Meu herói amado… Meu pai

Bem pertinho de casa, a uns trezentos metros mais ou menos, temos um parque com uma trilha de 1 quilômetro e 609 metros, onde costumo fazer minhas caminhadas diárias, a não ser quando tenho que cuidar do meu jardim, como cortar a grama ou podar alguma arvore, ou ate consertar algo em casa.

Dou umas três ou quatro voltas e concluo uns cinco quilômetros e meio de caminhada isso já contando o trajeto de ida e volta ate minha casa. Costumo ir até lá em uma hora em que o parque está praticamente vazio, pois os jovens que o usam diariamente já foram para o trabalho. Nessa hora encontro quase sempre às mesmas pessoas. Idosos como eu que compartilham da tranquilidade desse lugar.

Levo sempre comigo um pequeno bloco e uma caneta no bolso. Pois assim alem do exercício físico, também exercito minha mente. Sempre ao iniciar minha caminhada viajo no tempo e volto a minha infância, minha adolescência e minha juventude. E isso me faz um bem incalculável, pois mentalmente estou sempre alerta. O bloco serve para pequenas anotações como nomes e datas que lembro naqueles momentos. Porque apesar de ter uma boa memória isso sempre ajuda. Com isso produzo textos sem estresse.

Eu sempre fui uma pessoa muito ativa. Trabalhei ate os 70 anos e estou aposentado há apenas sete anos. Não porque optei para isso, mas porque a pessoa com quem eu trabalhei nos últimos 20 anos faleceu repentinamente e acabei refletindo e tomei essa decisão drástica, para mim, pois não era isso que planejava. Mas como não há bem que sempre dure, nem mal que não se acabe, parei… Isso em parte porque como sempre diz minha esposa carrego pedras enquanto descanso.

Quero neste texto homenagear uma pessoa muito amada por mim, que foi sempre o meu herói, meu querido pai João Felix Vilanova. Sou descendente de uma humilde família de imigrantes espanhóis de ambos os lados, paternos e maternos Meus avos chegaram a São Paulo no inicio do século XX em diferentes datas e não se conheciam, embora tivessem vindo da mesma região da Espanha. Da cidade de Zaragoza, uma das províncias de Aragon.

Meu pai tinha apenas nove anos quando passou pela imigração da Rua Visconde Parnaíba. Minha mãe passou pela mesma imigração, mas no ventre de minha avó, pois ela nasceu depois de três dias do desembarque em Santos, e minha avó que veio praticamente na enfermaria do navio ainda teve tempo de chegar a Serra Negra, em uma daquelas fazendas de café (de Atila C.Vaz) para onde eram enviados os imigrantes recém chegados. E os avos paternos foram para Atibaia, para a fazenda de Olegário Barretos. Minha avó era uma adolescente, tinha apenas 17 anos.

O tempo passou e meus pais acabaram por se conhecer já com mais de 20 anos de idade, no bairro do Brás, mais precisamente na Rua Caetano Pinto. Meu pai morava no quintal do Scopetta e minha mãe bem em frente, no quintal do Pedro Dias, dois famosos cortiços da época. Namoram por algum tempo e se casaram no ano de 1926. Tiveram quatro filhos, três meninas e eu (o caçula). Nasci na Rua Caetano Pinto, no número 11 quase em frente da farmácia do Rega.

Depois, quando eu tinha 10 meses mudamos para o 269 que era onde ficava a padaria dos Canteiras, lá morei ate 1961. Meu pai tirou a carta de motorista profissional em 1927 e foi um dos pioneiros como caminhoneiro. Ele viajava por todos os lugares onde existiam estradas na época. Ele para mim era meu herói, pois quando eu era bem criancinha no fim dos anos 30 e começo dos 40.

Ele vinha para casa com aqueles caminhões enormes e com carga tão alta que mal podia passar por baixo dos fios que cruzavam a rua. Isso me encantava, não só a mim, mas como a toda a garotada da rua. E eu me orgulhava do velho que dirigia aqueles caminhões tão enormes. E adorava quando ele me deixava subir com ele na cabine. No seu colo eu agarrava o volante e fazendo o ruído do motor com a boca tentava virar para um lado e o outro, que gostoso lembrar esses momentos, quantas saudades.

Isso tem muito a ver com a profissão que exerci anos mais tarde. As viagens que ele fazia em uma época em que não existiam estradas pavimentadas, pois mesmo para o Rio de Janeiro o trajeto era pela estrada velha que passava por todas as cidades do Vale do Paraíba e levava mais de 12 horas para se completar. Isso quando tudo corria bem e o tempo ajudava. Somente nos anos 50 e que foi construída a Via Dutra.

