Mercado Municipal de São Paulo (Atração de ontem, de hoje e de amanhã)

Levado pelas mãos de meu pai, Bartholomeu Laruccia, atravesso, pela vez primeira, os portões enormes de ferro ornamentados com motivos agrícolas. Sinto logo que estou num verdadeiro templo, entreposto de tudo o que se refere à alimentação. Ano? Entre 1940\45.

As primeiras compras do dia de meu pai eram peixe-lua (aquele que tem os dois olhos de um lado só), carnes, frutas e frios. Meu primeiro contato com a mortadela Ceratti, com queijo meia-cura (como o Bartholomeu gosta), café Caboclo e, se estava no inverno, favas no Empório Chiapetta (cujo proprietário era amigo dos meus pais e tio do nosso pranteado amigo Domingos Chiapetta), para fazer "feffe y foguie" (pronúncia e tradução literal de "favas e folhas", se alguém quiser a receita, mande-me um e-mail).

Meu pai explica: o que você está vendo não existe igual no Brasil e, quiçá, na América do Sul! Os vitrais? Vieram da Itália, terminaram a construção em 1938, ou seja, quatro anos atrás. Repare nas colunas, veja o trabalho artesanal, a abóboda, o calçamento das alamedas internas, os globos de iluminação (quando necessário), as divisões dos boxes, tudo feito pelo escritório de Engenharia Ramos de Azevedo.

Entramos por um portão lateral, na parte de trás do edifício, que era mais próximo da ponte sobre o rio Tamanduateí (essa ponte não existe mais), pois era mais fácil pra nós que vínhamos da Praça São Vito na época, Praça Josef Stalin, que a “barezada” – oriundos de Bari no sul da Itália, derrubou num piscar de olhos, mesmo com a guerra; derrubamos o Stalin e nomeamos São Vito, como é até hoje.

O "mercadão", como era (e é, até hoje) chamado, a poucos metros da Rua Santa Rosa, forma o principal centro de distribuição atacadista de cereais, frutas, verduras e, no varejo, carnes, laticínios e peixes. A partir das segundas-feiras, caminhões, carros, furgões, carroções, carroças e até carrinhos com tração manual, se abastecem destes gêneros pras suas mercearias, lojas, restaurantes, bares, quitandas, mercadinhos de todos os cantos da cidade, de outros municípios e até de outros estados.

A grandeza do mercado se espalha rapidamente. É comum receber visitas de turistas, em grupos ou com familiares, todos só falam do mercado de São Paulo.

Os fornecedores de todos os municípios, cidades, estados se encarregam das negociações e da manutenção dessa atração.

Meu pai conta que, meu tio Dionísio Mônaco, irmão de minha mãe, Felícia Mônaco Laruccia, (todos já falecidos) tem um box no mercado e teve essa concessão por ter sido proprietário de um antigo box, construído e posteriormente derrubado, a beira do rio Tamanduateí, próximo a ladeira General Carneiro. Esse Box com aproximadamente 30m² é o ponto mais procurado quando chega à estação das uvas.

Meu tio, Dionísio, entre maio e agosto, todos os anos viaja pra Jundiaí, Louveira e Vinhedo, compra todas as plantações de uvas e figos, necessárias pra ter garantido o fornecimento dessas frutas. A colheita começa em novembro e vai até fevereiro ou março do ano seguinte. Nesse interlúdio, entre uma safra e outra, são comercializados pêra d'água, caqui duro, pêssego duro, limão e mais algumas frutas sem muita expressão mercadológica, pois, como é do conhecimento, estas e mais algumas frutas só podem ser saboreadas se forem importadas, como maçãs, peras, uvas tipo Itália, ameixas, etc. E essa não era "a praia" do Dionísio.

A atividade sobre as uvas não se restringe apenas em comprar as safras. Entramos nós, eu, meu primo Vicente Carrieri e, às vezes, meu irmão Santo, na confecção das caixas. Dionísio compra o madeiramento pra confeccionar as caixas, que não são muito diferentes das de hoje. Medem 80 cm de comprimento por 40 de largura e 10 cm de altura. Só que elas têm uma divisão no meio que, com o passar dos anos, foi abolida, ficando como é até hoje, um
pouco menor e mais leve.

Fazíamos as caixas no quintal da casa do meu tio, na Rua do Lucas. No fim da semana recebemos o suficiente pra uma entrada no cine Gloria e uma pipoca americana, daquelas redondas, grudadas uma rodela na outra e embaladas em papel-manteiga. Que gostosura!

Durante anos o mercadão permanece como sempre foi, fornecedor atacadista e varejista. Dependendo do segmento explorado pelo comerciante, experimenta um certo marasmo devido ao advento dos supermercados. Os proprietários de Box não se sentiam muito seguros sobre o futuro. Mas devido à imponência do edifício, sua localização, sua importância dentro dos planos da prefeitura, começou-se um trabalho, não sei de quem foi a idéia, mas parece que deu resultado.

Aí ocorreu a novela da Globo, do dono de um box de frutas, o Tony Ramos, que parece que fez renascer o interesse da população que sentia falta daquele contato com o comerciante, bater um papo com os donos ou funcionários, provar determinado queijos, linguiças, pegar os peixes, escolher os produtos não embalados, até pedir redução de preços em determinados produtos.

Como num passe de mágica, construíram o mezanino, restaurantes, "inventaram" os pastéis de bacalhau, o sanduíche de pão com mortadela Ceratti em dose tripla, frutas em profusão, carnes de todo tipo, peixes, aves, queijos das mais variadas procedências, vinhos nacionais e importados, massas, pães, biscoitos, azeitonas, frios de altíssima qualidade.

Enfim, um passeio por semana ao mercadão ainda me atrai. A grande diferença com os atuais super, hiper, megas mercados é que, por serem criação dos países saxônicos e nórdicos, a intimidade com os clientes não lhes faz diferença, mas, pra nós latinos, a aproximação e o contato (principalmente esse) com quem vende é muito importante.

Você já experimentou falar com o caixa de um supermercado, onde você compra há mais de uma década? Indague que você esqueceu a bolsa ou carteira em casa e se pode levar as compras e depois voltar para pagar… Experimente se irão preparar uma limusine pra levar a mercadoria pra sua casa e anotar na caderneta.

O mercadão é a resposta pra essa frieza de tratamento dos megabilionários da venda a varejo. Viva o Mercado Municipal de São Paulo, orgulho de todos nós, brasileiros.

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