Recentemente fiz uma viagem a São Paulo, para matar as saudades. Já fazia algum tempo que não vinha, e desta vez fiquei por quarenta dias, tempo esse suficiente para procurar e reencontrar amigos que não via há quase cinco décadas. Cheguei com uma lista de nomes e endereços quase completos de quem eu me propunha encontrar, porque hoje com tanta tecnologia disponível e muito fácil encontrar coisas e pessoas em um abrir e fechar de olhos. Ao mesmo tempo rever minha velha cidade e meu querido bairro do Brás, onde nasci e me criei.<br><br>Assim que desembarquei no terminal um do aeroporto de Guarulhos, depois de 8 horas de voo e uma viagem tranquila, logo notei o quanto São Paulo muda a cada vez que nos reencontramos.<br><br>Cheguei durante uma manhã chuvosa. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com o tempo que levei para passar pela policia federal e recolher minha bagagem. Foram mais de duas horas e como não tinha nada a declarar achei que isso poderia ter sido bem mais rápido. Eu acredito que, urgentemente, algo precisa ser feito para melhorar o atendimento aéreo portuário, porque em breve iremos sediar uma Copa do Mundo e logo em seguida as Olimpíadas. Embora esta no Rio de Janeiro. Mas como Guarulhos e o principal aeroporto de conexões do Brasil isso precisa ser feito. Porque o tempo é como o vento, passa muito depressa.<br><br>Minhas saudades de São Paulo eram enormes e logo depois de algumas horas de repouso comecei pelo meu sempre querido bairro do Brás, entristeci-me ao vê-lo tão deteriorado, mas procurei fechar os olhos em alguns momentos, para relembrar os encantos que ele sempre me proporcionou. Eu gosto muito de caminhar por todos os lugares aonde vou. E entrando pela minha Rua Caetano Pinto, nasci nesta rua no numero 11 quase em frente à farmácia do “Rega”, passei pela casa onde morei e depois no 269 que era a padaria dos Canteiras, mas que hoje e um enorme armazém Esse prédio foi o ultimo que escapou da desapropriação do metro, pois depois dele chegamos a Rua Campos Sales e tudo o que existia antes desapareceu.<br><br>Fui caminhando e tirando fotos, passando pela Rua Flora, Rua Paraná… Voltei depois pela Rua Visconde Parnaíba até a Rua Carneiro Leão, Rua Sobral, Avenida Rangel Pestana, Rua Professor Batista de Andrade, Avenida Piratininga… Atravessei a avenida e entrei na Igreja do Brás, onde fiz a primeira comunhão nos anos 40 e há 54 anos atrás me casei.<br><br>Tudo igualzinho, o prédio do R.Monteiro na esquina, o Grupo Escolar Romão Puigary em frente, onde fiz o primário. Entrei pelo portão principal no jardim, como as janelas estavam abertas, pois os alunos estavam no pátio preparando-se para entrar, tirei umas fotos da sala no térreo que foi a do meu primeiro ano. Lembrei-me da dona Lourdes que era uma professora muito linda, de descendência libanesa. Ela residia na Rua Piratininga e cheguei a ir a sua casa algumas vezes brincar com seu filho que era quase da minha idade. Quantas lembranças!<br> <br>Em seguida entrei no que restou do Cine Piratininga com certa emoção. O prédio esta a céu aberto, mas com a mesma entrada, as colunas de ambos os lados intactas, as bilheterias, os balcões nas laterais do salão ainda existem. No lugar onde era a bomboniere estava um sujeito por trás de um balcão cobrando pelos carros que ali estacionavam. Pedi a ele permissão para tirar algumas fotos, ele não concordou a principio, dei-lhe uma gorjeta e ai não houve mais problema.