Machado é ou era um apelido muito conhecido em toda Freguesia do Ò. O apelido se deve ao fato de Machado ser oriundo da cidade do mesmo nome em Minas Gerais; menino ainda, chegou à Freguesia e logo se enturmou com os rapazes e juventude local.<br><br>Jovem alegre e simpático, de imediato virou amigo de todos. Bom de bola e artilheiro nato, antes mesmo de completar um mês de sua chegada, já estava jogando no Extra do Paulista F.C., clube varzeano muito famoso da Freguesia.<br><br>Gostava de cantar acompanhado de seu violão. Era comum vê-lo e ouvi-lo nas noites quentes e enluaradas de verão ao lado da igreja Matriz, rodeado de amigos também boêmios, cantando lindas canções de Adelino Moreira que ficaram famosas na voz de Nelson Gonçalves.<br><br>Mas a vida boêmia levou-o direto ao alcoolismo e Machado passou a beber mais do que devia… Com isso, acabou tornando-se dependente do álcool.<br><br>Juntos, íamos a cinemas no centro da cidade. Frequentávamos também os cinemas da Lapa, como o São Carlos, Carlos Gomes, Tropical na esquina da Rua Faustolo com a Rua N.Sra. da Lapa. Íamos também às Perdizes no Cine Esmeralda, que ficava no Largo Padre Péricles.<br>Bem pertinho do viaduto Pacaembu, às vezes esticávamos até o Cine Santa Cecília que ficava na Avenida General Olimpio da Silveira, esquina com a Rua Cons. Brotero.<br><br>No final do ano, íamos de casa em casa pelo bairro fazendo serenata: ele com seu violão esua bonita voz, e nós, seus amigos, fazendo um coral cantando “Adeus ano velho e feliz ano novo”. E, é claro, bebendo vinho e cerveja em cada casa visitada.<br><br>Não é preciso dizer que no final da noite, os moderados voltavam para casa normalmente e os exagerados eram carregados por amigos ou passavam a noite na sarjeta, o que virou coisa comum na vida de Machado.<br><br>Fazia anos que não via o Machado… Achei até que o mesmo já tivesse “subido a Rua da Consolação de marcha ré” (que é como minha idosa mãe, quando viva, costumava dizer das pessoas que morriam).<br><br>No início do mês de abril, estive em São Paulo no aniversário de minha irmã e, passando na rua, encontrei Machado. Machado estava magro, sentado num banco na Pizzaria do Bruno (a mais antiga de São Paulo).<br><br>Parei o carro em local proibido, atravessei a rua e fui falar com ele rapidamente.<br>- Olá, Machado! Lembra-se de mim? – perguntei.<br>E ele, já bem alto, me olhou fixamente de cima a baixo e falou arrastado:<br>- Oi, Tutu! Como vai? Você ainda está vivo?<br>- Claro – disse-lhe com carinho – Eu só vou morrer depois que o Corinthians for campeão da Libertadores!<br>E ele, rindo, respondeu:<br>- Querendo viver para sempre, é?<br>- Pelo jeito você continua bebendo, né?<br>E ele:<br>- Que nada! Parei! Parei… Parei de beber pouco, agora eu estou bebendo muito, muito!<br>- Porque isso? – inocentemente perguntei.<br>E ele, então, bem rápido disse:<br>- Oras, se lavar as mãos com álcool mata o vírus da gripe, enchendo a cara eles não vão nem chegar perto de mim!<br>E Machado soltou a mais longa e alta risada que já ouvi em toda minha vida.<br><br>E-mail: [email protected]