Memórias Fúnebres

Para se evitar choques, tomamos a decisão de não mostrar os mortos, devidamente encaixotados, mesmo que transformados em jardins floridos, mesmo que os ambientes dessas mostras sejam salas de velórios públicos, bem iluminados e arejados.
 
Eu, sou remanescente dos anos 40 quando as famílias não tinham tais preocupações, muito menos tinham à sua disposição salas de velórios públicas.
 
As mortes eram choradas e sentidas dentro dos limites das suas próprias residências.
 
Para tal, as famílias locavam nas funerárias a “essa” (estrado de madeira para apoiar o caixão do defunto) e a armavam, de preferência na sala de jantar.
 
Enfileiravam ao redor dela várias cadeiras para que as pessoas pudessem se sentar e enfrentar todo o ritual do velório, que normalmente, atravessava uma noite inteira e parte do dia posterior, até que o féretro fosse conduzido ao cemitério.
 
Na sala onde aconteceria o velório, as janelas eram cobertas com cortinas pretas ou roxas, debruadas em dourado e também locadas da agencia funerária. As coroas de flores também eram alocadas ao lado do caixão. Os quatro cantos do caixão eram guardados por quatro castiçais enormes e com velas mais enormes ainda, que ardiam durante toda a cerimônia. Tinha também um aparelho elétrico que ligado à tomada ozonizava e desinfetava o ambiente. Na entrada da casa uma estante com a lista de presenças, onde os visitantes registravam suas presenças para, posteriormente, receberem um santinho com a foto do finado como lembrança.
 
Como parte oficial do velório, as mulheres sentavam-se na sala, confortando-se umas às outras, ora rezando, ora conversando aos sussurros.
 
As crianças corriam e brincavam, desobedecendo as ordens das mães que queriam vê-las quietas respeitosas (doce ilusão), mas não se impressionavam em demasia com o acontecimento.
 
Os homens, em grupos, se colocavam à entrada da casa ou no quintal dela, perto porém da garrafa de cachaça ou do bule de café quentinho, que eram na certeza, as bebidas mais consumidas na ocasião.
 
A família, além de prantear o morto, era incumbida de preparar os comes e bebes, por que velar o morto carecia de dar trabalho aos dentes dos presentes. Então, durante a madrugada, servia-se uma canja forte, uns lanches de pão com mortadela e ou outro recheio qualquer.
 
Eu posso afirmar que participei de alguns velórios lá na casa da Rua Augusta, 291. Que eu me lembre, foram os velórios de minha avó, do meu avô e da minha tia e nunca me impressionei pelo ritual.
 
Aliás, as mulheres de antigamente, quando sabiam que uma pessoa tinha medo de velório recomendava que o medroso ficasse de frente aos pés do defunto, segurasse nos pés do dito cujo e fizesse, um pedido para ele levar seus medos para as profundas dos sete palmas. Diziam que era uma simpatia prá lá de boa.
 
Não posso afirmar a eficiência, pois nunca precisei fazer uso desse expediente mágico.
 
Bem, depois dessas divagações todas, eu me pergunto, será que vale a pena toda essa blindagem moderna às crianças de hoje?