O relógio distante bateu doze longos roncos no bronze e encheu de fantasmas a noite paulistana. As almas purificadas dos pacientes relojoeiros de Strasburgo voaram das pedras bizantinas da igreja de São Bento, nas notas sonoras do cobre temperado; doze longos roncos de bronze, já passaram, espantadas, um viaduto atirado como um arco de aliança de igreja a igreja; roçaram a torre cinzenta de Santa Ifigênia; ficaram no ar, um instante, rondando, pasmadas, na primeira friagem deste inverno paulistano; desceram com sono, sonoras, monótonas, lentas, agonizantes e tontas; ondularam, miaram, ronronaram como gatos sobre os telhados rasteiros da Rua Vitória, da Rua dos Gusmões, da Rua dos Andradas e de todas as travessas da Rua Santa Ifigênia. Muito estranho!
Agora, parece que aquelas mesmas notas lânguidas, que ali tinham descido, dali começam a subir de novo, desdobradas, desfolhadas, esfareladas, desgastadas. Sobem… sobem sempre. É uma ressonância envolvente, embaladora, suave, sempre em ascensão. Um canto de onda no côncavo acústico de uma concha. Bares, pianos e bares. Todos os bares e pianos do mundo parecem que marcaram encontro ali, no bairro dos bares rasteiros no entorno da Estação da Luz.
É o bairro sonoro dos bares da boca. Parece como uma opereta: caudas e fardas rondando nos palcos, desfiando um novelo redondo de sons nacionais e estrangeiros. Este é o bairro rasteiro dos bares da boca. Em cada bar há um piano. Em cada mesa há um copo de chope; em cada bar há um alemão. Em cada alemão há um chope. Dois chopes duplos. Trinta chopes duplos.
Na comprida rua vazia, uma luz numa bola de vidro leitoso e um sonho: bar. Outra rua, outra luz, outro piano: Rua Conceição: bar. Este é o bairro noturno. É o bairro que só existe de noite, como o medo. Gente, que a gente nunca viu de dia, surge da noite e fica na noite de bar em bar de pianos e chopes. Gente, que a gente nunca viu, parecida com aquele Henrique VIII, ou aquele Burgomestre Meyer, pomposo e estufados, que saíram do pincel quinhentista de Hans Holbein; parecida com aquelas criaturas apocalípticas O Cavaleiro da Morte, ou A Melancolia que o estilete de Albert Durer riscou no cobre brunhido; parecida com aqueles diabos delirantes dos Contos Noturnos de Hoffmann; parecida com os contos subterrâneos, os filhos da bruma, os gnomos que vivem n'água e no vento que falam; barbudos e bochechudos do conto de fadas de J. Grassi "A Menina a Água e o Vento" dando risadas simpáticas debaixo de cogumelos molengos da grande floresta negra.
Imaginações. Delírios. Literatura escrita em forma de crônica. Porém, não é nada disso. É apenas uma boa gente que trabalha de dia, por aí tudo, e vem, de noite, beber cerveja e ouvir música no bairro rasteiro dos bares baratos no entorno da Luz. Gente de disciplina pacífica e profissões poéticas; floristas, músicos, fotógrafos, jornalistas, de uma suave docilidade ao trabalho e ao método; que tem hora certa para tudo; hora de ganhar dinheiro, hora de gastar dinheiro, hora de ser sério, hora de sorrir… Sorrir, de noite, nos bares rasteiros da boca da Luz.
Há um bar ali. De longe já se ouve o piano pingando a marcha dos estudantes: "Perdi meu Coração em Heidelberg". De longe já se vê o garçom louríssimo, jaqueta branca, na porta, esperando. Dentro, mesas pequenas, quadradas, entre divisões de sarrafos, fingimento de madeira nas paredes até a altura de um homem normal. Em cima, cal esponjada. O pianista um sonhador, com uma cara convidativa de ganzo de aldeia. Toca e bebe. O chope ao lado do teclado do piano. Seus olhos estão distantes como sua alma; uma alma de organista do século XVII; lirismo burguês do meistersinger Hans Sachs; visionário procurando dentro da cerveja o cinto de seda e o anel de ouro da Walkyria… sempre ausente. Mas das suas mãos presentes nasce "A Princesa das Czardas", e as últimas notas vão morrendo dentro de outras notas, "Os milhões de Arlequins" que outro pianista de outro piano de outro bar, ao lado, vai tocando.
O garçom louríssimo serve depressa um ferroviário telegrafista que saiu da sala do telégrafo para beber um chope rápido, tão extraordinariamente rápido, como as mensagens que saem do morse do seu responsável trabalho. O garçom diz que é hamburguês e viveu grande parte da vida na Argélia e no Senegal.
Numa das mesas há um casalzinho feliz, esquecendo o mundo, numa mesa de linóleo cor de castanha. Sair. O garçom louríssímo joga dados, no balcão, com um chauffeur importante de gente bem sucedida.
Outro bar. A porta, um guarda noturno, com cara de presidente da república, arrasta o bengalão. No ar, um cheiro enjoado de fermento, manteiga e delikatessen; todos marrons. Homens tristes chupando a "espuma do colarinho branco da loura". Outra vez piano. Como dizem os italianos: piano… piano… si vá lontano Não.
Ali perto mesmo, outro bar. Entro. E da logo na vista, pintado a óleo sobre uma arcada, um demônio de asas de morcego com uma lanterna acessa na mão. "Ewige Lampe" Velha lenda germânica. Numa parede uma coleção de borboletas do Brasil; um desses quadros pacientes e tristíssimos, que às vezes existem nos museus, e sempre existem na casa dos místicos germânicos de boa inocência.
Então? Que é feito do velho lema da boa boêmia tudesca: Bebida, Mulher e Canção? A bebida está aqui, dupla hoje, chama-se tampa, em cima da mesa; a mulher está ali, também dupla, com um amigo ou amante rindo, junto à mesa; a canção partiu, fugiu, acabou, morreu… na guerra sob o olhar rigoroso de Hindenburg que está ali dependurado naquela parede. O piano toca e toca muito bem "Ay, ay, ay! Ramona".
Outro bar. Tudo dourado. Sem espírito. O reino do bonitinho. Um grupo de reservistas de primeira classe ocupa e preocupa tudo e todos. Um nativo moreno, de olheiras de tango, escuta a vitrola tocar "Mamma mia Che vò sapè".
Um outro bar. Mas para quê? Sempre a mesma coisa. Uma noite, um bar, um chope. Melancolia. Melancolia do chope, do piano e da mulher que se foi. Melancolia da noite. Noite boêmia. Ah! à noite. Gambrinus cavalga, lá em cima, nas nuvens, essas mesmas nuvens que estão dependuradas sob os bares rasteiros e baratos do bairro da Luz. Cavalga, com sua coroa de cevada, seu cetro de lúpulo e seu vaso de estanho e grés, que deixa escorrer a espuma branca, branca, semelhante a esta garoa fininha que cai agora sob o céu paulistano no bairro rasteiro dos bares baratos no entorno da Luz.
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