<br><br>Ali voltei no tempo, lembrando da noite em que assisti ao filme "O Maior Espetáculo da Terra" de Cecil B. DeMille com Charlton Heston, James Stewart, e a maravilhosa Dorothy Lamour nos anos 50. E algum tempo depois, pelo ano 1955 mais ou menos, o fantástico Trapézio que foi exibido em duas seções em “avant-premiere” na mesma noite com Burt Lancaster e Tony Curtis e a bela Gina Lollobrigida, naquele triangulo amoroso que viveram no circo. E também nos anos 50 de ver o famoso “Trio Los Panchos” ao vivo, que era o trio mexicano que cantavam os boleros mais belos da década.<br><br>Enfim para recordar o meu Brás como ele era só mesmo fechando os olhos e voltando no tempo. Já se passaram 77 anos para mim. Tenho muito que contar ainda sobre este lugar, das serenatas que fazia para minha noiva, depois minha esposa, nas madrugadas de sábado. E de tantas outras maravilhosas lembranças. E se Deus quiser voltarei com algumas. São historias de quatro gerações desde meus avos imigrantes, ate meus filhos que também nasceram aqui. Sem falar dos netos e bisnetos, que vieram depois.<br><br>Do Brás fui caminhando ate um lugar que nunca deixo de visitar quando venho de tantas lembranças e prazeres que me proporcionou. Fui caminhando pela Rua do Gasômetro, Rua das Figueiras e Rua Santa Rosa na zona cerealista, onde meu avô paterno e meus tios tiveram um armazém no começo do século XX.<br><br>Passei pela Avenida Mercúrio e finalmente cheguei ao Mercadão da Cantareira, e me surpreendi com a demolição daquele enorme edifício em frente, parece que se chamava São Vito e também do edifício Mercúrio donde transmitia a emissora de rádio com o mesmo nome. Praticamente já quase todo demolido. <br><br>O mercado em que eu vinha com meu pai todos os sábado, para as compras do nosso tradicional almoço do domingo, ingredientes para o nosso “Puchero”, comida típica “Yberica”, com grão de bico, carnes gordurosas, verduras, batatas etc., ou às vezes cabrito, ou peixes, mas sempre presentes a linguiça calabresa e as azeitonas sevilhanas como também o velho queijo de bola, o famoso “Palmira” para servir de petisco com o seu vinho tinto.<br><br>Mas aproveitei a visita nesse dia, para voltar a comer aquele saboroso sanduíche de mortadela tão apreciado por todos nesse lugar, e o agora famoso pastel de bacalhau, fiquei aguardando o pastel por 30 minutos de tanta gente que tinha na espera. Mas esse realmente, não foi muito do meu agrado. E depois andar por aquelas alamedas repletas de iguarias nacionais e estrangeiras. Alias com a reforma que a prefeitura fez no prédio este ficou ainda mais deslumbrante. Aquele mezanino de alimentação na sobreloja ficou fantástico e aconchegante . <br><br>Em diferentes dias andei por todos os cantos da minha velha cidade. Uma tarde estava caminhando pelo Bexiga, onde tinha ido ate a Rua Humaitá encontrar meu grande amigo Ismael, que não via há muitos anos. Trabalhamos juntos na Livraria Saraiva quando garotos, e depois de visitá-lo desci pela Rua Genebra, ate o Viaduto Jacareí. Aqui nesta esquina no subsolo deste viaduto recebi meu certificado de reservista como excedente de contingente do Exercito Brasileiro em 1952, como o tempo passou, parece que foi o outro dia.