Lembro muito bem quando ele comentava sobre o pacto que faziam os caminhoneiros. Costumavam viajar em comboio, e ninguém seguia viajem quando algum caminhão apresentava algum problema. Lembro-me inclusive do nome de alguns deles como o Dominguinho que costumava carregar qualquer animal que aparecia solto pelas estradas, como contava meu velho, ele amarrava o animal na carroceria e levava para seu sitio e dizia que era para evitar acidentes. E isso valia para qualquer animal, cavalo, vaca, cabrito, galinha etc. Os outros eram o Pardal, o Miguel Polaco e o Rodrigo Gaúcho, amigos e companheiros de estrada.

No ano de 1932 quando da revolução constitucionalista, eu não era nascido ainda, mas recordo dos comentários dos mais velhos. E logo que estourou a revolução ele, que estava em uma viagem ao Rio de Janeiro, procurou voltar depressa para São Paulo. E quando vinha pelo caminho foi abordado pelas tropas governistas que requisitaram seu veiculo e seu serviços, e em um gesto de muita coragem durante a madrugada com o caminhão repleto de soldados, propositalmente desgovernou o veiculo e saindo da estrada tombou. E apos a comoção que se formou naquele momento acabou por embrenhar-se nas matas do Vale do Paraíba e caminhando durante muito tempo, foi se juntar aos soldados constitucionalistas para lutar por São Paulo que ele sempre amou, embora fosse jovem imigrante espanhol sempre se considerou paulista.

No idioma ele era perfeito, falava as duas línguas corretamente. E sempre me obrigou a falar espanhol dentro de casa, e isso na época eu não gostava, pois pensava comigo mesmo: “Eu sou brasileiro”. Mas agradeço a ele sempre por ter me obrigado a aprender mais um idioma, pois isso muito tempo depois me ajudou e muito.

Tenho diversas fotos do meu pai como soldado nesse ano e por isso sempre me orgulhei dele. Assim também como a sua participação na revolução de 1924 com apenas 21 anos de idade, tenho também fotos dele em grupo e fardado em grupo e portando sua carabina, e não posso negar que era meu pai de tão parecido que era comigo. Eu nasci em 1934 e minhas lembranças reais dele quando era pequeno são já do fim dos anos 30 quando ele me comprou um triciclo e eu ia com minha tia Pilar ao parque Dom Pedro II brincar. Tenho uma foto tirada por um lambe-lambe e datada de 1937 na companhia dela com três anos de idade.

Lembro-me já em1940 dos veículos de carga que ele trazia para casa, pois ele saia sempre de madrugada, geralmente ás 3h ou 4h para se livrar do trafego que existia no bairro, com as porteiras do Brás e os inúmeros bondes da época em toda a Avenida Rangel Pestana e Avenida Celso Garcia. Tratava-se do começo da estrada que levava ao Rio de Janeiro nessa época. Houve uma época que ele deixou o transporte de carga, trocando o pelos coletivos.

Tenho em mãos sua carteira de habilitação com exame prestado em 21/06/1927, também a carteira modelo 19 que era a identidade fornecida aos estrangeiros e a carteira profissional do trabalho, datada de 27/02/1935 com todos os empregos pelos quais ele passou daquela data em diante e que alguém devera se lembrar. Viação Urbana Paulista U.T.I.L. (União Transporte Interurbano de Luxo), Pássaro Marrom (que servia todo o Vale do Paraíba, Expresso Zephir, Expresso Luxo São Paulo – Santos, Rápido Cruzeiro do Sul e uma que nunca esquecerei: S.A.N.T.A. Sociedade Anônima Nacional de Transporte Aéreo. Esta ultima fazia o percurso São Paulo – Rio de Janeiro com ônibus de luxo que tinha banheiro na parte de trás, isso para aquela época era um deslumbramento.

Meu pai parava algumas vezes o veiculo em frente de casa, e atraia enorme curiosidade de todos. Lembro-me do dia em que foi a inaugurada a linha. Como a matriz era no Rio de Janeiro, a primeira viagem saiu do Rio e fomos encontrar esse ônibus em Jacareí. Eu devia ter uns 7 anos e fui com minha mãe em um veiculo idêntico ao que vinha do Rio, e dirigido pelo meu pai. Tenho uma foto desse acontecimento.

Lembro- me também do período em que a linha já estava funcionando normalmente e o ônibus saia do centro de São Paulo, se não me engano da Alameda Barão do Rio Branco às 7h. Meu pai tinha que sair pela madrugada de casa, então a gente levava sua mala até da rua onde morávamos com a Avenida Rangel Pestana. Pois esse era o caminho do Rio e ele fazia uma parada ali para pegar sua bagagem e lhe desejávamos uma boa viagem. Quantas lembranças isso nos trás.

