Memória das quintas-feiras

Final da década de 40, eu com mais ou menos nove anos e meu irmão com três anos a menos, tínhamos, além da escola, uma série de rotinas, dentre elas as visitas à casa de meu avô materno. Todas as quintas-feiras, depois da aula, junto com nossa mãe, íamos para o bairro do Brás, na Rua Vinte e Um de Abril, quase esquina da Rua Bresser, visitar meu avô, minha bisavó Dona Joaninha, minha madrinha e madrasta da minha mãe, a vó Vicentina, e minha tia Lourdes. O Dr. Salvador, meu avô, era Prático Dentista e Protético, tinha seu consultório na sala da frente da residência e o ritual da visita começava no momento de nossa chegada.

A ida e a volta dessas visitas eram feitas com o ônibus 5/6 Estações.

Tocávamos a campainha e, mesmo nos aguardando, minha tia vinha até a janela da sala de espera do consultório, deslocava a cortina de renda, olhava pela janela e, constatando nossa chegada, avisa meu avô e ia abrir a porta.

Porta aberta, entrávamos e nunca passávamos pelo consultório, seguíamos pelo corredor externo até a porta da sala de jantar, onde éramos recebidos, sempre, com muita alegria por minha bisa e por minha madrinha.

Assim que ficava livre de seus pacientes, meu avo vinha nos cumprimentar e conversar um pouco com minha mãe, dirigindo-se, depois, a uma saleta no fim das casas, onde estava instalada sua oficina de trabalho.

Era para lá que eu me dirigia poucos minutos depois para pedir uma moeda e poder comprar, na quitanda que ficava na mesma rua, um apetitoso e suculento pedaço de coco, que ficava à minha espera num grande pote de vidro cheio de água.

Meu avô, depois de algumas reticências e depois de me alertar que o coco poderia estragar meus dentes e ele teria de tratá-los com o motorzinho do seu consultório, me dava uma moeda e eu saía em abalada carreira para comprar o almejado quitute.

Lembro ainda que meu avô ficava radiante quando eu aparecia com uma bola de borracha. Ele me avisava que se a bola furasse ele a queria. Invariavelmente, passados alguns dias, a bola aparecia furada e eu, inocentemente, a entregava para ele, que, radiante, cortava-a ao meio e usava a metade incólume como cuia para o preparo da amalgama de suas próteses.

Como eram boas essas quintas-feiras!

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