A figurinha, pequena e tão magra afastava-se cada vez mais do portão de casa, afundando-se pela praça vizinha. Estava fugindo. Só lhe faltaria mesmo ter ao ombro uma trouxinha com seus badulaques, presa a um varapau, como um personagem de Lobato. Ao lado, uma movimentada avenida.
Estava fugindo. Até que foi avistado pelos pais. Fugindo. Aonde ia, e por quê? Que se passava em sua cabeça, naquele momento? Perguntas que eu me faria muitas vezes, em diferentes ocasiões ao longo dos anos. Ivan era uma caixa de surpresas, a mente ágil e inquieta sempre desorientaria quem esperasse algo de previsível dele.
“Quo vadis, Domine”, dizem que Pedro perguntou a Jesus, numa surpreendente aparição deste, em uma porta da velha Roma. “Quo vadis”, também, meu irmão. A tantos lugares do mundo você foi, à procura talvez de si mesmo.
Suas atitudes e ideias, sempre surpreendentes, eram muitas vezes opostas às minhas. Carreiras, credos, caminhos bifurcados, mas no fim nos encontrávamos na próxima curva, e nunca deixamos de nos gostar.
Sua imaginação prodigiosa o arrastava, como uma locomotiva a sua composição, desbravando portais. Mauricio de Souza declarou-o, certa vez, o maior roteirista do Brasil, e ainda nem tinha visto nada. Logo Ivan chegaria aos cumes de sua carreira, como argumentista das revistas Disney da Editora Abril.
Os estúdios da Rua do Cortume, em São Paulo, sede da Abril Infantil vibravam com suas visitas.
Eclético, havia sido bancário, dono de consórcio e de lotérica na Pauliceia, mas ali na Abril achou sua consagração.
“Quo vadis”? Não sabemos onde iria, mas o Céu era seu limite, não tivesse sua saúde tropeçado a caminho.
Em um livro, um retrato carinhosamente pintado, montado e reconstituído por sua filha Lucilla pode-se entrever um pouco mais dessa figura extraordinária.
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