<br><br>Ai fui descendo a Rua Santo Amaro em direção a estação do metrô Anhangabaú, e encontrei uma passarela que leva a estação pelo lado esquerdo e a direita ela atravessa a Avenida 23 de Maio em direção à ladeira do Ouvidor e Rua Riachuelo. Esta foi novidade para mim, pois não sabia da sua existência. Ali parei no meio dela e voltei aos anos 50. Como tudo mudou em seis décadas. Justamente nesse ponto olhando pelo nível da Rua Santo Amaro no tempo que eu era taxista e fazia ponto no Largo do Ouvidor bem em frente à igreja São Francisco e a Faculdade de Direito. Como lá não havia espaço suficiente para todos os carros, pois os ônibus que iam para Vila Clementino e Paraíso faziam ali seu ponto inicial do lado esquerdo, nós ocupávamos o lado direito. Os carros excedentes ficavam esperando por uma vaga exatamente nesta esquina Santo Amaro e Asdrúbal do Nascimento, ali aguardávamos uma chamada telefônica do fiscal para subir, o que fazíamos passando pela Praça da Bandeira e subindo a Ladeira São Francisco.<br><br>Bem ao lado desse ponto, foi montado o teatro de Alumínio na década de 50. Lembro-me perfeitamente desse acontecimento. A 23 de Maio era só um projeto do ex-prefeito Prestes Maia. Do lado oposto a Rua Asdrúbal do Nascimento esta a Rua Riachuelo donde fica o prédio da Radio Panamericana, hoje Jovem Pan. Aqui neste ponto antigamente foi o velho Largo do Piques. <br><br>Para mim este lugar e de enormes recordações, pois foi aqui , quando tinha uns 16 anos, entre os barracões da prefeitura que ocupavam o espaço da hoje 23 de Maio, que aconteceu a minha primeira vez. Com muito medo, pois o Juizado de Menores ficava a algumas dezenas de metros dali (Asdrúbal perto da Maria Paula) Eu era tão baixinho que tive que contar com a ajuda de dois paralelepípedos que eram abundantes no local para conseguir alcançar meus objetivos, mas o que mais me apavorava mesmo era estar tão próximo ao Juizado.<br><br>Continuando com as lembranças do local na Praça da Bandeira bem em frente ao sofisticado Hotel São Paulo na época, ficava o ponto inicial do bonde 5 que ia para o Bexiga, subindo a Rua Santo Antonio e entrando pela Rua Major Diogo.<br><br>Lembro-me também do crime do poço que aconteceu a poucos metros dali. Um desequilibrado mental matou a mãe e duas irmãs e as enterrou em um poço que ele mandou fazer no fundo do quintal, e quando foi descoberto, enquanto os bombeiros abriam o poço ele foi ao banheiro e se suicidou. Local esse que se tornou ainda mais trágico anos depois, com aquele incêndio em um edifício que construíram no mesmo local nos anos 70 se não me engano o Joelma, este com entrada para a 9 de Julho, onde morreu tanta gente.<br><br>Lembro-me da Ladeira da Memória que terminava onde hoje e a estação do metrô. Na esquina ainda existe o edifício da “Touring Clube”. Lembro-me daquela enorme figueira que não sei se ainda existe no alto da ladeira já junto a Rua Xavier de Toledo. Quantas coisas passam pela minha mente enquanto escrevo. Coincidentemente estava em São Paulo no dia 30 de abril e lembrei-me da festa de Nossa Senhora de Cassaluce na Rua Caetano Pinto. Então fiz questão de comparecer por pelo menos três fins de semana do mês de maio, pois na ultima semana já não estaria mais em São Paulo. <br><br>Procurei encontrar alguém dos velhos tempos, mas sem sucesso. O bom foi que mesmo sem a festa ser como nos velhos tempos, pude ver como ela e feita nestes dias e comer massas feitas “al dente” e churrasquinhos, sanduíches de pernil e sobremesas italianas, “spumoni”, “tortoni” e tortas diversas, tentei pelo menos reviver aquela festa que tanto participei na minha infância nos anos 40, com a banda de musica sempre presente, o pau de sebo nas cocheiras dos Campana, a churraria da dona Dolores e o senhor Raimundo. <br><br>Que viagem inesquecível foi esta para mim. Revi amigos que com certeza se os tivesse encontrado na rua não os reconheceria. O tempo é implacável e nos transforma sem piedade. Mas consegui encontrá-los, quase a todos, pois alguns já partiram e não estão mais entre nós. Que felicidade de poder ter estado com o Ismael, o Olimpio, “Miano”, Elyseo, “Bolão”, “Rudes”, meu primo Nelson, Rubens, Osvaldo, Ercílio, André, Lourenço.