Cantina "Europa": um velho retrato da Concórdia (ensaio paulistano)

São Paulo é uma das maiores capitais gastronômicas do mundo. Em se falando de gastronomia italiana, São Paulo é a maioral, principalmente no que concerne a cantinas com suas toalhas quadriculadas, onde as mesas são servidas por simpáticos e bem treinados garçons, que só falta falarem o idioma italiano com a clientela. E essa peculiaridade, ainda bem que perdura neste século XXI…

Foi quando, revendo velhos retratos, que recordei da Cantina "Europa", que se situava no coração do Largo da Concórdia, em um prédio de mais de cem anos, em arquitetura rococó, onde de trás do mesmo se localizava a indústria da aveia Ferla (hoje somente restam os escombros dessa firma, a qual produzia uma aveia que todas as mães compravam para suplemento alimentar de seus petizes…). Mas, voltando à Cantina "Europa", seus donos eram dois irmãos solteirões e sem descendentes, oriundos da região Vêneta, da Itália, da família Macchiarolli.

Quando adentrávamos essa cantina, podíamos ver um mobiliário de madeira jacarandá, com cadeiras de assentos de palhinhas entrelaçadas, mesas quadradas e também redondas; à direita, nas paredes da entrada, víamos vários cabides para os sobretudos, capas e chapéus, sem contar os porta guarda-chuvas (instrumento fundamental para a São Paulo da Garoa), e, à esquerda, altos espelhos à bisotê, embutidos à parede; perto do balcão, um negro telefone velho com o bocal abaixo do disco, com o fone não acoplado ao mesmo bocal… Muito antológico… De trás do mesmo balcão, uma caixa registradora movida à manivela, com uma vitrine onde podíamos notar as frutas e legumes usados na confecção dos pratos.

Os dois irmãos (velhinhos elegantes e bem parecidos um com o outro) se revezavam por trás do mesmo balcão; enquanto o outro recepcionava a freguesia que chegava na hora do almoço ou na hora do jantar. Quando o movimento era intenso, principalmente nos finais de semana e feriados, os simpáticos irmãos Macchiarolli se vestiam de garçom e ajudavam a servir as mesas. O corpo funcional dessa casa gastronômica era composta por um casal de cozinheiros e dois garçons. Os clientes mais assíduos, como o meu pai, costumavam reservar mesas por telefone. Hoje, onde vemos o Centro Comercial Promobrás Mart-Center, o milagre dos preços baixos e, no centro desse complexo mercantil, o edifício Alto Santo, de nº 95, sei bem que era ali mesmo que a então implodida Cantina "Europa", ou carinhosamente, o "Italiano" se localizava.

A clientela era composta de pessoas das classes média e alta, como advogados e outros profissionais liberais, além de juízes e desembargadores, sem contar os artistas e até celebridades, porém não se faziam fotos para serem penduradas nas velhas paredes da cantina. Cabe frisar que era na parte de cima do mesmo prédio de nº 95 que os dois irmãos também moravam. Havia uma escada de madeira bem escura, e como em uma residência, se precisávamos usar o toalete subíamos as mesmas escadas e dávamos com uma verdadeira sala de banhos composta de peças de louça e mármore de Carrara dos finais do século XIX.

Os irmãos Macchiarolli sentavam-se às mesas conosco e assim, por alguns momentos, esquecíamos que ali era um restaurante. Portanto, nos sentíamos em casa… Quantos aniversários e outras confraternizações, como "happy hours" ali compartilhamos, tudo em clima de alegria, descontração e concórdia (tal como o nome da praça)… Se algum cliente fosse músico, poderia levar o seu instrumento e "dar uma canja". Os demais clientes aplaudiam como se fosse artista da casa. Os poetas ali também se deleitavam, declamando e escrevendo versos em guardanapos. Os pratos servidos, desde o antepasto, eram puramente artesanais e, um detalhe curioso: se alguém pedisse a receita, os dois irmãos nunca recusavam, alegando:

"Bello, quando eu for abrir a cantina no céu, precisarei deixar as recetta de nostra mamma quí"…

Todavia, como nesta vida terrena, quase tudo tem princípio e fim, em setembro de 1973 as portas da Cantina "Europa" se fecharam, devido ao falecimento de um dos irmãos proprietários, ficando na saudade aquelas delícias com um gostinho de "quero mais"… Já adulta, viajando pela Itália, vou a cantinas típicas que, por vezes, me fazem recordar da velha Cantina, mas nada ajuda a matar a saudade do concordiano pedacinho da Itália, no coração do Largo da Concórdia…

(Cynthia Theodoro Porto, a autora deste texto, é jornalista e escritora paulistana).

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