Ano de 1980, era eu motorista de uma autoridade da 2ª escalação do Governo Paulo Maluf. Meu chefe, homem de poucas palavras, sério, digno de uma personalidade notável. Certo dia, ele disse: – Vamos á Santo Amaro, Chácara Flora, Rua Visconde de Porto Seguro. No caminho, mais nenhuma palavra.
Chegando ao endereço determinado veio a orientação: – Nós viemos buscar o Presidente Jânio Quadros, assim que ele chegar, você desce do carro, põe a mão direita para trás, abra a porta traseira e cumprimente o só com a cabeça, entendeu? – Sim Senhor.
Ao saber de quem se tratava senti um frio na espinha e as minhas pernas tremeram. Assim que o homem chegou, fui cumprir a tarefa, eis a surpresa, depois de me dirigir os cumprimentos com um forte aperto de mão, ele disse: – Pedro (nome fictício) vá você atrás, eu vou na frente com o Chofer (assim ele me chamava).
Corri para abrir a porta da frente e deixei meu chefe na mão, ao entrar no carro perguntou o meu nome, respondo meio gaguejando: – Joubert. Pelo retrovisor observava o semblante sério de meu chefe. O destino era a Rua Martins Fontes no centro, Hotel Brasilton (não Hilton). Ao chegarmos umas 20 autoridades os esperavam.
Entraram por uma porta lateral, recomendação do chefe, e disse: – Esteja aqui às 10h, às 9h. já estava lá. Por volta da 00h30 apareceram o pessoal, desta vez ele foi no banco de trás, paletó no braço, gravata solta enrolada no pescoço, camisa meio aberta, acho que uns dois litros de whisky foi pouco, o que se passou lá ninguém sabe.
Na volta só eu e ele, meu chefe não foi, mas não faltou sermão, cuidado com isso, com aquilo, não corra etc. – Chofer faça o caminho que achar melhor. Disse ele. Lá fui eu, todo entusiasmado pela 23 de Maio, durante o percurso fui escutando suas histórias que delícia!!! Mestre nato em comunicação.
Lembro-me de algumas palavras suas. – Estou terminando de construir uma casa no Guarujá, não gastei um centavo, meus amigos engenheiros, construtores, empresários, fizeram-na para mim, mas a imprensa diz que roubei, tenho sim umas casinhas alugadas, afinal não sou burro, sou advogado, professor, escritor e ganhei algum dinheiro.
– Chofer, me censuram porque bebo, bebo mesmo, gostaria de ter 4 mãos, porque ai seguraria quatro copos ao em vez de dois. Chofer, batendo em meus ombros, hoje eu e a Eloá ainda vamos assistir um faroeste com John Wayne, gosto muito de bang-bang (não lembro o nome do filme). Gente vocês não imaginam que papo gostoso.
Chegamos, gostaria que o passeio nunca tivesse terminado, ao descer pediu para aguardar, trouxe-me uma garrafa de vinho "Thomaz Máster", tenho até hoje, fez questão de me apresentar o Totó (seu cachorro). Pela segunda vez tive a oportunidade de pegar em sua mão e me despedir, ao fundo Dona Eloá me acenava dando Adeus.
Fiquei ali parado por alguns minutos não acreditando, minhas pernas já não tremiam mais como no primeiro encontro, parecia um sonho. Assim é o cidadão Jânio Quadros, como político todos os conhece, um verdadeiro líder, mas analisando o seu lado humano, só mesmo quem conviveu com ele, nem que por alguns minutos. A decisão é de vocês…
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