Máquina Lanofix

No ano de 1969 o meu pai presenteou a minha mãe com uma máquina de tricô Lanofix. Era o máximo em termos de modernidade e inovação! Fazer tricô com rapidez e agilidade! Em pouco tempo saíam agasalhos muito bem feitos, meias, gorros e cachecóis. Logo a minha mãe foi aprender a lidar com a máquina e a fazer roupas para nós. Um dos meus primeiros agasalhos feitos pelas mãos da minha mãe, com uma pequena ajuda da máquina, foi amarelo bem clarinho, com uma pequena abertura no pescoço e, do lado esquerdo, três botõezinhos davam o charme. Essa lã foi-me dada de presente pela tia Evelina, a irmã do meu pai, que trabalhava nas Linhas Corrente, lá no Ipiranga, aliás, a primeira fábrica de um bairro que se destacou por ser um dos mais importantes bairros operários de São Paulo e com riquíssimas histórias para se contar.
Eu ficava extasiada olhando tudo aquilo e cada roupa produzida era uma surpresa. Logo me dei conta de que eu também poderia aprender a lidar com aquela maravilha.

Quando eu fiz 14 anos, pensei seriamente em trabalhar, mas o meu pai não deixou. Então, a minha única alternativa seria aprender a fazer tricô e, de manhãzinha, eu passava a tomar o ônibus em direção à cidade. Quem é anterior aos anos 70, como eu, sabe que a "cidade" era o centro. Caminhava da Praça da Sé até a Rua 24 de maio, onde havia o curso dado pela empresa para todas as mulheres que haviam comprado aquela maravilha resultante da Revolução Industrial.

Eu me sentia tão importante! Ir sozinha à cidade, aprender uma suposta "profissão" além da ocupação imposta pela vida escolar… Eu estava nas nuvens, conhecendo de perto o paraíso, me responsabilizando pela tomada de ônibus, por atravessar o Viaduto do Chá. Sentia-me adulta e dona da minha vida, dona da minha história.

Aprendi rápido. Não via mistério em fazer meias e agasalhos. O importante é que eu levava as minhas lãs numa pequena sacola de seda azul e florida. A minha mãe havia ganhado esse presente de um aluno chinês chamado Chang, que era o garoto mais lindo que eu já havia visto. Rostinho redondo, cabelos negros curtinhos, sério e com jeito de compenetrado. Naquele tempo, a Guerra Fria não dava trégua e, então, muitos orientais começaram a se mudar, a tentar uma possibilidade de vida melhor. Assim, resolveram escolher São Paulo para viver e trabalhar. A nossa cidade, que é de todos em todos os momentos da História.

Logo, a minha mãe deu aulas para coreanos, chineses, descendentes de italianos… Gente muito pobre… Sem contar os nordestinos e o que mais viesse. Da mesma forma que eu, anos mais tarde, dei aulas inclusive para angolanos que tentavam sobreviver depois das revoluções que levaram o país à independência de Portugal. Sem contar os chilenos, argentinos e uruguaios que vieram correndo das ditaduras nos seus países.

E, dessa maneira, eu ia às aulas de tricô com a sacolinha que o Chang deu à minha mãe. Aquela pequena sacola azul fazia com que eu me sentisse uma mulher adulta, dona da minha vida e das minhas certezas.

Em janeiro, a minha mãe veio à minha casa e me trouxe de presente a sacolinha que ganhou do Chang. Confesso que, para mim, valeu mais que uma jóia rara.
Olhei muito para a pequena sacola, com um carinho imenso, pois a mesma está encharcada de histórias. Uma sacolinha de seda do tempo em que a China era comunista, dos tempos da Guerra Fria, dos tempos do tentar a vida em São Paulo com a família a partir da estaca zero. Sacolinha de um tempo em que eu ensaiava os meus primeiros passos para ser uma pessoa independente e, de alguma forma, útil por começar a fazer algum trabalho. Eu estava em busca de uma identidade.

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