Maria das cabritas

Maria era uma mulher que morava com a família ali por perto da Rua Tenente Negrão no Itaim Bibi. Uma rua que existe até hoje, um pouco mais curta devido a algumas desapropriações para as obras da Avenida Juscelino Kubitschek e com a canalização do córrego do sapateiro a junção da antiga Rua Heloísa.

Ali morava aquela simplória família da Maria das cabritas, que tinha esse apelido por ter cabritas em seu quintal, conservando daquele jeito dos anos 40-50 de ter criação de animais, como cavalos, dado ao enorme número de carroceiros e charreteiros, que residiam no bairro vendendo alimentos de porta em porta anos antes.

Maria das cabritas era uma mulher valente de pequena estatura, bem magra de rosto judiado. O marido era doente e um filho meio destrambelhado, por isso trabalhava muito. Era faxineira e com suas roupas pobres, porém limpas, quando ia para o trabalho passava pela oficina que eu trabalhava na Rua Bandeira Paulista. Ela ficava encantada ao ver os móveis estofados da tapeçaria Hidalgo.

A tapeçaria Hidalgo confeccionava móveis de primeira linha para famílias abastadas. Maria ficava ali… Minutos parada olhando, talvez a pensar: Será que um dia vou ter esses lindos móveis em minha casa?
Pura ilusão, pois ela morava numa casa que era praticamente de chão batido pelo menos além do quintal o terraço sei que era.

Por dentro não sei dizer por que nunca havia entrado. Mas sonho é sonho. Era o início dos anos 1970 e a febre do momento era a loteria esportiva, que todo final de semana mexia com os nervos das pessoas que ficavam de ouvidos colados no rádio ouvindo a transmissão do futebol marcando os resultados do teste da loteria, na tentativa de ficar rico. Uma hora estava dando coluna do meio, dois e quase sempre era um que dava.

Quando chegava às 19 horas é que as ilusões iam de água abaixo. Mas a fé continuava. – Tudo bem semana que vem tem mais, diziam os mais fanáticos e entendidos em resultados que sempre dava ao contrário daqueles que se achavam os entendidos em futebol e nunca gostavam de jogar na zebra. E quem dava sempre zebra, era o Corinthians. Quando não era o Juventus era outro time pequeno que pegava no pé de quem estava na fila anos a fio, sem ganhar um campeonato.

O domingo que o Corinthians estava jogando contra o Guarani de Campinas e dando fortes emoções aos torcedores, foi ele a grande zebra do teste perdendo de 1 x 0. Duas mulheres acertaram o cartãozinho de apenas um duplo. Dessas mulheres, uma era a Maria das Cabritas.
Naquele tempo era obrigado o apostador anotar no volante o nome e endereço para o recebimento do prêmio, e a imprensa ficava sabendo quem era o sortudo ou sortuda.

Pronto, agora ela era a senhora Maria de tal. Ninguém mais no bairro ousava chamá-la pelo seu apelido característico. A imprensa foi a sua residência e tinha tudo o que precisava para uma ótima reportagem. A sua história de vida. A loteria esportiva tinha feito mais uma pessoa pobre, rica da noite para o dia.

O apresentador da TV Tupi, Airton Rodrigues se antecipou a Flávio Cavalcante e pegou ela primeiro. Deu-lhe um tremendo banho de loja, e a levou no seu programa noturno, das sextas feiras, o Clube dos Artistas onde apenas a diferença de rosto podia mostrar quem era ela e, a Lolita Rodrigues.

Com seu jeito simplório falando o português varzeano, ela foi à grande simpatia do programa. Sua timidez ficou somente no início do programa quando por minutos ainda estava vermelha e nervosa. Depois soltou a língua para Gáudio do apresentador e os telespectadores. Sua modesta casa da Rua Tenente Negrão, já era. Agora, dona Maria estava instalada em seu belo sobrado nem um bairro nobre, o Brooklin.

Seu Marido com problemas mentais, já não fazia mais consultas no INPS, tinha consultas caras e, estava internado momentaneamente no sanatório Bela Vista, Rua Joaquim Floriano na curva com a Rua Iguatemi. Seu belo sobrado estava em faze de decoração, e para tal onde ela foi? Quem pensou Móveis e Decorações Hidalgo, acertou em cheio.

Seu João um espanhol que nem pensava em futebol e loteria, só soube que ela era a feliz ganhadora do teste milionário de onze milhos e quinhentos mil, e que fora aquinhoada com cinco milhões setecentos e cinqüenta mil cruzeiros novos, porque ela disse. Nunca se viu o espanhol esfregar as mãos tanto de uma vez só. O que ele empurrou de móveis superfaturado só Deus sabe.

Para que ela tivesse boas aplicações do dinheiro, ele apresentou a ela ao seu cliente e advogado de origem nipônica, assim ela não perderia muito dinheiro, e nessa de ela não perder, quem ganhou foi o Japa, com seus polpudos honorários. Línguas diziam, que o que ela foi roubada era de escandalizar, cegos, surdos e mudos. Mas aos poucos foi ficando esperta.

Na certa com muita gente buzinando em seus ouvidos. Sabe pobre quando fica rico dá autografo até em papel higiênico. Para que ela tivesse um bom rendimento, Seu Causídico que tinha seu escritório na Rua Joaquim Floriano estava instalado num pequeno prédio na Avenida Juscelino Kubitschek, comprou cem mil ações da Telesp, que estava bom bando naqueles anos 70-71.

Ela sempre perguntava das ações cujos papéis nunca tinha visto a sua frente. Segundo línguas, as ações estavam no nome dele, e ela de tanto perguntar e não obter resposta acabou chamando outro advogado e acabou com a festa do Japa. Por onde será que anda a Maria das Cabritas hoje em dia, será que ainda é viva?

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