Manoel de Nóbrega – O criador da Praça

Em 1971, todo o elenco da Praça da Alegria estava reunido no Teatro da Record, na Rua Augusta, para os ensaios e gravação do programa. Além dos artistas e técnicos, contávamos também com a presença do censor federal, que naquela época, em plena ditadura militar, era presença obrigatória em gravações de programas de tv.

Presente todo o elenco de humor da Praça: Ronald Golias, Carlos Alberto de Nóbrega, Rogério Cardoso, Roney Rios, Maria Teresa e seu marido Floes, Murilo Amorim Correa, Borges de Barros, Consuelo Leandro, Simplicio, Agnaldo Rayol, Walter Davila, Viana Junior, Clayton Silva, Canarinho, Geraldo Alves, Durval de Souza, Cláudio Lupomo (o popular Toto), Valery Martins, Eu, e o grande criador e diretor da Praça, Manoel de Nóbrega.

Os ensaios seguiam com algumas paradas técnicas e outras provocadas pelo censor, o qual ia aos poucos retalhando todo o texto já decorado pelos atores e atrizes. Até que um trecho, em que uma atriz dizia que oferecia ao ator a pomba da paz, foi vetado pelo censor, que interpretou este trecho como ofensivo.

Nóbrega então questionou o porquê daquele corte, que arruinaria toda a intenção do texto. O censor, então, argumentou que o texto era de duplo sentido, pois a pomba em questão poderia ser a ave ou o órgão genital feminino, e segundo a sua opinião, os autores de humor sempre escreviam ou diziam as coisas com segundas intenções.

E assim seguia o ensaio tenso, com os atores presos e sem a autenticidade necessária para uma boa interpretação (havia uma grande dúvida pairando no ar). Ensaiou-se a Velha Surda, o Mendigo, o quadro da Consuelo e seu marido Oscar etc.

Até que, em novo confronto, levaram o censor a justificar mais um corte do texto, o qual argumentou que hoje estava ali para valer, e iria cortar tudo o que fosse preciso, mesmo que todo mundo metesse o pau nele… Nessa altura, Manoel de Nóbrega interrompeu a fala do censor e perguntou para ele como gostaria que fosse entendido por todos o “mesmo que todo mundo meta o pau em mim”, nas primeiras ou segundas intenções.

Silêncio geral no ensaio, e este silêncio só foi quebrado pelos aplausos de todos os presentes.

A partir daquele momento, o ensaio foi direto até o seu final.

e-mail do autor: [email protected]