Memórias de uma criança curiosa

Sempre gostei de ouvir histórias e, desde criança, ao passar por um imóvel que por alguma razão me chamasse a atenção, ficava a imaginar o que ele teria vivenciado, acolhido.<br><br>Outro dia fui convidada ao lançamento de um livro de poesia de uma cliente na Casa das Rosas na Avenida Paulista. Para mim foram dois presentes, um em ver a alegria desta cliente tão carinhosamente acompanhada em seus momentos de busca interior e outro, de poder olhar aquele imóvel tão famoso dentro do nosso núcleo turístico e social, e ao puxar por esta memória lembro de uma dessas histórias que minha mãe usava para entreter sua pequena platéia de filhos.<br><br>Descrevia o interior do cinema de seu pai meu avô Chico Turco, o Cine São Francisco, era todo feito em madeira de lei com pesadas cortinas de veludo. Nos dias de matinê a garotada em sinfonia batia os pés como a avisar o mocinho do perigo que o espreitava, ou quem sabe de alegria por ver salvo o herói ou a mocinha do sonho estampado na grande tela da época. Dizia minha mãe que, em dias santos, quanto se apresentava filmes com temas sacros, o silêncio era total, apenas ouvia-se lá ou cá um ou outro suspiro abafado de dor pelo protagonista sofrido da trama.<br><br>Mas minha mãe contava também que os filmes de ação, assim como os romances, eram sucesso certo para as fãs afoitas para rever seus ídolos e juntos com a heroínas sonhar seus sonhos ingênuos da época. Ela contava com graça que, para deixar os cabelos parecidos com o das grandes artistas da época, as moças faziam enchimentos de palha de aço para dar volume e beleza nos penteados armados da época (década de 40). Nesses tempos ter uma costureira era quase uma regra, ou senão ter habilidade para a cada temporada copiar a moda trazida nos rolos das películas exibidos pelo cine São Francisco. Tecidos, rendas, botões e detalhes especiais a do traje, ora rodado ou justo, mas de qualquer forma cada uma tentava se identificar desta forma com a artista de sua escolha e assim também protagonizar no seu dia a dia um pouco da fantasia vivida nas telas do cinema do meu avô.<br><br><br>E-mail: [email protected]