Ontem, sábado de carnaval, mas de qualquer forma sábado. Assim sendo no horário de costume me preparo para ir ao meu baile de todas as semanas.
O espírito ia preparado para enfrentar um baile carnavalesco, repleto de marchinhas dos anos 50/60 e qual não foi minha surpresa, foi um baile normal, com músicas dançantes nos salões de sempre.
Lembrando o carnaval, sejamos justos, uma única seleção de marchinhas e pronto, satisfeitas as ansiedades, mesmo daqueles que mais ousados, haviam se fantasiado para o evento.
Fim de Baile, cada um para sua casa. Eu, embalado pela dança, me esqueci do horário e, lógico, perdi o ultimo ônibus que nesta época estão totalmente desregulados com relação a horários, é muita gente e muito transito aqui na Praia Grande.
Resignado, me disponho a esperar o primeiro ônibus já que um táxi além de difícil seria muito caro. Sento no banco existente na parada e ciente que deveria esperar pelo menos 1 hora, começo a pensar no ocorrido com o “Baile Carnavalesco” e concluo que o carnaval de hoje, no eixo São Paulo/Rio, está limitado à diversão de apenas uns milhares de pessoas que participam dos desfiles das Escolas de Samba e ao entretenimento de uns milhões de espectadores ou telespectadores que assistem, passivamente, a alegria e a diversão do primeiro e menor grupo.
Presa nessas meditações a mente começa a divagar e as imagens e sons dos carnavais de outrora desfilam na minha lembrança, vejo os Bailes do Arakam, que eram realizados nos salões do Aeroporto de Congonhas e mereciam várias reportagens fotográficas com flagrantes indiscretos dos foliões.
Revejo, ainda, o salão do Complexo Esportivo do Pacaembu, quando os bailes promovidos pela Prefeitura eram ali realizados. Não havia uma grande freqüência, mas o pessoal se divertia a valer, principalmente quando um casalzinho tentava burlar a vigilância e buscava o isolamento na tranqüilidade da concha acústica que hoje não mais existe.
Vejo os salões do Cine Odeon, com os bailes promovidos pelo Clube Royal, e me lembro que, como na época inexistiam locais específicos para reunir a classe hoje denominada de “GLS”, esse baile era invadido por eles que, com poucas, ou nenhuma restrição por parte dos heteros da época, ali se divertiam.
Senti no ar o forte cheiro de papel vindo dos milhares de quilos das serpentinas e dos confetes coloridos e, principalmente, o perfume delicioso do lança-perfume Rhodia, naquela época usado apenas para brincar.
Todas essas imagens marcantes vinham acompanhadas de trilha sonora e as melodiosas marchinhas e sambas carnavalescos desfilavam aos meus ouvidos com vibrantes lembranças.
Foi assim que ouvi:
“Confete, pedacinho colorido de saudades, ai ai ai ai, / ao te ver na fantasia que usei/ confete, confesso que chorei…; Venho do lado de lá/ minha gente chegou, / chegou querendo abafar…; Chegou general da banda eh eh/ Chegou general da banda eh ah…; Ó jardineira por que estas tão triste?/ mas o que foi que te aconteceu?…; Ei você aí/ me dá um dinheiro aí/ me dá um dinheiro aí…; Se a canoa não virar olé olé olá, / Eu chego lá…; Maria Escandalosa/ desde criança sempre deu alteração…; Maria Candelária/ é alta funcionária/ saltou de pára-quedas/ caiu na letra óóóóóóóóó…; Sassassaricando/ todo mundo leva a vida no arame…; Eu procurei/ de lanterna na mão…; Chiquita bacana lá da Martinica/ se veste com uma casca de banana nanica…; Oi zum zum zum zum zum zum zum/ está faltando um…”
Gente, depois de ver todas essas imagens, de ouvir todas essas músicas, constatar a situação do carnaval da atualidade, só consegui enxugar uma lagrima que fantasiada de tristeza teimava em correr por minha face, subir no ônibus e voltar para casa.
e-mail do autor: [email protected]