O primeiro carro a gente nunca esquece. Pelo menos esse é o meu caso. Em 1970 comprei o meu primeiro carro. Entre duvidas, perguntas e experimentos, decidi, vou comprar um “Gordini”!<br><br>E não era um Gordini qualquer, era um Gordini III, ano 1967, de uma única dona anterior, uma médica, conforme afirmação do vendedor da loja que tinha cara e jeito de homem honesto (difícil de acreditar, hein? Um vendedor de carros honesto!)<br><br>Mas havia um problema a resolver, e não era um simples probleminha. Eu não sabia dirigir e nem tinha habilitação para tal. Mas o mais difícil já estava resolvido, o “carro” já estava lá na garagem, lustrando, perfumado, me esperando.<br><br>Comecei a praticar com meu irmão mais novo que, apesar de ser mais novo, era mais atrevido e esperto do que este que vos escreve. Eu gostava de dirigir descalço, pois o sapato me atrapalhava, e gostava de dirigir em retas porque assim não tinha que ficar fazendo aquelas manobras horríveis.<br><br>O carro era guardado na garagem na casa de um vizinho, que havia me emprestado o espaço. Garagem era modo de dizer, era somente uma entrada de carro no portão da casa do “sangue bom”, que nada me cobrava para guardar o “possante”.<br><br> Uma tarde meu irmão me disse:<br> – “Vamos treinar um pouco de volante?”<br><br>E eu no afã de dirigir concordei imediatamente. Mas impus uma condição?<br>- "Eu tiro o carro da garagem". <br><br>O mesmo concordou e disse que me daria orientações do lado de fora do veículo. Entrei no carro, liguei, engatei a marcha-ré e pisei fundo no bichinho, saiu até patinando… Ai eu bati no portão e derrubei o muro do vizinho. Ainda tive a coragem de maldizer o muro, que era um pouco torto. Tive que arcar com os prejuízos do muro, do portão e do carro.<br><br>A vida é assim. Acabei aprendendo a dirigir no coitado do Gordini. Não sei dizer quantas vezes andei com o coitadinho freado, e só conseguia perceber a barbeiragem quando a fumaça começava a tomar conta do veiculo. Ele me carregou por mais de três anos. Eis que um belo dia que resolvi trocá-lo e ai recebi o castigo merecido pelos maus tratos a ele dirigidos. <br><br>Em uma manhã de domingo, fui a uma agência de carros perto do Museu do Ipiranga onde havia visto um anuncio de um carro que me interessava. Inspecionei o carro a ser comprado e o vendedor inspecionou o Gordini a ser dado como parte do pagamento. <br>Tudo ficou acertado para ser finalizado na segunda feira seguinte. Me despedi e sai. Na primeira esquina o Gordini parou completamente, nada mais funcionava. Virava a chave na partida e nada de sinal. Como estava acompanhado pelo meu irmão e pelo meu pai, resolvemos empurrar o carro ladeira acima e soltar na banguela para tentar fazê-lo funcionar no tranco.<br><br>Depois de tantas tentativas sem sucesso, chegou um motorista de taxi que observava nosso desespero e gentilmente nos perguntou:<br>- “Será que esse carro não tem segredo de segurança?”<br>- “Acho que não”.Respondi prontamente, pois nunca tinha acontecido esse problema e ninguém nunca havia me falado em tal segredo.<br><br>- “Deixe-me dar uma olhada”, disse o taxista. <br><br>E pacientemente olhou dentro de todo o carro, embaixo do painel, atrás dos bancos e nada de segredo. Quando já nos preparávamos para desistir e contratar um mecânico na<br>segunda feira para dar uma olhada no carro eis que o taxista abre o “porta documentos” do carro e lá no fundo encontra um tipo de registro O rapaz apertou desapertou e apertou o tal registro e falou:<br>- “Dê a partida”.<br><br>Não deu outra, o carro funcionou na hora. Quase que dei um beijo no taxista, mas não era hora para tanta intimidade, agradecemos e fomos embora. Na segunda feira, levei o Gordini à agência e troquei o danado por um carro mais novo. Mas até hoje sinto saudades do meu primeiro carro, um "Gordini III"que me fez muito feliz, apesar dos contratempos.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>