<br> <br>Também dos lugares que frequentei e pude voltar a visitar como o Gato Que Ri, da nossa saudosa dona Amélia e senhor Jacinto. E que dele só restou o nome, pois não tem mais nada a ver com aquele restaurante popular dos anos 50 que frequentei assiduamente. Ficou sofisticado demais para mim. Nem sombra das massas que eu comia com a salada verde, e meu gostoso pudim de leite com chantili naquele balcão de pedra. Servido pela D Amélia, a Maria Jose, a Rose e o meu saudoso amigo Alcides de Souza, do Paraíba e Zé Bento, estes cozinheiros dos velhos tempos. Ainda volto para contar a minha historia no Gato, onde fui cliente desde a minha adolescência.<br><br>Fui também com o Elysio ao Ponto Chique comer o famoso Bauru lá na filial no Largo Padre Péricles. Passei pela Casa Califórnia na Rua São Bento donde se comia aquele sanduíche de calabresa de Bragança, e aquelas batidas e sucos deliciosos. Também não tem mais nada a ver com aquela que eu conheci em outras épocas.<br><br>Visitei também o maravilhoso Museu do Futebol no Pacaembu onde pude reviver vídeos e fotos de jogos das décadas de 40 e 50 nos quais estive presente. E também o maravilhoso Museu da Língua Portuguesa na Luz.<br><br>Tenho que confessar uma coisa que me impressionou positivamente e muito em São Paulo, sobre o respeito que se tem com os idosos. Onde quer que eu fosse sempre havia uma fila preferencial dedicada aos idosos, um banco azul no metro, os bancos na parte dianteira nos ônibus. Como não estava acostumado a esse tipo de tratamento, na hora de embarcar, quando já estava na fila da policia federal para apresentar meu passaporte via uma moça acenando para mim insistentemente e eu não entendia, ainda fiz sinal para ela de volta, perguntando se era comigo, no que ela balançou a cabeça afirmativamente. Passei por baixo das fitas que separam os corredores de zig zag que dão aceso aos clichês, e foi ai que entendi, pois ela me advertiu que eu não precisava entrar naquela fila. Senti-me mais velho do que sou. Mas essa delicadeza embora seja determinada por uma lei, com certeza é muito bacana.<br><br>Que pena que esses quarenta dias passaram tão depressa. Quantas saudades sinto hoje daquele pãozinho crocante do meu café da manhã, daqueles míni sonhos sempre fresquinhos que comprava na padaria todos os dias, das cocadas brancas e queimadas e de abóbora, do queijo fresco mineiro, do queijo bola (do reino que vem na lata) das feiras livres que ia com minha irmã todos os domingos.<br><br>Mas não pude deixar de trazer comigo na minha bagagem de mão, dois queijos bola e um branco mineiro, 10 bandejas de cocada e ate uma de míni sonhos, 1 quilo de linguiça calabresa e uma copa. E tive sorte de passar sem ser notado na chegada, pois do contrario com certeza iriam tirar pelo menos a linguiça calabresa e a copa.<br><br>Sempre nas minhas despedidas de São Paulo, na hora que estou no portão de embarque fico meditando por algum tempo. Será que terei a oportunidade de voltar outra vez? Será que esta foi a ultima? Será que estarei vivo ate 2014. E que na minha idade a gente tem que viver sempre um dia de cada vez, pois o futuro a Deus pertence. E se ele me permitir estarei de volta para vir e torcer por mais um titulo de campeão mundial ai já com 80 anos. E quem sabe conhecer o Itaquerão, estádio do time dos loucos corintianos como eu.<br><br>Ate um dia minha adorada São Paulo que me viu nascer. Se Deus me permitir.<br><br><br>E-mail: [email protected]