Sou Paulistano, mas nas minhas veias corre sangue italiano e árabe por minha descendência materna e paterna. É por isso que adoro uma pizza, um rigatone com calabresa, um nhoque ao sugo e demais iguarias das minhas raízes carcamanas, além do que sou nascido e criado no velho Bixiga.
Assim sendo, desde muito pequeno ouvia falar nas tradições italianas. Via nas procissões de N. S. Achiropita as famílias enfeitarem as janelas de suas casas, com colchas bordadas em seda e ouro e guardadas apenas para esses dias de glória santa.
Outras das tradições bastante difundidas eram os jogos com que os descendentes italianos passavam suas horas de lazer dentro das Cantinas, era o jogo da “Morra”, era o jogo do “Patrão e Solto” ou eram outros jogos que agora não me ocorrem.
O jogo da “Morra” era o mais conhecido e o mais difundido nesta São Paulo da garoa e dos italianos. Consistia em reunir os jogadores à volta de uma mesa e eles, numa velocidade espantosa, iam apresentando os dedos de uma das mãos ao mesmo tempo em que gritavam o total dos dedos apresentados a cada rodada. A gritaria era grande, a bagunça também e, garanto, não sei como eles conseguiam chegar a um acordo quanto ao resultado. Era um tal de “uno” “trei” “cinqui” gritados a todo vapor.
O jogo do “Patrão e Solto”, era um tanto quanto mais silencioso. Os jogadores se reuniam em volta de uma mesa, com o garrafão de vinho no centro, e decidiam, com antecedência, quem seria o Patrão (que tinha o domínio da bebida) e quem seria o Solto (que promovia perguntas com o intuito de fazer o Patrão cair em contradição e, lógico, ter que distribuir nova dose de bebida aos participantes).
Mister se faz registrar que, antes do inicio do jogo, antes até da escolha do Patrão e do Solto, a maioria dos participantes escolhia quem, entre todos, seria o “coitado”, que, mesmo participando financeiramente das despesas do grupo, passaria todo o tempo a seco sem tomar nenhum gole. Lógico que, no decorrer do jogo, ele descobria ter sido o escolhido, mas, por honra da hombridade, continuava jogando, não bebendo, mas pagando.
Lembro-me que um dia 26 de maio, de um ano qualquer da década de 60, os Duques de Piu-Piu saíram para festejar o aniversário deste escrevedor de memórias. Era eu o melhor copo do grupo e o aniversariante da noite. Nunca pensei que fariam a presepada de me escolher como “vitima”. Fui o escolhido durante toda a jornada noturna, que consistiu primeiro numa ida à Cantina do Natalino, onde patrocinei várias pizzas regadas a caipirinha e cerveja – e nada bebi.
Depois, esticada no Night Club Havana, onde dançamos até às 4 da madrugada – e eu na mesma aridez. Por volta das 3 horas, tentando demonstrar a minha esperteza, saí de mansinho e, junto com o Joãozinho (porteiro do Cabaré), fui até o bar ao lado, onde pedi um conhaque e uma cerveja. Bebidas servidas no balcão; preparo-me para degustá-las quando vejo materializarem-se, à minha frente, as figuras do Xiribi (Patrão da Noite) e Toninho (Solto na ativa), que, depois de sonora gargalhada, pegaram os copos e as garrafas e beberam tudo sem não antes me avisar que eu continuaria sequinho da silva. Cheguei a perder as estribeiras, esbravejei, xinguei, chamei todos eles para a briga, mas nada adiantou.
Saímos do Havana e todos os outros, com a maior cara-de-pau do mundo, escoltaram-me até em casa, e só se foram depois de certificados de que eu tinha entrado e não mais sairia. Desisti, então, de qualquer outra tentativa. Entrei em casa matei a secura da minha garganta com um enorme copo de água gelada e fui dormir bastante decepcionado.
Coisas da tradição e dos Duques de Piu-Piu…
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