Durante os anos 80, quando eu morava na Rua das Perobas, Jabaquara, por conta de agradar minha filha Renata, aceitei receber para o convívio com nossa família uma linda cadela, pertencente à nobre linhagem da raça "vira-latas".
Ela chegou em nossa casa logo depois da desmama. Era uma cadela bonita, de pelagem totalmente amarela. Por causa de suas orelhas sempre aguçadas e de seus olhos, em formal reunião familiar, concluímos por batizá-la pelo lindo nome de Xereta.
Devidamente batizada, a cã passou a gozar de todos as prerrogativas VIPs da casa. Logo se transformou numa ótima companhia para as crianças e numa brava guardiã dos nossos domínios.
Quando nossa família mudou-se para a Vila Santa Catarina, foi ocupar uma casa na Rua Contos Gauchescos.
O imóvel era excelente, tinha apenas a desvantagem de não ter um quintal tão grande como o quintal que havia na casa da Rua das Perobas. Mesmo assim, a Xereta teve seu espaço definido, e continuou a viver entre nós sua existência pacifica e carinhosa.
Nossa permanência nessa casa aconteceu até o início dos anos 90, quando fomos instados a desocupar o imóvel, a pedido do proprietário, para que seu filho viesse morar na capital.
Fomos, então, montar residência na Vila Mariana. Num belo apartamento situado à Rua Gaspar Lourenço. Imóvel, como os anteriores, bastante amplo, apenas um detalhe para não ser perfeito: não tinha quintal. A área de serviço era grande, mas não tanto para abrigar uma velha cadela que crescera sem maiores preocupações de como e onde fazer suas necessidades fisiológicas.
Eu juro, tentamos por alguns tempos mantê-la na área de serviço. Compramos os apetrechos necessários, o tal do "pipidog", e todas as demais parafernálias que nos indicavam, na tentativa de ensinar a nossa cadela. Tudo em vão. Ela não mostrava nenhum progresso com relação à sua reeducação.
Nessa altura dos acontecimentos, meus ouvidos passaram a também não aguentar os recamos da "dona da pensão". A ladainha era a mesma todos os dias: "Não agüento mais", "essa área está mais fedida do que esgoto de favela", "eu não nasci para ficar limpando sujeira de cachorro" etc. etc. e tal…
Eu já não tinha mais sossego.
Em nova reunião familiar, agora com menos participantes, já que as filhas Renata e Roberta, devidamente casadas, não mais faziam parte do núcleo residente, foi deliberado que a Xereta deveria deixar o nosso convívio. Teríamos de buscar um local em que ela fosse aceita e pudesse terminar seus dias de maneira digna.
Procurei e, depois de várias indicações, achei um canil lá pros lados de Rudge Ramos, cuja proprietária, uma médica veterinária, recebia cães e gatos. Uma espécie de orfanato e asilo.
Conversei com a proprietária, expus o problema e ela me garantiu aceitar a Xereta, antecipando, inclusive, que não iria doá-la para ninguém, que a reteria até o final de seus dias no próprio canil, e que eu ou qualquer membro de minha família teríamos garantido o acesso a visitas sempre que quiséssemos.
Pronto, procura terminada, bastava, então, levar nossa Xereta até o local.
Não tive escolha, eu fui a pessoa nomeada para essa missão.
No dia aprazado, fui buscar a velhinha e coloquei nela a coleira. Eu estava sozinho, ninguém mais da família se predispôs a assistir a saída, todos se fecharam no meu quarto. Fixada a presilha da guia na coleira, a Xereta, que sempre se antecipara aos meus passos e fazia questão de me puxar, recusava-se a se mexer, dando a entender que não queria sair, pois sabia que não iria voltar. Fui obrigado a pegá-la no colo e levá-la até o carro.
No trajeto, por diversas vezes, emitindo pequenos sons como se fosse gemidos, ela se aproximou e me lambeu a face e as mãos.
Chegando ao local, tive de forçá-la a descer do carro. Aguardamos numa pequena fila nossa vez de ser atendidos. Uma única vez, encarei a cadela e tive a nítida impressão de ver uma lágrima rolar pelo seu focinho. Virei a cabeça e evitei um novo confronto.
Então a médica nos chamou, fez a ficha de admissão, coletou minha assinatura e o cheque de doação que eu havia prometido, me agradeceu e levou a Xereta para o interior do canil. Lógico, exercendo um pouco mais de força para arrastá-la pela guia da coleira.
Eu, me sentindo cada vez pior, tratei de sair imediatamente, sem olhar para trás. Entrei no carro, dei um forte e prolongado suspiro, liguei a ignição e saí.
Foi esta uma das mais tristes despedidas que fui obrigado a dar em toda a minha vida.
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