No início de setembro deste ano de 2009, assisti a uma reportagem na TV mostrando o caso de uma adolescente que havia sido atingida por uma bala perdida durante um confronto entre policiais e ladrões na favela "Heliópolis". Ana Cristina, de 17 anos, mãe de uma menina, tinha sido ferida mortalmente. Devido às circunstâncias, o caso gerou uma grande revolta popular, ruas foram bloqueadas com pneus e veículos incendiados.
No início de 1985 fui morar no interior de Minas Gerais e, desde então, raramente tenho visitado São Paulo, minha cidade natal, mas, o episódio acima me trouxe velhas recordações daquele pedaço da cidade. Vi, na reportagem, um ônibus incendiado ao lado da Igreja Sta. Edwiges. Em frente à igreja há uma bifurcação formada pela Estrada das Lágrimas e uma rua que dá acesso ao bairro Alencar de Araripe, transformando-se em uma espécie de praça.
Em idos dos anos 60, nesta "praça" havia uma bica d'água onde muitas pessoas tinham o costume de buscar água e, do outro lado havia uma casa que em sua garagem, tinha um raríssimo automóvel "Isotta Fraschini" cujo feliz proprietário era um conhecido veterinário da região. A menos de 200 metros da referida bica, fica a "Árvore das Lágrimas", local onde, antigamente, amigos e familiares se despediam das pessoas que seguiam viagem ao litoral.
Na época eu fui morar no Jardim Patente, sub-distrito do Ipiranga.
Antigamente havia neste local o Haras Patente, de propriedade do empresário Luigi Liscio, 1884-1974, que também era dono da Fábrica de Camas Patente, localizada no Bairro do Bom Retiro. As pessoas com mais de 60 anos certamente se lembrarão destas resistentes camas, ao assistirem certas novelas de "época". Dos anos quarenta e cinquenta.
Para ir ao serviço, que ficava na Av. Pres. Wilson, entre os bairros do Ipiranga e Mooca, eu saía do Jd. Patente e seguia pela Estrada das Lágrimas e, exatamente na altura da Igreja Sta. Edwiges, dobrava à direita até a Almirante Delamare. Alcançando um pouco mais à frente a Presidente Wilson. Certa manhã, em meados de 1982, fazendo esse percurso, reparei que algumas pessoas estavam demarcando aqueles terrenos, com pedaços de pau e barbantes.
No dia seguinte pude constatar que alguns já haviam iniciado a construção dos primeiros barracos!!! A região é enorme vai do Sacomã até o Rio dos Meninos que faz a divisa do Município de São Caetano do Sul com São Paulo. É delimitada à esquerda pela Av. Almirante Delamare, e à direita pela Estrada das Lágrimas. Diz à lenda que a área pertenceria a uma viúva, herdeira descendente de uma tradicional família.
Por outro lado o Governo também reivindicava a posse daquelas terras. A "briga" já se estendia há décadas. E, enquanto não se resolvia na Justiça a quem de fato e de direito pertencia àquela imensa área, o povo a invadiu. Um ou dois anos antes da ocupação, o Governo havia concluído a construção do Hospital Heliópolis.
Confesso que fiquei um pouco decepcionado…, pois sempre que passava ao longo da Estrada das Lágrimas eu ficava admirando aquela bonita faixa de verde com campos de futebol. Acho que muitos jovens de classe média, que residiam nos bairros vizinhos, sonhavam em comprar um terreno e construir um lar bem alí…, pois o lugar prometia!
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