Memórias musicais

Hoje sou um dançarino veterano, mas em plena atividade. No fim-de-semana passado, quando saí do salão onde faço presença (danço todas as sextas-feiras, lá na Praia Grande) indo de condução para minha casa, sem sono, comecei a pensar e lembrar o início das minhas atividades dançantes.

Comecei a me interessar por bailes muito cedo. A partir dos meus quinze anos já freqüentava e promovia bailecos "pró-formatura", na minha casa e na casa de colegas da vida estudantil. Nesses bailes, a música (foxes, boleros, sambas e mambos) ficava sob a responsabilidade do maestro "Dom Pick-up e sus negritos". E a moçada se divertia, dançando embalada nas vozes de Gregório Barrios, Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Frank Sinatra, Bing Crosby, Doris Day, e com os arranjos de Tommy Dorsey, Glenn Miller, Louis Armstrong, Perez Prado, Germano Mathias, Caco Velho, Nerino Silva, Roberto Luna, Sólon Sales, Isaurinha Garcia, Agostinho dos Santos e Francisco Egydio, para citar apenas uns poucos nomes.

As bebidas eram sempre refrigerantes, um ponche em que frutas nadavam numa mistura de refrigerante e vinho, na proporção de 12×1, ou então, para os mais ousados, generosas doses de cuba libre, que era um drinque à base de rum Bacardi (tinha um pirata caribenho no rótulo), Coca-Cola, gelo e limão.

E o pessoal dançava e se divertia durante muitas horas, sempre sob o olhar vigilante dos pais do promotor do baile e de outras pessoas de mais idade que, por ventura, ousassem comparecer.

Lembro que na minha casa os bailecos eram vigiados por minha mãe, minha tia Neide e minha tia Zazá, além da Maura e da Eliza, que eram minhas tias "postiças". Na casa da Norma Toschi – outra grande promotora dessas reuniões dançantes -, além da mãe dela, os vigilantes mais constantes eram o pai, Seu Nicolau, e um tio dela, o tio Pedro, gordo e de alegria contagiante.

Depois, com meus dezesseis/dezessete anos, comecei a me aventurar a freqüentar bailes em salões de festas já com músicas ao vivo, a cargo das grandes orquestras da época, tais como Osmar Milani, Zézinho da TV, Orlando Ferri, Sylvio Mazzuca, Los Guarachos e outras tantas. Os salões onde eu dançava costumeiramente eram Club Homs (até hoje na Avenida Paulista), Club Transatlântico (na Rua 13 de Maio), Club Alepo (também na Avenida Paulista), Club Maison Suisse (na Rua Caio Prado Jr.), Casa de Portugal (Avenida da Liberdade) Fasano (na Avenida Paulista, no Conjunto Nacional), salões do Aeroporto de Congonhas.

Eram bailes promovidos por escolas para angariar fundos, normalmente nos domingos à tarde, ou então, bailes de formatura onde imperavam os trajes a rigor (cavalheiros com smoking, ou Summer, ou um bonito terno preto, camisa engomada e gravata borboleta, e as damas com elegantes vestidos longos).

Lembrei inclusive que, nas saídas dos salões, eu e meus colegas saíamos cantando as músicas de sucesso e treinando passinhos em plena rua.

Hoje nada mais disso existe. As grandes orquestras desapareceram e deram lugar às bandas com menos músicos e com instrumentos performáticos, tais como teclados, guitarras, baixos elétricos e uma bateria para percussão. Que saudades dos velhos tempos!

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