Memórias circenses II

Os anos são da década de 50, eu ainda morava na Rua Augusta e meu amigo Zilando morava, então, na Rua Bento Freitas onde “seu Freitas”, seu pai, tinha duas pensões, na esquina da Rua Bento Freitas com a Rua major Sertório. Aliás, em uma delas foram rodadas várias cenas do filme Modelo 19 estrelado pelo grande ator Jardel Filho. Assisti a várias locações.
Eu estava diariamente na casa do Zilando nos horários de ócio, ou seja, fora dos horários de estudo. Aos domingos tínhamos programas fixos e constantes, de manhã, vestidos com as roupas domingueiras e ostentando, invariavelmente, gravatinhas borboletas por entre o colarinho das camisas, após assistirmos a missa na Igreja de N.S. da Consolação, íamos para o auditório da Rádio Cultura, na Avenida São João quase esquina com a Duque de Caxias, assistir e participar do Clube do Zezinho.
Saindo da Rádio voltávamos para casa onde o Oswaldinho, cozinheiro negro e gay (na época Bicha), que nos tratava muito bem, fazia dois enormes e sortidos pratos de comida e a gente comia até se fartar.
Devidamente almoçados e já paramentados desde a manhã, batíamos em caminhada para a nossa diversão vespertina, descíamos a Bento Freitas e chegávamos novamente na Avenida São João com a Avenida Duque de Caxias, onde havia uma parada de bonde.
Aguardávamos o bonde Lapa ou o Barra Funda (de preferência o aberto que nos dava a chance de driblar o cobrador e não pagar a passagem) e nessa mordomia, viajávamos até o primeiro ponto de bonde depois da Praça Marechal Deodoro onde descíamos sempre em folguedo.
Apeados do coletivo, nos dirigíamos poucos metros adiante onde no quadrilátero formado pelas ruas Avenida General Olimpio da Silveira, Rua Lopes de Oliveira, Rua Olímpia de Almeida Prado e Rua Tompson, estava instalado o complexo circense de um dos maiores palhaços deste Brasil Altaneiro.
Era o CIRCO PIOLIM, do Palhaço Piolim e seu partner o Clown Pinati.
Piolim com sua cara pintada formando uma enorme boca, seu colarinho hiper largo, suas bonitas enormes e a bengala grossa e Pinati com suas roupas brilhantes e sua cara branca de alvaiade, são duas imagens que se fixaram na minha memória e até hoje consigo ver com muita facilidade.
Foram o Piolim e o Arrelia (outro monstro do picadeiro) os culpados, diretos, de anos mais tarde eu ter criado o Filomeno que em sua caracterização tinha um pouco de cada um deles.
Os espetáculos eram divididos em duas partes, as atrações circenses do 1ª. Parte e a encenação de uma comédia em um ato na 2ª. Parte.
Nós, empoleirados nas Gerais com um saco de pipocas em uma mão e com os bolsos cheios de amendoim, assistíamos enlevados às atrações da 1ª Parte, embora repetidas por muitas semanas e nos maravilhávamos com a pecinha da 2ª. Parte.
Ao final do espetáculo voltávamos para casa alegres e já sonhando com o próximo Domingo.
Que pena que as crianças de hoje não tenham mais essas oportunidades de diversão. O desaparecimento desses espaços sagrados e o surgimento dos jogos eletrônicos são evidentes.
Choro de tristeza pelas crianças de hoje!

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