Coisas que eu idealizo. Um fim de tarde que dá muito bem a idéia de fim, com esse céu carrancudo, de nuvens pesadas, velozes, carregadas de eletricidade, sinto n’alma o vazio de todas as negações que só a chuva miúda e persistente sabe por em torno de uma vida.
Noite que desceu lavada, que caiu do céu, subiu pelos telhados velhos, pretos, tristíssimos sob uma bacia espremida de casas pequenas, todas iguais no entorno da igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, em Pinheiros. Noite de névoa espumante, esgarçada, toda batida por um vento úmido que subiu de repente dos mangues da várzea do Rio Pinheiros, triste vagante, foi deixando por onde passou um rastro de água de chuva de pingos miúdos, pensativos, sob o reflexo da luz amarela da lâmpada da Cooperativa Agrícola.
Cooperativa dos primeiros imigrantes japoneses, que traziam seus produtos cultivados em Cotia para comercializar na região que ficou conhecida como Largo da Batata. Lembro-me que lá era um reduto deste Japão brasileiro, minúsculo, pequeno, pequenino, pequenininho, concreto, discreto, honesto, onde nasceu a sabedoria criada por Bashô e transcrito nos três versos breves e o pensamento breve e que vive nas dezessete sílabas de um Haicai.
Noite de sonho e poesia na velha Cooperativa de Cotia no Largo da Batata. Lá dentro, sob a luz fosforescente, duas portas pintadas de verde e um balcão à direita com uma máquina fumegante do café expresso bufando. É ali, naquele pequeno espaço, um armazém vulgar, igual a todos os armazéns vulgares de São Paulo que surgiu a primeira japoniere; uma lista de preços de gêneros alimentícios e o preparo do missoshiru, do tofu e do shoyu, um molho especial de soja que faz com que os japoneses sintam nostalgia de sua terra natal. O Udon, como é conhecido por aqui o macarrão. Tudo escrito em giz branco no quadro negro dependurado na entrada da loja em japonês.
Duas moças orientais vestidas de verde e azul; uma é bem bonita, com sua cor de fruta, seus dentes miúdos numa boca bem feita, e uma travessa nos cabelos curtos. Não entende nada de português. Parecem com as aves finas e detalhadas que Kórin pintou nos papéis de seda, ou como as geishas de ouro sentadas sob os pés, tocando o koto e o shamisen, nas tampas das caixas de laca negra.
Ali tudo é pequeno. Pequeno como aquele netzhê de marfim velho ou cristal de rocha. Olhei ali também, aquela criança que passa no pátio da Cooperativa, corpo cor de canela, cabelos rijos, esticados, envernizados de raça e de chuva, com uma franja pretíssima sob dois olhos sem cílios, doces, oleosos de amêndoas, mal posados a flor da pele parecida com uma boneca. E ela não é muito menor do que a mulher ligeira, que passou, num silêncio medroso com seus pés exíguos fincando-se firme no cimento da calçada. Outra criança. Muitas crianças. Outra mulherzinha; muitas mulherzinhas; muitos homenzinhos, todos iguais, sempre! Sempre a mesma franjinha do modelo fougita, sempre as mesmas figurinhas ligeiras e miúdas.
Nas paredes tabuletas, kakemonos enormes de azul com todo o caprichoso silabário hiragana, branco e vertical. Tudo se parece com os caracteres dos Toriis que fazem pórtico nos templos xintoístas, todos de madeira com teto piramidal nos templos budistas da comunidade Soto Zen Shu de tradição japonesa.
Este é um pedaço de São Paulo, incrustado nas proximidades da várzea do Rio Pinheiros.
Agora entro na rua principal do bairro. Teodoro Sampaio, junto ao Largo da Batata. Olhei um pouco para a torre distante da igreja do Calvário, espetada sob um céu cor de vidro e pensei nas ermidas brancas pelas noites de invernada, quando as almas do cemitério São Paulo rondam em procissão no entorno dos telhados velhos, pretos, tristíssimos das ruas antigas de Vila Madalena e de Pinheiros.
Largo da Batata. A coisa começa ali, naqueles bares comerciais, depois da extração da loteria federal. Nas portas das lojas comerciais as moças esperançosas esperando por algum cliente para vender algum objeto, alguma roupa de esporte ou suporte ou alguma bugiganga qualquer. Enrosco-me, enovelo-me nessas calçadas pardas e vou seguindo a turba. Vou neles, junto deles, com eles, até a porta de uma loteria; jogo farto. Apostas em alta, o prêmio da loteria está mais uma vez acumulado, diz a placa do banner disposto na porta de entrada. Quem sabe a sorte pode estar lá?
