Anos 70 em curso. A situação do brasileiro era periclitante. Economias teriam de ser processadas de forma continua. A inflação era galopante. Nos supermercados, as maquininhas de remarcação de preços não tinham descanso. O dinheiro não parava em nossos bolsos por mais que nos esforçássemos.
O pai de um dos meus clientes, o Sr. Jose Lamas, era fundador e coordenador de um grupo de compras no Ceasa. A cada 15 dias, nas noites de quarta-feira, íamos, os representantes das 15 famílias que formavam o grupo, para o referido centro de abastecimento, fazer compras de frutas, legumes e verduras, ali mesmo. Quando, por motivos de saúde, deixou o grupo, fez questão de me passar o bastão e me colocar como novo coordenador. Assim foi feito.
A economia continuava bastante acentuada. Porém, o trabalho diverso das nossas ocupações profissionais, embora cansativo, atuava como um relaxante de estresse e, também, um desopilante do fígado. As brincadeiras e gargalhadas eram muitas.
Feitas as compras, eram na mesma hora divididas pelas famílias participantes e, depois, cada um seguia a sua vida, com a certeza de estar fornecendo à sua família alimentação saudável e de forma bastante econômica. Assim, dessa maneira, os dias iam em frente.
Em uma quarta-feira de compras, chegamos, eu, o Tony e o Nelson, no horário de sempre, 19h e nos preparamos para iniciar a rotina de sempre. Eu fui para o galpão das frutas, o Nelson, para o galpão das batatas e das cebolas e o Tony para o das verduras.
Ao retornarmos ao ponto de encontro para aguardar as mercadorias chegarem (elas eram transportadas por “carrinheiros” do Ceasa), nos deparamos com certo reboliço. Ao questionar sobre o ocorrido, fomos informados que a Rede Globo estava por lá e queria entrevistar o responsável pelo grupo.
Assim sendo, me preparei para conceder a entrevista. Todos pretendiam ficar perto de mim, não só para aparecer diante das câmaras da TV, mas para poderem ficar perto da repórter que iria me entrevistar que era nada mais nada menos do que estrela do jornalismo global. Fátima Bernardes. Foi então que entendi toda a agitação. Eu também me agitei.
Então, do alto de seu profissionalismo, a Fatia chegou, me procurou, informou de suas intenções e, como eu a nada me opus, sabendo que eu já tinha certo traquejo diante das câmeras, iniciou a entrevista, que se limitou a três pequenas perguntas.
Sem qualquer vacilação, respondi aos quesitos enquanto era gravado em VT para posterior edição. Terminada a entrevista, perguntei quando iria ao ar aquela matéria e obtive como resposta:
– "nos próximos dias".
Até hoje estou esperando os tais "próximos dias", mas o que não consigo apagar da memória foi a sensação de ter sido entrevistado por Fátima Bernardes. Uma coisa eu posso garantir, os produtos comprados naquela noite, foram consumidos por minha família da mesma forma que das outras vezes. A entrevista não lhes fez perder o apetite.
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