Anos 60, minha família ainda morava na Barra Funda. Eu, com a idade aproximada de um ano e meio, dei um belo susto na minha mãe. E se pega, se paga, e nunca saia na rua sozinha.
Num raro descuido de minha progenitora, eu, muito da destemida, saí portão afora em direção a um pequeno armazém pertencente a um casal de portugueses, Seu Arlindo e Dona Etelvina, ali na Rua Albuquerque Lins. A distância percorrida, de uns dez metros desde o meu portão até o meu destino, não me abalou a confiança, e lá fui eu!!! E vejam só, que bons tempos eram aqueles em que uma garotinha de um ano podia andar na rua sozinha em São Paulo!
Chegando lá, cuidadosamente segurei a barra do meu vestido em forma de concha para armazenar as duas batatas que pretendia levar. Assim sendo, com as minhas mercadorias acomodadas no meu vestido, comecei o meu caminho de volta.
Logo no primeiro passo fora da mercearia dou de encontro com minha mãe esbaforida, que, muito brava, faz com que eu dê meia-volta e devolva as minhas supostas comprinhas. Os donos do armazém, os quais estavam o tempo todo me observando e a ponto de ir chamar minha mãe, acharam muito engraçada a situação, e insistiram que ficássemos com as batatas. Minha mãe, ao contrário, não achou graça nenhuma; devolveu as minhas aquisições e voltamos pra casa com a minha primeira lição de economia: o que se pega, se paga, e nunca vá as compras sozinha. Lógico que não me lembro nada desta situação. A mesma foi contada várias vezes por minha mãe, rindo às gargalhadas.
A partir deste acontecido, gostaria de discorrer sobre as lembranças que tenho dos diferentes estabelecimentos de onde fazíamos nossas compras diárias, os quais foram mudando gradativamente com o passar dos anos.
Lembro-me que nos anos 70, comprávamos na base da caderneta no Empório Santa Filomena, de propriedade do Seu Pasqual e Dona Filomena, italianos que se fixaram ali na Rua Leonor Barbosa Rodrigues, no bairro do Limão. Pequeno no tamanho, entretanto grande na quantidade de produtos que eram acomodados e até pendurados no teto.
Naquele estabelecimento fazíamos as nossas compras diárias de pão, leite, mistura e, de vez em quando, um docinho pras crianças. Esta regalia, só quando sobrava uns poucos centavos de cruzeiro e, lógico, depois de muita insistência da nossa parte.
Aquele empório está lá até hoje, não mudou nada na aparência, só mudaram os donos – agora, sob os cuidados da filha do casal, Rosalinda, e marido.
Dentro desta mesma categoria de estabelecimento, frequentávamos o armazém do Seu Osvaldo e Dona Rosa, na subida da Carolina Soares, como também a mercearia do Seu Raul. Ambas vendiam alguns gêneros alimentícios e frios, contudo pendiam mais pra boteco, pela presença constante dos pinguços e bebedores inveterados.
Com o passar dos anos, estes pequenos estabelecimentos tomaram um outro rumo no atendimento, no tamanho e na disposição das mercadorias. Estas começaram a ter seu lugar à frente do balcão, como um prenúncio e transição dos que viriam a ser chamados mercadinho.
Assim, no final daquela década, vimos a abertura do primeiro Mercado da região, o Tanabe, localizado na esquina da Rua Carolina Soares e Deputado Emilio Carlos, bem perto do Largo do Limão. O Tanabe estava situado dentro de um enorme galpão, com produtos variados expostos em gôndolas separando os corredores, facilitando a locomoção dentro do espaço. Estes já não aceitavam o pagamento estilo caderneta, e fazia entregas em domicilio com a perua.
A partir desta mesma época, foram surgindo outros neste mesmo estilo naquela região. Contudo, voltando aos anos 70, quero relembrar outro gênero de comércio que também fez parte da minha infância: as lojinhas. No ramo de armarinhos em geral, havia a lojinha da Dona Manoela, ali no final da Rua Carolina Soares. Totalmente improvisado, num espaço que seria a garagem da casa dela, mas muito bem arrumado, lá, além de "tudo para o seu lar", se comprava uniformes e livros escolares, já que a mesma se localizava estrategicamente a uns trinta metros do Grupo Escolar Matilde Macedo Soares.
Neste mesmo gênero e concorrente da lojinha citada acima, havia, na esquina Praça Canaa, a loja da Jane, que anos depois foi comprada por um japonês, Seu Alfredo, e até hoje está em pleno funcionamento – ao contrário do empreendimento da Dona Manoela, que fechou as portas no final dos anos 80.
Concluindo a minha viagem pelo meu mundo das compras, surge o Carrefour Limão, na Marginal, com sua gigantesca variedade de mercadorias, acomodadas de maneira a captar e ativar o lado consumista que às vezes parece inerente a todos nós, pobres seres humanos. Além disto, com seu atendimento impessoal e uma relação distanciada "a la Brecht", tão diferente dos "seus fulanos" e "donas ciclanas" citados acima, que eram, além de tudo, nossos amigos. Convivemos com estes estabelecimentos que nos forneciam os mais variados produtos destes gêneros alimentícios, até produtos para higiene pessoal, passando pelos armarinhos, pilhas, velas, numa relação de confiança e amizade.
Posso passar por saudosista, contudo era tão bom quando éramos alegres simplesmente vivendo o nosso simples cotidiano, e não pelas aquisições exorbitantes do nosso atual mundo capitalista.
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