Com as recentes reportagens sobre manobristas abusando dos carros de fregueses, tirando rachas, bisbilhotando nos porta-luvas, roubando moedas e outras questões, os meus pensamentos se voltaram para os meus tempos de juventude, quando eu morava no centro, a poucos metros da Praça João Mendes.
Meu querido Tio Ribeiro era gerente do estacionamento Itororó onde os manobristas eram meus amigos e eu passava horas antes de ir para a escola, ali naquele cantinho da cidade ajudando os lavadores. Cabe salientar aqui que vários amigos, filhos de outros empregados, aprenderam a dirigir ali no carro dos outros porque não tínhamos despesas com gasolina. Naquele tempo o meu sonho era poder dirigir um automóvel onde eu pudesse trocar as marchas, como faziam aqueles corredores em Interlagos com seus “Gordinis” e “DKWs”.
Certa manhã ensolarada fui para o pátio quando os clientes já estavam chegando e comecei a buscar um carro legal para satisfazer aquele sonho.. Eu sabia dirigir os automáticos, sendo que o meu preferido era o “Fairlane 500” que, se não me falha a memória, pertencia ao gerente ou presidente do Jockey Club, até dirigia os furgões pretos do “Bazar Lord”, mas só em primeira marcha, o “bandido” gemia tanto pedindo uma segunda, porém o meu pé de criança mal alcançava a embreagem e eu ficava no vai e vem ao redor deste estacionamento, que era enorme.
Voltando à manhã ensolarada, logo veio o Italiano, um dos manobristas, dizendo:
– Hoje você vai dirigir o fusca da senhora Beatriz. Eu vou te ensinar”.
A mulher, uma advogada recém formada, havia chegado ao local a menos de meia
hora. Com o motor ainda quente, lá fomos com o reluzente VW 65 verde musgo a dar voltas.
O carro morria a todo instante, a embreagem era o meu maior problema, mas apesar disso demos varias voltas. Em um dado certo momento de distração, perdi o controle do carro e fui contra um poste que sustentava uma das garagens. Eu só escutei o Italiano dizer, depois de bater a cabeça no parabrisa:
– "Ainda bem que não quebrei meus óculos".
Logo depois chegou o gerente – meu querido tio Ribeiro – que muito calmo e cheio de amor perguntou:
– “E agora, o que vocês vão fazer?”
O Italiano, depois de fazer uma rápida inspeção, disse que o carro precisaria de um novo parachoque, um novo paralama, uma nova lanterninha do paralama, nova garra de suporte e pintura.
E eu, com uma dor danada no peito, pensava: “Hoje o pai me mata…”.
Levamos o carro a um funileiro amigo do Italiano, ali no fim da Rua Asdrúbal do Nascimento, nos fundos daquele casarão enorme na Rua da Assembléia. Quando chegamos disse logo para o amigo que precisava do carro antes das cinco horas naquele mesmo dia. O cara arregalou os olhos do tamanho de jabuticabas e disse:
– “Aposto que este carro não é de vocês”.
Depois das devidas explicações e acertos, o manobrista foi comprar as peças recondicionadas no fim da Rua Tabatinguera, perto do quartel. E lá foi ele com o carro de outro cliente. Como a oficina estava repleta de carros sendo consertados, na sua volta já com as peças, agradeceu muito pela brecha que nos deu e a cada hora ele ia ate lá acompanhar o progresso do serviço.
No final da tarde, para alegria do meu tio, entramos jubilantes no estacionamento com um fusca aparentando ser novo. Logo depois, chegou a senhora Beatriz, entrou no seu carro e saiu toda orgulhosa com seu fusca que, para ela ainda era o mesmo de horas antes. O Italiano pagou pelas peças usadas, eu paguei a mão de obra e a pintura. Lavei muitos carros e me privei de ir ao cinema por um bom tempo até que a divida fosse saldada.
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