Infelizmente essa companhia durou pouco mais de dois anos, acabou falindo devido à concorrência que a Central do Brasil lhe fazia. Com viagens mais cômodas e mais rápidas os passageiros preferiam o trem que tinha restaurante, vagões com leito e a liberdade de poder caminhar livremente e não estar confinado por tantas horas dentro de um veículo e se expondo mais ao perigo.

Esse foi o ultimo trabalho dele nas estradas. Com a ajuda de seu irmão mais velho ele comprou um Chevrolet 37 e virou taxista com ponto de estacionamento no Largo do Ouvidor no centro de São Paulo. Estávamos já no fim da segunda guerra mundial e com aquela falta total de gêneros de primeira necessidade. Faltava açúcar, farinha, leite, carne, e também o combustível. E como o táxi era o nosso “ganha pão” ele teve que adaptar o 37 com o gasogênio, que eram dois tambores na parte traseira do carro e funcionavam com carvão .Com isso tinha que se fazer uma manutenção não me lembro de quanto em quanto tempo. Mas eu ficava sentadinho do lado dele na porta de casa assistindo a tudo.

Com o fim da guerra tudo foi normalizando e ficando até mais fácil. Minhas irmãs já maiores começaram a trabalhar e todos ajudavam nas despesas da casa. Ele conseguiu comprar um Ford 42 seminovo que havia sido ganho em um sorteio pelo senhor José Sorrentino, dono de uma loja de moveis na Rua Piratininga, esquina da Rua Campos Sales, que era seu amigo.

A vida foi passando e no inverno de 1951 ele conseguiu realizar um sonho de sua vida e embarcou em um navio para visitar os parentes na Espanha. Tios, primos e primas com quem ele sempre se correspondia. Realmente foi isso que ele levou da vida. Ficou lá por quatro meses e eu fiquei encarregado de cobrar as férias dos motoristas que com ele trabalhavam, pois na ocasião ele já tinha também outro táxi, um Chevrolet 47, eu na época cursava o ginásio e tinha 16 anos. Mas na minha mente sempre pensava nos meus 18 anos, para tirar minha carteira de motorista.

Ele retornou da Europa em novembro com inúmeros presentes para todos nos. E logo no inicio do ano de 1952 ele vendeu o Ford e comprou um Chevrolet 1951, zero. Ele nunca quis que eu fosse um motorista como ele, e fez muitos sacrifícios para que eu estudasse, mas eu sempre estive em volta dele e detestava estudar. Até que um dia depois de completar meus 18 anos eu já estava no terceiro ano ginasial eu fui sincero com ele e lhe disse que não queria estudar mais. E ele muito contrariado teve que concordar. Tirei minha carta em logo em seguida março de 1953. Mas isso é outra historia…

Meu pai nos deixou muito cedo, pois tinha somente 57 anos. Lembro muito bem a maneira que estava prevendo a sua morte. Não sei se ele estava sentindo alguma coisa, pois nunca se queixou comigo. No sábado anterior a morte dele (nos tínhamos o costume de jogar em companhia de amigos, um grupo que às vezes jogava pôquer, outras vezes buraco) nós jogamos ate de madrugada na casa de um amigo e quando voltávamos, depois de estacionar o carro na garagem na Rua Piratininga, como de costume, ele começou a me dizer como eu deveria proceder em caso ele viesse a morrer.

Isso me deixou muito contrariado e o indaguei sobre a causa daqueles pensamentos, ele me disse que algum dia ele teria que partir. Mas isso não saia do meu pensamento. Na quarta feira eu cheguei à noite do trabalho e como eu morava em um apartamento em frente a sua casa (já havia me casado, no ano de 1960, e sempre passava por lá para entregar a feira do dia) ele me pediu que jogássemos uma partida de buraco. Eu estava cansado, pois havia trabalhado o dia todo.

M esmo contrariado acabei por jogar com ele. Ainda bem que joguei. Pois se não o tivesse feito estaria com esse peso na consciência para sempre. E ele feliz da vida porque havia ganhado. Tenho comigo a folha que costumávamos marcar os pontos das partidas em um álbum de lembrança.

Na manha seguinte ás 7h uma vizinha veio me chamar dizendo que meu pai estava se sentindo muito mal. Quando cheguei o vi no chão do quarto, mas já havia falecido. Não respirava nem tinha pulsação. Chamamos o pronto socorro, e o medico nos disse que ele tinha tido um infarto fulminante.

Meu Pai que Deus tenha tua alma com muita luz. E onde quer que estejas sabes que te tenho sempre em meu pensamento e em minhas preces em todos estes dias, de todos esses anos, desde que nos deixou. No dia 24 de novembro completaram 51 anos que partistes.

A benção meu amado herói! Meu pai.

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