Existem hoje poucos clínicos gerais, não é mesmo? Nada como o velho médico da família, que tudo via, ouvia e sabia, em outras gerações.
Geralmente o novo doutor examina só a parte do corpo em que se especializou. Se é otorrino, só olha do pescoço para cima, como se o paciente tivesse sido guilhotinado, e o resto não existisse. A pessoa pode estar com tuberculose, pneumonia, que sequer é auscultada. E pode até morrer, que ele terá feito o julgou ser seu dever na profissão, o bolso cheio e a alma limpa.
Felizmente, nem todos médicos são assim, ainda. Existem uns poucos abnegados, que procuram ver e tratar o paciente como um todo. São verdadeiros heróis. Vou falar de um destes, no qual o heroísmo excedeu, como verão, em muito suas reais funções.
Faz muito tempo que o conheço. Uma tarde de 1977, senti-me com febre e dor de garganta, no trabalho. Fui para casa, e a temperatura estava na marca dos 38 graus, o que deixa qualquer adulto delirante. Liguei então para meu tio Sebastião, que me indicou um seu ex- aluno de educação física no Mackenzie.
Foi assim que conheci o Dr. Stanley. Clínico geral. Tratou-me e o problema – que era das amígdalas, cedeu.
No decorrer dos anos, recorremos, eu e toda a família, várias vezes a ele. Mesmo não sendo do meu convênio – aliás, de convênio nenhum – sempre foi nosso último recurso, em situações muito difíceis.
Recentemente, minha filha Carolina, após ter pneumonia e, apesar de tratada, continuar com febre e tosse resolveu ir ao bom Stanley. Ele diagnosticou bronquite, a qual não havia sido notada por outros médicos. Mas, ela voltou do consultório com um relato espantoso.
Dr. Stanley tinha ido ver um filme no Market Place, shopping entre o Brooklin e o Morumbi. Creio que ele seja um cinéfilo, mas não sei se fã de bang bang. Nem sei o que iria assistir… Pois mal poderia imaginar que a violência se abateria sobre ele, mesmo não sendo coadjuvante do filme.
Estava na fila da terceira idade, quando surgiu um rapagão que arrogantemente furou a fila, postando-se à frente do primeiro idoso (Stanley era o segundo). Diante dos protestos do pessoal, o “valentão” vociferou:
– “Calem a boca, seus velhos. Eu vou entrar primeiro, e se alguém não gostar, meto a mão!”
O Dr. Stanley então interveio, tentando discutir com o salafrário – ou seria melhor dizer biltre?, que retrucou:
– “Não se meta, velho!” – e deu-lhe uma cotovelada no estômago.
O Doutor, com seus 74 anos, reuniu forças e lembranças de quando chegara a treinar boxe e derrubou o canalha com um tremendo murro na cara.
Este ainda se levantou, chutou o médico, mas foi acertado novamente e caiu outra vez, então foi finalmente agarrado por populares e arrastado para fora pelo segurança, com uma chave de braço, uivando alucinado.
Cena de pugilato mais propícia a “Duelo no OK Corral”, “Os Brutos Também Amam” ou apenas mesmo a um sórdido boteco na periferia, nunca imaginável em um cinema do sofisticado Market Place.
Então, parabéns novamente ao bravo Dr. Stanley, que mais uma vez protegeu e salvou pessoas, desta feita em uma operação mais que radical.
74 anos. E velho, uma ova!