E nós fomos crescendo como as árvores quase centenárias, que circundavam a nossa praça.
As velhas marquises do Teatro Paulo Eiró serviam de esconderijos para nossas brincadeiras de bate lata e esconder; o gramado, mesmo que proibido, utilizado para brincar de estrear nova cela, fazer tudo que o mestre mandasse, e algumas peladas com bola de capotão, que logo era reprimido por um guardinha albino, maldosamente chamado por nós de "Rato Branco".
Aquele senhor alvo e com a pele bem manchada, cumprindo rigorosamente sua função junto à prefeitura era uma pessoa mal-humorada e sem paciência e muitas de nossas bolas foram por ele cortadas com um canivete, que carregava anexo a um chaveiro, preso a sua cinta. Quanto mais ele se enervava, mais o deixávamos maluquinho, formando um círculo em sua volta, fazendo-o de bobinho, passando a bola de mão em mão, sem que ele conseguisse apanhar.
Um belo dia ele sumiu e muito tempo depois viemos saber que fora transferido para a Praça Santa Cruz, bem próximo dali. O que nos causou uma bela decepção, por não ter mais ninguém para amolar. Em suma, sentimos sua ausência e percebemos o quanto ele era importante para nós. Nossa turma era da pá virada, como se dizia na época, e ficávamos sentados no encosto dos bancos em granilite, com logotipos de patrocinadores e ali, por longo tempo, jogando conversa fora e maquinando aprontos a serem feitos.
Certa vez instalaram uma luminária, por sinal, a primeira, fixada em um poste de ferro bem alto. Foi uma festa, pois nossa praça ficaria iluminada. Mais um motivo para usufruí-la e ficarmos até mais tarde na rua. Aconteceu que um de nossos amigos, que não morava junto à nossa praça, no dia seguinte à instalação estava com sua atiradeira, tentando quebrar o grosso vidro que revestia as lâmpadas. O que ocasionou entre nós uma revolta, que nos fez tomar à força aquilo que no momento passou a ser uma arma contra a melhoria que veio em nosso benefício. Fiquei muito orgulhoso da nossa reação e, pela primeira vez, comecei a me entender como cidadão; percebi que estava ficando adulto.
Em frente à praça, precisamente entre as Ruas Conde de Itu e Avenida Adolfo Pinheiro, existia um pátio de propriedade da Light, todo asfaltado, que no final da década de 50 era utilizado nas manhãs de domingo para realização de feira livre. Reunimos-nos, cada um com sua mesada. Compramos madeira, parafusos, porcas e com ajuda de um eficiente serrote de meu pai, construímos um belo par de traves, trabalho de marceneiro, com encaixe e tudo, que era guardado no enorme quintal da casa de um colega (e como era pesado carregar). Pintamos o asfalto, demarcando uma quadra de futebol de salão, e a partir daquele instante o pátio passou a ser nosso campinho.
Com a ajuda de um livro de Ouro e com o dinheiro pago por um candidato a vereador por Santo Amaro, para o qual trabalhamos nas eleições, mandamos fazer dois jogos de camisa, um branco e azul e outro inversamente. E demos o nome de E.C. São José. Marcávamos jogos com os timinhos, nossos vizinhos, e passávamos os sábados dentro da nossa quadra invadida, diga-se de passagem. O único inconveniente eram os tombos tomados, pois o asfalto era tão rústico que nos ralava por inteiro e era duramente sentido debaixo do chuveiro, mas nada que um bom Mercúrio Cromo não resolvesse.
Muitas são as histórias a serem contadas, vividas ao meio daquela praça, que nos foi tão cara, mas cada uma delas tem que ser saboreada e tirada no melhor de seu néctar. Engraçado que, ao escrever, me vejo ali sentado, revendo cada momento e sentindo todos os prazeres da mais linda infância/juventude.
Fomos felizes aproveitamos tudo que nos foi proporcionado, vivemos nossa infância intensamente, convivemos com várias faixas sociais e harmoniosamente. Crescemos, viramos homens, estamos envelhecendo, continuamos felizes, e o mais importante, estar passando através da escrita, estas emoções.
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