Meu irmão não gosta de mim

No começo dos anos 60 morávamos na Av. Santo Amaro, próximo ao Hospital São Luis. Paralela à avenida havia uma ruazinha pequena, com vários sobradinhos geminados, muito tranqüila, quase não passava carro. Era ali que juntavam os meninos e meninas do pedaço para as brincadeiras de rua. Jogávamos peteca, queimada, vôlei, andávamos de patins, patinetes e bicicletas. Bolas de gude, pipas e outras mais.
Eu, com 11, 12 anos, não via a hora de chegar da escola, tirar o carrancudo uniforme de colégio de freiras, vestir minha calça "rancheiro", meu "bamba" e ir me juntar à turma. Aos sábados e domingos valia ir de saia plissada de Tergal e conjunto de Banlon.
De vez em quando eu tinha um grave problema: minha mãe, atarefada com os afazeres domésticos, me impunha meu irmão de 3, 4 anos para eu tomar conta. E aí, michava a liberdade de brincar à vontade.
E ela ainda dizia: – Nelsinho, não larga a mão da sua irmã!
Mas como correr, brincar, jogar bola com um molequinho grudado na minha mão?
Só me restava uma alternativa: juntava algumas meninas e caminhávamos pelas ruas vizinhas para dar uma canseira nele e logo levá-lo para casa, alegando que ele estava exausto. E íamos descobrindo os arredores.
Num desses passeios, vimos uma porta entreaberta. Era os fundos do Hospital São Luis, mais precisamente um necrotério, onde os defuntos aguardavam o serviço funerário. Crianças curiosas, é claro que entramos pois não havia ninguém vivo por ali. Só mortos. Ficamos apavoradas, meu irmão mais ainda, e saímos correndo para casa.
Apesar do susto, me valeu muito, pois toda vez que minha mãe me mandava levar meu irmãozinho comigo eu passava pela local apavorante e ele logo queria ir para casa.
Por essa e por outras é que acho que meu irmão não gosta de mim!