– Que árvore, dona? Eu não sei de árvore nenhuma. Quando chego aqui já está escuro e eu estou cansado demais para ficar reparando em árvores. E de manhã estou sempre atrasado.
Foi assim que o trabalhador de uma fila de ônibus no Terminal Princesa Isabel respondeu à pergunta feita sobre uma árvore que estava logo ali, bem próxima a ele.
– Eu sei dessa árvore sim – disse o motorista do táxi – Eu faço ponto aqui na transportadora e sei que nos tempos de setembro o telhado fica tão cheio de sementes(?) que é preciso varrer para não pesar muito. Ainda no ano passado, tiraram três sacos dessas sementes pretas.
A árvore protagonista desta história está lá, Sua copa atravessa a rua e vai quase se encostar aos fumarentos ônibus do Terminal Princesa Isabel. Ninguém presta atenção a ela. Sua vizinha transportadora só tem reclamações pela "sujeira" que seus frutos (porque são frutos e não sementes) fazem no telhado e no chão. No estacionamento onde ela tem suas raízes, a convivência com carros é sua rotina. É este o espaço da Figueira da Glette agora, neste século XXI.
Mas, nem sempre foi assim.
Em um passado remoto, ainda no século XIX, havia grandes espaços verdes ao redor do centro velho de São Paulo. Mais para o Norte, beirando os caminhos que levavam às minas dos bandeirantes, um desses grandes espaços foi conhecido como Campo Redondo (englobando o que hoje constituem os bairros de Santa Cecília, Barra Funda, Bom Retiro e Luz) Terras que pertenciam ao Brigadeiro Luiz Antonio de Souza Queiroz.
Com o tempo, uma parte do Campo Redondo mudou de dono e mudou de nome. Ficou sendo a Chácara Mauá, identificando o seu dono, Visconde de Mauá. De novo mudou de nome para Chácara Charpe e é assim que Frederico Glette e Victor Nothmann a encontraram, lotearam e formaram o primeiro bairro planejado da cidade, os Campos Elíseos, moradia da aristocracia cafeeira.
É nos Campos Elíseos que se constrói o Palacete Elias Chaves, que foi sede dos governos de Estado de 1907 a 1972
É nos Campos Elíseos que está o palacete da família de Jorge Street, no então número 37 da Alameda Glette. E, no terreno desse palacete está uma bela árvore, uma figueira que abriga sob sua copa a família e os amigos nos fins de tarde.
Os tempos mudam, a casa é vendida e nela se instala, no adaptado palacete dos Street, um "pedaço" da extinta Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, aquele "pedaço" que tem os cursos de História Natural, Química e até um laboratório da Psicologia Experimental. Os anexos do palacete receberam construções novas para abrigar departamentos e até um prédio especial foi construído para a Química.
E na frente da Figueira, a necessária cantina – algum tempo de dona Carolina – onde o merecido repouso dos estudantes entre a manhã e a tarde encontrava a sombra amiga para estudar, conversar, namorar…
Nesse passado próximo, a Figueira compartilhou durante 35 anos da vida de estudantes, de suas alegrias, de seus estudos, seus sufocos nas provas, suas conversas informais ou discussões importantes. O espaço sob a Figueira serviu de palco a alegres recepções para os calouros, para trotes inteligentes e inesquecíveis, para horas de estudos, horas de namoros estudantis. E deixou de ser uma simples figueira para se tornar para eles A Figueira da Glette
E a Figueira da Glette foi símbolo e uma ligação passado-presente-futuro para os estudantes que, por terem estudado na Glette, se autodenominaram "gletianos". "Gletianos" então, são os estudantes da extinta Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo – FFCL-USP – que, ainda no século XX, entre 1934 e 1969 estudaram na Alameda Glette, agora 463. 35 anos de vai e vem de estudantes, celeiro de grandes cientistas e cidadãos participantes ativos da vida da cidade. O campus? Era apenas um sonho…
Mas, um dia esse sonho se tornou realidade, o campus começou a funcionar e a FFCL também foi para lá e passou a ser a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. O palacete abandonado, foi demolido. Nada restou dele a não ser a memória sempre resgatada pelas fotografias familiares.
A Figueira sobreviveu e nunca foi esquecida. No imaginário daqueles jovens que a conheceram ela continuou como símbolo de um tempo feliz, de construção de personalidades.
Voltamos ao século XXI, e tendo a Figueira como denominador comum, os "gletianos" voltaram a se comunicar, resgataram antigas amizades, se encontram, trocam lembranças e compartilham vivências.
"Gletianos" resgatados – quase mil – movimentam-se receosos que por algum motivo qualquer – como aquele que motivou a demolição do palacete – a Figueira seja cortada. E trabalham pelo seu tombamento, sua segurança. O Tombamento Estadual já existe, mas o Tombamento Municipal lhe dará mais garantias. Está em andamento.
Mas há também a vontade de ver a Figueira dar "filhotes" e que esse novos descendentes encontrem espaço nos Institutos agora independente. Queremos mudas para a Biociências para a Química e para a Psicologia Experimental. Um "filhote" já existe e está plantado nos jardins da Geociências. Muitas mudas foram tiradas, mas não sobreviveram.
Obstinados, e motivados pelo carisma que envolve a Figueira alguns professores estão tentando, com procedimentos vários encontrar uma forma de manter sua continuidade. Se conseguirem, a Figueira terá cumprido sua saga de ligar o passado remoto ao passado mais recente, ao presente e a um futuro onde, para os "uspianos" que virão, ela significará e representará o que hoje representa e significa para os "gletianos".
Se você que está lendo esta matéria conhecer algum "gletiano" que ainda não tenha sido resgatado, por favor, se comunique através do e-mail [email protected]