No ar rarefeito sinto o perfume que exala da loja dos aromas, logo ali, mais adiante. Nas cores azul, amarelo e branco vejo a agência dos Correios na Rua dos Pinheiros. Lembrei-me da saudosa dona Adolfina, antiga funcionária. Espio. Lá dentro está uma moça loira de olhos claros, manuseando algumas cartas que a funcionária dos Correios acaba de entregar-lhe. Num relâmpago de tempo, vejo toda a paisagem daquela moça, provavelmente exilada, neste verde amarelo brasileiro. Vi por um instante dentro daqueles olhos claros um mar de águas frias puxadas por navios de Revel, de Riga, navios estes que cheiram a resina do pinho ou a salmão defumado ou ao cânhamo e que deviam ter trazido, naquele pedaço de papel, alguma nostalgia de sua terra natal… Norte… Báltico, Letônia, Estônia, Lituânia? Quem sabe!
Na Rua Teodoro Sampaio muitas lojas. Tontura. Paro. Vejo em frente da calçada numa vitrine um anúncio: Livraria. A larga escrita Neshki dá um ar de alcorão a quase todos os livros. Olho em torno das prateleiras e adivinho dois livros; “A Tenebrosa História de Rasputine” o monge negro e um livro de “São Cipriano” vestido de bruxo na capa escarlate.
Em frente um bar. Com homens contemplativos, na porta do bar; bigodes sonoros, cheios de ar aspiradíssimo do tabaco filosófico, entrando, ficando, saindo, passando. Vou com eles, no lusco fusco da tardinha escorregadia daquela chuvinha miúda e persistente que insiste em cair sob o bairro de Pinheiros.
Aqui escorrego no lodo preto do asfalto e escorro ladeira abaixo de pedra torta e molhada, sob o ruído dos bondes que sobem e descem num constante vai e vem. No ar escuto uma música bamba, muito gemida, como barulho de águas sacudidas dentro de latas vazias. Parece um cocktail que São Paulo bate. São Paulo produz só um cocktail: Tudo aqui é turco. Coloca-se no copo da Teodoro Sampaio um sírio, um árabe, um armênio, um persa, um egípcio, um kurdo; bate-se bem no liquidificador e pronto! Sai um turco de tudo isso. Para São Paulo é assim: Todos são turcos. Entretanto… Rua Teodoro Sampaio: reino da bugiganga, canga e miçangas quinquilharia vistosa, bagatela boa e barata.
Agora vejo outra loja, desta vez de tecidos. Venda de grossos fardos de fazenda grossa, com homens grossos, de grossos bigodes, falando grosso.
Na estreita rua de trilhos e poças os bondes, os automóveis e os caminhões patinam como hipopótamos. A lama esguicha numa vaia e escorre numa blasfêmia. Ali há homens diferentes e indiferentes. Sírios alourados de Beirute, de Damasco, de Jerusalém, abotoados nas capas de chuva, ondulam majestosos, como as águas do Eufrates, perfumadas de amora. Árabes morenos regougando a sua linguagem de consoantes secas áridas, arenosas como os desertos e como as montanhas do grande planalto… Armênios de olhos impressionantes, oleosos como avelãs da Trebizonda. Persas sérios, gordos, de responsabilidade histórica, no cheiro arrastante do seu cigarro filosófico. Egípcios sutis, laboriosos, com uma esperteza no andar e uma claridade mediterrânea nos olhos cheios de velas e mastros e cordas dançando nos trapiches de Alexandria ou Port-Said.
Agora respiro este São Paulo atual, moderno, com trânsito caótico, fuligem no ar poluído, automóveis em pencas por todos os lados e aquele costumeiro transtorno de cidade grande. Aqui sinto o ar citadino, pingado de luzes nas janelas sobre janelas. Agora é hora de voltar para o Largo da Batata. Entro novamente no pátio do estacionamento debaixo de um céu de calvário agora já sem chuva. Rolos de fuligem sob uma lua quebrada. Noite preta e pobre que riscou o carvão irônico de Goya. Neste olhar úmido de São Paulo na noite fria e nua…
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