Memórias de botequim II

Não acreditei! Minhas memórias botiquineiras fizeram sucesso entre meus fãs. Quero crer que eles também gostavam de encostar o umbigo no balcão e petiscar alguns acepipes enquanto bebericavam uns goles de um birinaite (gostaram do termo?) qualquer.

Minhas preferências líquidas eram vastas, eu encarava tudo que me serviam tomando o cuidado, apenas, de não misturar em demasia o conteúdo de cada copo entornado. Esses néctares eram consumidos e acompanhados, invariavelmente, de quitute, tira-gostos e outros que tais.

Os botequins eram locais onde se podia fazer esse ritual de bebericar e mastigar com regularidade. Na maioria das vezes eram casas que nos agradavam a sensibilidade e o paladar, fazendo-se, dessa forma, serem consideradas indispensáveis à nossa existência.

Eu tive, na minha atribulada vivência, diversas casas eleitas como preferidas, algumas delas já mencionadas em textos anteriores, outras vou reverenciar neste texto e, lógico, não terei a capacidade de esgotar o tema por enquanto. Um dia, quem sabe, eu o esgotarei. Ora muito bem, comecemos a reavivar a memória!

Havia nas décadas de 50/60, alguns lugares especiais em Sampa onde um excelente office-boy pudesse parar e fazer uma boquinha. Uma dessas casas era um botequim instalado na esquina da Rua José Bonifácio com a Rua Quintino Bocaiúva, exatamente embaixo da Rádio Record de São Paulo.

Na porta desse botequim, do lado da Rua José Bonifácio, estava instalada uma estufa pra comercializar esfihas e quibes que eram acondicionados em grandes bandejas de alumínio. Lembro-me como se hoje fosse, as esfihas eram bem gordurosas, mas fascinantemente deliciosas.

As minhas paradas nesse recanto, quando os trocados permitiam, eram para pedir um oriental, ou seja, um quibe envolto e bem abraçadinho a uma lambuzada esfiha de carne e ambos devidamente umedecidos por um molho de pimenta bem forte.

Na Rua São Bento esquina com a Rua do Comércio existia outro botequim e uma outra estufa idêntica à da Rua José Bonifácio e, às vezes, quando a grana permitia, eu rematava meu apetite com uma dupla de esfihas ensebadinhas.

Falando em botequins no centro velho de Sampa, lembro-me de imediato da Casa Califórnia que ficava na mesma Rua São Bento, próximo à Praça do Patriarca. Ali, depois de batalhar por um bom tempo e conseguir um pequeno espaço à frente do balcão, eu podia escolher no tabuleiro enorme à minha frente o suco ou refresco que pretendia saborear que, depois de escolhido, era batido com a maior presteza em liquidificadores com copos de alumínio muito bem lavados por um copeiro ágil e sempre sorridente que, ainda, se dava ao luxo de gritar o nome do suco que estava derramando num copaço tipo maracanã com bastante gelo.

Nessa casa, além dos sucos, podiam-se saborear uns sanduíchinhos de alicci com salsa divinamente apetitosos ou, então, um sanduíche feito com a verdadeira linguiça de Sorocaba, devidamente assada na grelha rolex.

Anos mais tarde, eu passei a frequentar um botequim que ficava na Avenida Duque de Caxias no quarteirão compreendido pela Avenida São João e a Alameda Barão de Campinas. O nome do referido botequim era Bar Caxias e seu "slogan" era "O rei da Limonada"; explicando melhor, limonada nada mais era do que uma caipirinha coada, servida com muito gelo em copos tamanho gigante.

Eu, na época, trabalhando na Penha, saia do escritório por voltadas 17h e no interregno entre 17 e 23h, ficava nesse botequim, saboreando minhas limonadas e petiscando os mais variados acepipes. Depois, devidamente bebido e comido, saia para minhas aventuras noturnas. Eu era feliz e nem sabia!

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