Meados dos anos 50, ainda morava na Rua Augusta, 291, na mesma casa da minha infância, com os mesmos moradores.
Um belo dia, voltando para casa no final da tarde, depois de um dia estafante, encontro minha santa mãezinha e minha tia Neide sentadas na cozinha, com olhares desolados.
Questionadas a respeito de tamanha tristeza elas contaram, ou melhor, minha mãe contou o ocorrido.
Se os amigos leram meus textos anteriores, deverão se lembrar que minha casa tinha uma escadaria na entrada que era protegida por um portão de ferro fechado por uma corrente e por um cadeado.
O hall de entrada tinha uma janela grande que era do quarto de minha mãe. Logo abaixo dessa janela, dentro do quarto, ficava uma cômoda e em cima dela vários badulaques.
Pois bem, naquela tarde, voltando de pequenas compras no Armazém do “seu” José na esquina da Rua Caio Prado e, sem saber como, largou o portão sem a corrente e o cadeado e foi levar as compras para a cozinha.
Depois de guardá-las, dirigiu-se até o quarto e, adentrando o ambiente percebeu uma mão tateando por cima da cômoda. Chegou-se à janela e viu um homem magrinho que ao ser descoberto, amarelou e disse cumprimentado-a que estava se sentindo muito mal e procurando ajuda.
A criatura disse isso e sentou-se nos degraus da escada. Minha mãe “boa samaritana” chamou minha tia e ambas cuidaram do estranho dando-lhe água com açúcar e esperando alguns instantes por sua melhora.
“Recuperado”, o homem agradeceu os cuidados e se foi. Minha mãe, depois de trancar o portão, voltou à rotina da casa e foi fechar a janela do quarto, dando então por falta de seu relógio de pulso. Um relógio sem marca que lhe fora presenteado pelo filho mais querido, eu.
Fiquei possesso e depois de recriminar energicamente as duas, saí com intenção de tentar desvendar o mistério.
Fui para meu reduto de lazer, o “Bilhar Rex”, instalado na Rua Manoel Dutra, entre as Ruas 13 de Maio e Dr. Luiz Barreto.
Ali chegando, comecei a contar o ocorrido para todos os que já se faziam presentes e para os que chegavam. O ocorrido passou a ser comentado por todos, pois eu era conhecido e considerado por todos os freqüentadores. Nada aconteceu naquela noite. Voltei para a minha casa decepcionado.
Na noite seguinte, assim que cheguei ao bilhar, um conhecido se chegou e me disse quase em surdina, “Ô meu, quem fez o serviço no seu mocó foi tal de Rubinho que mora num cortiço da Rua Frei Caneca em frente à Rua Paim“, deu ainda alguns detalhes visuais da figura e nada mais falou…
De posse da informação, reuni os Duques de Piu-Piu e nos dirigimos para o citado endereço. Localizar o cortiço foi tarefa fácil. Achar o tal de Rubinho já foi impossível, ele não se encontrava lá.
Dirigimo-nos, então, para a 4ª Delegacia, que ficava na Rua Augusta próxima à minha residência. Lá chegando, falei com o Delegado e ele me disse que nada poderia fazer sem provas, a não ser um B.O.. Mas se eu tivesse condições de pegar oi meliante, deveria telefonar de imediato que ele iria até o local recolher o elemento e tentar diligenciar sobre o assunto.
Não tivemos dúvidas, fomos para a campainha do endereço e lá ficamos até que por volta das 3 horas da madrugada, um indivíduo apresentando as mesmas características do Rubinho ia entrando no Cortiço.
Chamamos por ele e, dito e feito, ele atendeu. Então, o Silvio (Xiribi), deu um bote e segurou o malandro numa gravata, derrubando-o e mantendo-o imobilizado no chão enquanto eu, em desabalada carreira, voltava à 4ª DP.
Os policiais me acompanharam e o Rubinho foi encarcerado. Depois de uma investigação mais apurada ele confessou o golpe e indicou onde estava o produto do roubo.
Junto com o delegado, fizemos uma batida em um restaurante que existia na Rua da Consolação na esquina com a Rua Nestor Pestana e pesquisando entre os objetos em poder do proprietário achamos o relógio, que nos foi devolvido com a alegação de que havia sido deixado em pagamento provisório de despesas por um dos clientes do estabelecimento. Livrou-se assim o proprietário de uma acusação por receptação ativa e minha mãe teve de volta seu relógio de estimação.
Ficou provado, mais uma vez, que quem tem padrinho não morre pagão. Tratar bem a todos, independente da sua posição social ou “profissão”, me possibilitou essa aventura.
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