Nos anos 50/60, as comunicações no Brasil eram bastante rudimentares. Mesmo nos centros mais desenvolvidos, como São Paulo e Rio de Janeiro, era de uma tremenda dificuldade o uso de sistemas de comunicação.
O telefone era um tormento. Eu gerenciava uma laminadora de ferro na Penha (Avenida Celso Garcia, 6090), próxima do pontilhão do trem e beirando o rio Aricanduva. Para poder usar o telefone, era preciso esperar “dar linha”; para tanto, se tirava o fone (eram uns aparelhos negros e pesados) do gancho e se aguardava. Para não dar calo na orelha e não cansar o braço, o recomendável era deixar o fone sobre o móvel ao lado do aparelho e, de quando em vez, colocá-lo no ouvido para saber se tinha ou não dado linha. Depois de intermináveis esperas, a linha aparecia, a gente fazia a ligação e, invariavelmente, o telefone chamado acusava sinal de ocupado. Começava-se, então, toda a operação de novo.
Imaginem o padecimento: no meu caso, onde o escritório era na Praça Antônio Prado (Centro) e os dois locais dependiam de diversas comunicações durante o expediente. Muitas vezes eu me utilizava de uma folha de papel, aonde ia anotando os assuntos para, na efetivação de uma ligação minha para o escritório, ou do escritório para mim, destrinchar todos os assuntos pendentes de uma única vez. Essa folha era, na realidade, pauta de assuntos telefônicos.
Se dentro do município de São Paulo era esse tormento, imaginem o terror que se tornavam as ligações interurbanas. Teve vezes que eu, trabalhando em estados do Sul, solicitava o aprazamento de um telefone às 8:00 horas da manhã e só conseguia concluir a ligação depois das 18:00 horas.
A linha telefônica, mesmo de difícil acesso e uso, era demasiadamente cara, por causa da lei da oferta e da procura. Ela, durante muitos anos, foi objeto de um comércio paralelo de vendas e locações bastante movimentado e atraente.
Outro meio de comunicação nada confiável era o telégrafo. Os correios naqueles idos não gozavam da confiabilidade hoje desfrutada. As cartas, quando não se extraviavam, demoravam mais de duas semanas para serem entregues no destino. Telegramas tinham de duas modalidades: o urbano e o nacional. Para um telegrama urbano, o formulário era vendido nos guichês. O remetente descrevia os dados do destinatário, escrevia o texto no local apropriado (cuidando para não exceder o número de palavras permitidas) e entregava no apropriado guichê para remessa posterior. A entrega do telegrama urbano era promovida no máximo em 24 horas.
Já o telegrama nacional tinha um outro procedimento: os formulários não eram vendidos, eram distribuídos dentro da agência. Na precisão de se enviar um telegrama nacional, o emitente escrevia todos os dados solicitados no impresso, usando, para tanto, a escrita em letras de forma ou datilografada. Identificados o destinatário e o remetente, escrito o texto do telegrama, era ele encaminhado à agência e entregue ao funcionário responsável pela recepção, que, por sua vez, contava todas as palavras e taxava o telegrama de conformidade com as tabelas em seu poder. Para barateamento do custo do telegrama, era usado o expediente de suprimir alguns artigos e pronomes, ou então, de se escrever duas palavras juntas; assim, recebiam-se telegramas com palavras nessa grafia: viajohoje, saibaque, seuconhecimennto etc, etc e tal.
Quando a comunicação era por demais importante ou urgente, os serviços do correio nacional eram dispensados e o remetente servia-se dos serviços do envio de telegrama por empresa particular. A mais famosa da época era a Western Telegraph Co., que se comprometia a entregar o telegrama no máximo em quatro horas, em qualquer parte do território nacional, desde que no destino houvesse um cabeamento, ou então, em no máximo seis horas, se o cabeamento fosse em outra localidade da região de destino.
Tempos difíceis que hoje nos parecem superados. O surgimento da telefonia celular, como diz um amigo meu, veio para resolver problemas antigos – e ainda outros que antes não tínhamos.
e-mail do autor: [email protected]