O Ferreira daqueles tempos.
Logo que nos mudamos para o Ferreira, existia por lá somente o empório do velho Ferreira. Na nossa rua, chamada de Rua Dois, havia somente a casa do Senhor Lázaro (a família Ferras Telles) e a nossa. Mas, aos poucos, as famílias foram se mudando para lá até formarmos uma turminha do barulho.
A linha de ônibus pertencia a Rui Guerra, em princípio era uma jardineira que passava pela manhã e outro pela tarde. Depois vieram a Viação Tupã e a Viação Nove de Julho, que iam até Embu e Itapecerica da Serra, e por último surgiu a Viação Bandeirantes. Ônibus modernos tinham o nome de Alvorada, vieram em substituição aos Volvos antigos. E, em pouco tempo, o empório do velho Ferreira se transformou em uma padaria, e no lugar do empório apareceu uma quitanda. Ao lado do novo prédio da padaria tinha a sapataria do São Paulino, diziam que sua esposa havia falecido por causa de um erro médico, pois, quando foi submetida a uma operação, deixaram uma tesoura dentro dela que acabou causando infecção generalizada.
A primeira banca de jornal pertenceu ao senhor Herculano, ficava do lado direito de quem vem sentido bairro, perto do ponto de ônibus. Do lado contrário à padaria do Ferreira existia a padaria Dom Luiz, a farmácia e o bar de sinuca do Bofetada. Mais adiante, o bar do Willy, loiro vistoso que atraía todas as meninas. Poucas casas existiam ao longo da avenida, que tinha uma rala faixa de asfalto.
Um pouco mais abaixo, sentido cidade, tinha o campo do Grêmio, mais ao fundo, o bar do Raul Lopes, e no Barro Branco, o campo do Nove de Julho, e onde hoje existe o Estádio do Morumbi, o Campo do Vila Morse.
Onde hoje está o Makro havia sempre festival de times amadores, onde meu pai sempre me levava aos domingos. Atualmente, onde é o Shopping Butantã, ficava o campo do Regência (fábrica de roupas). Tinha também na Vila Sônia o campo do Cooper Cotia, reservado aos sócios, mas sempre dávamos um jeitinho de entrar.
No caminho de quem ia para a City ficava o campo do Vitória e do Flamengo, e no final da Rua Caminho do Engenho, onde hoje é o escritório da Etesco, ficava a chácara do Senhor Ribeiro.
Cortava nosso bairro um pequeno córrego que nascia na chácara e ficava logo atrás do empório do velho Ferreira, ao lado da árvore que usávamos para chocar os caminhões que por lá passavam. Mais adiante, cortado pelo rio Pirajussara, além das sete lagoas e da lagoa da pedreira na City, logo em seguida, abriu a mercearia do senhor Manoel Moura. Mais para frente do senhor Manoel de Carvalho, na Rua Cônego Assis de Barros, o primeiro empório a ser aberto foi do senhor Arlindo (Lindo) e um pouco depois também abriu, um pouco mais para frente, mas na mesma rua, o empório do senhor Antônio Russo. Depois o bairro foi crescendo, abriram duas barbearias, uma do senhor Dias e outra do Abílio e Carlinhos.
O Jardim Nilson e o Jardim Oriente ainda se misturam e se confundem com o Ferreira por estarem interligados. Onde hoje é o Jardim Maria do Carmo ficavam as sete lagoas e todas aquelas terras que haviam pertencido à família "Macedo Soares". Lá havia uma nascente de água que escorria por um cano que passava por uma caixinha branca de alvenaria, levantada para essa finalidade.
Era nosso costume, todos os dias pela manhã, atravessar as lagoas, ir até esse sítio para pegar emprestado um velho cavalo branco que demos o nome de Sorvete. Cavalgávamos nele o dia todo e à noitinha o devolvíamos para seu dono. Lá também tínhamos que ter cuidado, pois havia dois cachorros que chamávamos de africanos por causa da pele preta e sem pêlo algum, verdadeiras feras que já haviam mordido muitos amigos meus. Mas o que mais saudade me dá são as vacas que passavam em bandos pela nossa rua. Sempre tinha uma ou outra com uma sineta, algumas bem mansinhas, outras bem bravas.
trecho de meu livro “Trajetória”
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