Memórias higiênicas

Vim ao mundo em maio de 1940, na antiga Maternidade São Paulo, marco tradicional da Rua Frei Caneca, hoje injustamente desaparecido.

Claro, minha memória não registra com nenhuma clareza os meus dois primeiros anos de vida, tudo o que sei é apenas por ouvir o que diziam os meus parentes e também pelas leituras em livros de estudo e de historia, que estávamos nos primórdios da Segunda Guerra Mundial que, para desespero de todos durou até 1945.

Lógico que depois de 1941 eu, que sempre primei por uma inteligência mediana, passei a receber de minha mãe, os ensinamentos básicos de higiene e asseio, às vezes sem muita aceitação, mas sempre obedecidos, caso contrario o chinelo comia solto.

A escassez de produtos no pós-guerra era assustadora e lembro, com muita nitidez que, por diversas vezes, o sanitário lá da minha casa, onde moravam, nada mais nada menos do que 10 pessoas (meu avô Gido, minha avó Laura, minha tia Neide meu primo Roberto, minha prima Sonia, minha tia Zazá, meu pai, minha mãe, meu irmão e eu aqui) não possuía sequer um rolo de papel higiênico, que era substituído por papeis de embrulhar pães, ou mesmo por jornais cortados.

Lógico que com o passar dos anos, as coisas foram melhorando, as mercadorias, até então escassas, foram reaparecendo e a vida das famílias começaram a entrar no eixo. Lembro que na minha família era voz corrente o seguinte ditado "Pobres sim, mas limpinhos".

Uma das maiores recordações higiênicas e motivadoras deste registro está baseada em uma série de toalhinhas felpudas que se apresentavam, constantemente, nos varais do meu quintal lá na Rua Augusta. Tinham uma dimensão diferente das toalhas de rosto tão utilizadas pra enxugaras mãos e o rosto. Suas medidas não ultrapassavam de 0,20 x 0,20. Suas cores eram diversas.

Esses pedacinhos de pano muito me chamavam a atenção. Hoje sei que não essa atenção não era provocada propriamente por eles, era mais pela proibição que nos tinha sido decretada de neles mexerem. Por que não podíamos (eu, meu irmão e meu primo) enxugar as mãos naquelas toalhinhas?

Enxuguei minhas mãos nelas algumas vezes até que, numa dessas vezes, fui surpreendido por minha mãe. Belas chineladas recebi e, então, por medida de "segurança nadegal", nunca mais delas me aproximei.
Apenas muitos anos depois, já na minha adolescência (não tínhamos, que me lembre, naquela época a aborrescência) é que fui saber a verdadeira aplicação daquelas misteriosas toalhinhas.

A Johnson & Johnson em 1933 lançou no Brasil o absorvente feminino “Modess”, a escassez na 2ª. Guerra fez com que esse lançamento não tivesse a repercussão necessária, depois já no pós-guerra, as mulheres, incluindo nelas, minha mãe e minhas tias, sentiam vergonha de pedirem esse produto aos farmacêuticos.

E, assim, só ao longo dos anos, na minha adolescência tive contato com o “Modess” e me despedi visualmente das toalhinhas absorventes. Os varais da Rua Augusta se tornaram menos congestionados todos os meses, porém o lixo sanitário teve o volume aumentado.

O que aumentou também foi o meu conhecimento de higiene, hoje eu registro esta memória que faz parte do meu passado.

Bem aventurados os que ainda podem falar e escrever do passado.

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