Redescobrindo o Ipiranga

Doze prédios antigos foram tombados no Ipiranga, fato que motivou a Revista da Folha a realizar uma matéria sobre o bairro. De maneira análoga, a leitura de diversas histórias publicadas neste site, em que paulistanos ( nascidos ou não em S. Paulo) contam suas vivências nos mais diversos bairros da cidade, me fez refletir sobre o que foi o bairro anos atrás, e como ele evolui até os dias de hoje. Poucas histórias do antigo Ipiranga chegaram até mim, que tenho 18 anos. Por óbvio, minhas lembranças são muito recentes.<br> <br>As histórias antigas da família:<br><br>O pouco que sei do antigo Ipiranga (nem tanto antigo, uns 40,50 anos atrás) é o que me foi contado episódicas vezes por tios e tias mais velhos.<br>Um tio, que hoje reside em S. Bernardo, morou na Juntas Provisórias, antes do asfalto e muito antes do Fura Fila. Ele trabalhava até pouco tempo atrás na Linhas Corrente (que chamavam de Inglesa, uma das primeiras indústrias a se fixarem no bairro).<br>Época de muito trabalho, imagino eu, o que o obrigava a morar perto da fábrica, num dos muito sobrados geminados que ali haviam.<br>Uma história que ele sempre conta é sobre a casa em que hoje funciona a Fisk, ali na Av. D. Pedro. Conta ele que aquele conjunto de casa inglesas (aquela defronte à avenida e as demais na Rua Jorge Moreira) eram de propriedade da Linhas Corrente. Justamente a da avenida foi oferecida ao meu tio, em suaves prestações. Segundo ele, era comum a oferta de casas parceladas a funcionários da empresa. Depois de muito pensar, recusou a oferta, pois estava construindo uma casa em S. Bernardo. Até hoje ele se lamenta de ter perdido o negócio. <br>Já uma tia, que também trabalhava na empresa, residia na Rua Vemag, próximo a linha do trem. Conta ela sobre as freqüentes enchentes (essas eu conheço bem), em que seu pai a carregava para atravessar as ruas alagadas pelo Tamanduateí. Ela testemunhou o nascimento de Heliópolis ("três ou quatro casinhas" naquela época) e as mansões da Av. D. Pedro (que para mim sempre foram clínicas, lojas de móveis etc.) com seus vidros ricamente adornados em ar pretensamente parisiense. <br><br>A relação entre o "meu" Ipiranga e o antigo:<br><br>Após refletir sobre as antigas histórias, tento lembrar-me de pontos que conectam o antigo ao novo. Me vem a mente o Hamburguer do Seu Osvaldo. Para os não ipiranguistas, vale uma explicação: Seu Osvaldo é um senhor que possui uma lanchonete na Bom Pastor, 1659. Além de fazer, com certeza, o melhor cheese salada da cidade e quiçá do mundo, mantém os mesmos hábitos desde os anos 60. A lanchonete conserva a mesmíssima aparência física, não há telefone (muito menos entrega em casa). Apesar da simpatia, só abre ao meio-dia, ignorando a fila que se forma na calçada. Quando você leva o sanduíche para comer em casa, ele os envolve num pacote impresso com a frase: "servimos bem para servir sempre". Em suma, tudo ali nos remete ao passado. <br> <br>O atual Ipiranga:<br><br>É para mim o bairro dos novos empreendimentos (geralmente erguidos sobre terrenos de demolição; fábricas, casinhas antigas etc)<br>É, por força dos acontecimentos, o bairro do Fura-Fila. Ah sim, isto marcou muito minha relação com o bairro. Desde o anúncio da obra, com este nome no mínimo infeliz e aquela musiquinha de campanha política. Por anos resumiu-se a pilastras fincadas da Av. Do Estado e na Juntas provisórias. Passou o Pitta, passou a Marta e o agora denominado Expresso Tiradentes só foi concluído na gestão Kassab, numa ode ao desperdício de dinheiro público. Hoje é um símbolo até agradável do bairro, que trouxe em sua construção muito transtorno.<br>É ainda o bairro dos "umbigos do mundo". Todo o trânsito pesado parece convergir em um só ponto. Ali nas imediações da Pça do Monumento: Ricardo Jafet; Nazaré; Leais (acesso a silva bueno); Teresa Cristina (acesso a Av. do Estado), sem falar de todo o trânsito da Dom Pedro que desemboca ali.<br>No Complexo Viário Mackenzie (viadutos próximos ao terminal Sacomã):<br>Av. Tancredo Neves (dispensa comentários); Anchieta. Estrada das lágrimas, Bom Pastor (retorno); Juntas Provisórias.<br>É o bairro das ruas de paralelepípedo; Ricardo Daunt e Eugênio de Mello destacam-se; e das ruas em que você quase não se depara com um farol (experimente andar pela Costa Aguiar à noite até a Ld. Cockrane).<br> <br>Eu como ipiranguista:<br><br>O que será tenho eu de ipiranguista? Além de colocar o Ipiranga no topo da minha lista de melhores bairros para se viver (lista esta eminentemente subjetiva) e defender o bairro daqueles que lembram detalhes que devemos esquecer (as enchentes – que não são, mas não mesmo, monopólio do Ipiranga; o trânsito – idem) acho que o que tenho de ipiranguista é um salutar e racional apego ao passado. Não ao velho, ao ultrapassado, mas ao antigo que merece ser preservado. Daí advém uma certa "neofobia", um medo de mudar. Um medo, mas um medo prudente, por vezes meramente emocional. Convivemos com a história do país; a oficial, que se representa pelos símbolos do bairro (o museu, o monumento). Mas também com a história real de nosso povo. Esta sim o Ipiranga guarda em suas ruas. A história do povo brasileiro, também do "popolo italiano", em suma, do povo ipiranguista. Enquanto S. Paulo constrói e reconstrói, o Ipiranguista apega-se ao antigo, ao tradicional. Isto para preservar a história real que acima me referi. Não a história dos prédios tombados, mas a história emocional da vivência. A essência que nos é apreensível pelos sentidos e não pela razão. <br>Uma prova do apego ao passado que, com 18 anos, assumo ter? Descobri que há um projeto na prefeitura para transformar a avenida que resido em uma "rambla", como as de Barcelona. É, o projeto consiste na substituição das faixas centrais da Av. D. Pedro por um passeio central. Apesar da notável melhora, tendo a resistir. Afinal, aquele barulho nem atrapalha tanto assim… <br><br>e-mail do autor: [email protected]