Depois de dizer muitas coisas ruins da Vila Olímpia, fui intimado pelo meu subconsciente a dizer algo de bom. E o que dizer de um bairro que me pareceu fadado a ter coisas e gente ruim?<br><br>Hoje veio a minha cabeça algo de bom: a família Ventura, composta de quatro pessoas, chefiada pelo Seu Ventura. Amigo de muitos anos, nunca soube seu nome. Sempre foi tratado pelo sobrenome. A seguir vinha a matriarca, Dona Maria, uma mulher bonita, educada, querida por todos os que rodeavam sua casa e na igreja do Divino Salvador, onde era uma voluntária e benemérita. A seguir vinha a Aída, a filha. Uma moça bonita, que puxou a mãe em tudo, incluindo a beleza física e fisionômica, porém de maior estatura e corpulenta. Alvo de muitos rapazes ávidos em se casar com uma moça prendada e preparada para ser uma boa mãe e ótima rainha do lar. E, por último, o Toninho, que estudava e trabalhava com o pai. Também alvo das moçoilas do bairro.<br><br>Seu Ventura era lingüiceiro. Não fabricava lingüiça, apenas as entregava nas mercearias e armazéns de secos e molhados com seu furgão verde. Era uma família bastante religiosa, como era de costume das pessoas de origem portuguesa.<br><br>Aída fazia parte da instituição das filhas de Maria, que tinha Toninho como congregado, Mariano, juntamente comigo e muitos outros rapazes da Vila Olímpia, que eram congregados mais para jogar futebol. Ainda trabalhava na tinturaria Vip, Avenida Santo Amaro, quase esquina com a Avenida Dr. Cardoso de Mello. Muitas vezes eu descia a Cardoso com ela. Era um bate papo gostoso, e ela, uma amiga sensacional; muita gente dizia que éramos namorados. Longe disso. Com 19 anos de idade, queria mais jogar e assistir futebol. Namorar sério era ficar impedido de ver futebol, porque tinha que namorar nos dias sagrados dos jogos de futebol.<br> <br>Aí a Aída começou a namorar o Vindi (Vicente), um amiguinho dos tempos de infância, e eu continuei a amizade com Aída. Não faltou comentário de que eu também a namorava. Aída tinha uma personalidade muito forte e não estava nem aí. “Deixa essa gente falar”, dizia. “Namoro quem eu quero e continuo a amizade com todos os amigos que tinha antes do meu namoro com o Vicente”, dizia ela para mim e para todos os amigos dela, aqueles que estavam sempre no pátio da igreja lá da Rua Casa do Ator.<br><br>Vindi não estava nem aí. Quando eu e ele fomos chamados de sócios pelos maldosos(as) que assim falavam, ele dava risada e também me chamava de sócio, na frente de todos. Era um amigão!<br><br>Seu Ventura colocava cadeiras na calçada, coisa comum nos anos 1950, para jogar dominó com os amigos, coisa que se repetia todos os domingos à tarde. O dominó corria solto e rápido, o raio de quatro pontos era fechado rapidamente, pois todos eram "cobras" naquele jogo. Em poucos minutos se ouvia aquele barulho característico de pedras sendo misturadas para nova partida. O rádio estava sempre ligado no futebol, de preferência nos jogos da Portuguesa de Desportos, pois a maioria era de portugueses ou descendentes.<br><br>Laranjo, sobrenome do dono do depósito de materiais de construção bem em frente à casa de Seu Ventura, era quem dava início à chamada. “Ventura, e aquela lingüicinha, hein?”. Em poucos minutos, entrava em ação Dona Maria, que vinha com a bandeja de lingüiça frita e cortada em pedacinhos. Pão, não era problema, pois no quarteirão seguinte tinha a padaria Mondego, de Augusto Pissarra, outro português que fazia parte da mesa de dominó.<br><br>Laranjo nunca estava contente: “Olha, uns pedacinhos quadradinhos de queijo parmesão ficaria muito bem, não?”. “Bem, isso já não é comigo”, dizia Seu Ventura. “Eu vendo lingüiça. Quem vende queijo é o Pissarra!”. Risos daqui e de lá e Pissara não deixava por menos: “Ora, pois é só buscar”.<br><br>Um garoto foi buscar, a mando do dono da padaria. Não demorou muito, lá veio o Álvaro, filho do Seu Augusto Pissara, para se certificar se era verdade, pois na Vila Olímpia tinha vagabundo e pedinte demais. Aproveitando o embalo, Laranjo gritou: “Oh, Álvaro, manda azeitado com óleo estrangeiro, viu!”. Quando Álvaro voltou sabendo que era verdade o pedido, não faltou comentário. “Por isso que nos chamam de mão de vaca, pão duro e outros quetais! Não custava nada mandar o queijo rapidamente”.<br><br>Do bar ao lado vinham as bebidas, mas tinham de ser pagas, pois o dono do bar, embora amigo de todos, não fazia parte do jogo. Ele, rindo, dizia que o único jogo que "detestava" era o dominó. Foi quando Laranjo bateu na hora. “Então na semana que vem vamos jogar baralho e Scopa, que você mais gosta e se diz campeão, formando dupla com o Jorge da farmácia.”.<br> <br>Tudo era alegria nas tardes de domingo. E tardes de domingo sem cadeiras na calçada não era um domingo feliz ali na Rua Nova Cidade, quase esquina com a Rua Quatá. A felicidade só era interrompida quando o domingo era chuvoso, e aí ninguém gostava de sair de casa.<br><br>Mas tristeza mesmo veio quando a Dona Maria teve um câncer diagnosticado. A tristeza não estava estampada somente no seio da família, mas sim em todos os que a conheciam; infelizmente, ela não durou muito.<br> <br>Aída já era casada, mãe de dois filhos. Um casamento feliz com o Vindi. E também ela, a Aída, foi acometida por um câncer, e rapidamente consumida por essa terrível doença.<br><br>Os dominós já não eram mais aqueles sob risos e gozações costumeiros. Havia um tom de tristeza; até as pedras não faziam tanto barulho como antes ao serem embaralhadas.<br><br>Já no início dos anos 1980 foi a vez de Seu Ventura se despedir da vida. Um infarto o levou de uma hora para outra. Fazia pouco tempo que ele tinha se mudado da Rua Nova Cidade para a Rua Kansas, no Brooklin, e lá é que fomos vê-lo pela última vez.<br><br>Restou somente Toninho, que já estava casado, mas não demorou muito tempo também. Ele se foi, vitima de cirrose hepática, um mal que acomete o fígado. Enfim, a maravilhosa família Ventura estava dizimada.<br><br>e-mail do autor: [email protected]