns oito cilindros em “linha”, mas, mentiras são sempre mentiras…
Eu sempre entrava em uma “saia justa”, pois as mentiras que eu lançava eram sempre muito “cabeludas” e, portanto, “inacreditáveis’, o que faziam com que todos tirassem o maior sarro de minha cara.
Em certa oportunidade e passeando pelas calçadas da Avenida Paulista, deparamo-nos com o muro que cercava a mansão do mais famoso industrial milionário do Brasil, a mansão da família Matarazzo. Chegando ao portão principal, eu e minha turma de 'mentirosos', deparei-me com o motorista particular do conde. Eu já o conhecia e, isso era verdade, pois de vez em quando ele passava na Rua Santo Antonio, lá no Bixiga e parava na farmácia do Álvaro para comprar alguns remédios e, não por acaso, eu sempre o atendia, já que vezes ajudava o Álvaro no balcão.
Já próximo ao grande portão cumprimentei-o com um curto “oi”, ao que fui correspondido e, já me aproximando dos umbrais da entrada ele me disse: “- Eu te conheço…” Disse-lhe que sim e, já bem próximo dele, perguntei se poderia beber um pouco d'água para aplacar a sede que sentia, ao que ele permitiu, indicando-me uma mangueira logo atrás do muro, dentro do jardim da grande mansão.
Os garotos de minha turma ficaram atônitos e, a certa distância, não puderam ouvir o que eu havia dito ao motorista e, absortos, viram-me entrar mansão adentro e sumir por detrás da muralha. Retornei instantes depois e, agradecendo com uma despedida cheia de intimidades, disse ao motorista que voltaria mais tarde para lanchar. Não sei se ele entendeu, mas complementou a minha farsa dizendo para não me atrasar. Depois de um breve aceno com as mãos, despedimo-nos e eu segui meu caminho com o “bando” de mentirosos avenida afora.
Eles não estavam acreditando no que acabaram de ver e muito ansiosos me interpelaram a respeito de qual era a minha ligação com o motorista dos Matarazzo, ao que eu respondi: “- Com o motorista… Nenhuma. Mas com a família… meus laços “sanguíneos”. Sou sobrinho do conde Francisco e da condessa Mariângela Matarazzo. Os olhos de alguns deles quase que saltavam de suas órbitas pela espetacular surpresa e inacreditável afirmação. Certo que, bastou apenas um deles duvidar da veracidade de minha “familiaridade” com o conde para que todos passassem a desconfiar como em um coro de jogral.
Dúvidas e suspeitas de todos. Enchi-me de razão e os convidei para “tirar a limpo” a minha “verdade”, ameaçando a cada um de que se fosse confirmada a minha “parentela” com os Matarazzo, eu “quebraria no pau” cada um deles.
Esta minha atitude serviu para acomodar, pelo menos por enquanto, os ânimos de surpresas e dúvidas de quase todos eles, mas não me livrei dos questionamentos do tipo: “Se eu era parente do Matarazzo, por que, então eu morava em uma casa humilde e não tinha as posses que todos da família possuíam”.
“- Verdade seja dita”, disse-lhes. “Nem todos que carregam o “nosso” sobrenome vivem de luxo e riqueza”. “Mas, se você e sua família são parentes, poderiam ser ajudados pelo conde, ou seja lá o que ele for” – disse-me um deles. “- O conde não tem obrigação de ajudar ninguém só por que carrega o sobrenome…” “- Mas você não tem o sobrenome Matarazzo. Eu sei, pois na chamada da escola o teu sobrenome é Assis.” “- E o que isso tem a ver… Meu sobrenome é da família de minha mãe, pois meu pai não me reconheceu.” “- Ha, ha, ha… escarneceu um deles. Vem com outra, Nelsão… não estou comendo nada desse seu papo.” “- Comendo ou não, sou parente do Matarazzo e pronto. Só não sou mais chegado a eles por que a minha família não se “bate” muito com a família dele.”
Essa discussão durou um bom tempo e, como o tempo é senhor absoluto de tudo, toda verdade veio à tona e, não só a minha, mas, a farsa de todos foi desvendada e deu lugar a uma enorme gozação coletiva. Era costume, naqueles tempos de rapazes, dizermos que tínhamos posses ou que éramos parentes de alguém importante da cidade, mesmo sabendo que tal mentira um dia seria descoberta. Por sorte, não tivemos maiores problemas por nossas “inverdades” juvenis e os Matarazzo's nunca ficaram sabendo que eu fui “parente” deles, pelo menos até agora e depois que escrevi esta crônica.
Como diz o velho ditado: “Mentira tem perna curta… mas, chega aonde quiser”.
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