Memórias escolares

1964 é o ano destas memórias. Estávamos vivendo os efeitos da "revolução", o clima política era tenso.

Mas a vida não podia parar, estacionar numa esquina brasileira e esperar que a poeira assentasse.

Os brasileiros comuns continuavam a viver suas vidas, a sofrer suas dificuldades, a sentir suas emoções, a rir de suas piadas.

Assim também nós, alunos do Colégio Comercial Frederico Ozanan, continuávamos a viver.

Estávamos em plena campanha para levar a formatura daquele ano a um resultado pleno e significativo.

A Comissão Pró-Formatura daquele ano era formada por grandes amigos, dentre eles Helyon, Roberto, Fernando, Thais, Tereza, Arnaldo (Bolão), Brejão, e vários outros elementos cujos nomes agora não me voltam à memória, estavam batalhando para angariar fundos e fazer frente aos custos da formatura.

Alguns intrusos, com a finalidade de ajudar, também faziam parte dessa comissão. Dentre eles eu e o Antonio Settani. Já veteranos em festas de formatura, emprestávamos nossos conhecimentos para atenuar os percalços dos demais comissários.

Como soe acontecer com as empreitadas destinadas a captar recursos, todos estavam devidamente cônscios dessa necessidade. A turma de futuros formandos foi batizada, por motivos óbvios da época, como "Turma do Senta a Pua", e uma idéia para fazer entrar uma graninha para os fundos da formatura foi a de confeccionar flâmulas nas cores do Colégio (Grená e Amarelo) com o símbolo do Grupo Senta a Pua (criado pelo 1º. Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira) e, em campanha, vendê-las.

Bem, a venda estava sendo realizada com alguma lentidão, também no colégio nem todos iriam adquirir a tal flâmula. Surgiu outra idéia que, colocada aos demais membros da comissão, foi imediatamente aprovada.

O colégio estava localizado no número 423 da Rua Augusta, quase esquina com a Rua Marques de Paranaguá, existiam três turnos de aulas, o matutino, o vespertino (das 18:00 horas às 20:30 horas) e o noturno (das 20:00 horas às 23:00 horas), então iríamos promover um pedágio na porta do colégio a partir do início do turno vespertino e tentar vender as flâmulas aos carros que por ali passassem.

Idéia aprovada foi logo tratada de ser colocada em prática e, no dia aprazado, lá estavam todos os interessados fazendo paredão e vendendo flâmulas.

A tarefa estava sendo executada com sucesso, os motoristas dos carros abordados não se recusavam a ajudar e compravam a lembrança. Eis que se não quando, do nada se materializaram dois enormes "brucutus" (veículos de choque do Exército Brasileiro) e deles saíram uma quantidade de pés que, atendendo à ordem de comando, foram empurrando os vendedores de flâmulas para a parede.

O capitão em comando já estava se dirigindo para enquadrar a todos nós, quando o Helyon, do alto de sua altura e com toda a calma que lhe era peculiar, aproximou-se do capitão e, pedindo licença, explicou em detalhes o que estávamos fazendo, lembrando ao militar, inclusive, que era egresso dos batalhões da PE onde havia prestado o serviço militar.

Devidamente explicada a situação, o capitão, primeiro, lembrou que a situação política não permitia tais arroubos estudantis, mas como já tinha, também, vivido situações idênticas na época de estudante, iria fechar os olhos ao incidente e mais, iria permitir que continuássemos com o pedágio por mais uma hora.

Ordenou então, aos seus comandados, que se postassem em fila indiana fazendo uma barreira humana para permitir que todos os alunos pudessem se dedicar à tarefa de vender flâmulas.

Foi o que fizemos, com muita satisfação. A arrecadação foi bastante significativa.

O capitão boa praça não terminou ali as suas ligações com o pessoal do colégio. Um ano depois recebi dele um convite para levar a nossa "quadrilha caipira" para animar a festa dos oficiais no quartel de Quitaúna.

Fomos e o sucesso foi total, mas esta é memória para um novo texto.

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