Se você é paulistano e anda pelo centro da cidade, desça ao Vale do Anhangabaú e pare no cruzamento do Vale com a Avenida São João.
Se você souber ver e não só olhar, terá aí uma aula de história da cidade, que dará mais prazer a essa visão.
Repare no aclive da ladeira e conhecerá a borda do planalto inicial da cidade, onde o centro velho se instalou. Em nível mais baixo, o Vale do Anhangabaú, cavado pelo então rio Anhangabaú que era um dos limites naturais do primitivo núcleo da cidade. O outro era o rio Tamanduateí.
Olhe em frente para o começo da Avenida São João. E terá a visão dos três gigantes de São Paulo: O Edifício Altino Arantes (Banespa) dominando a visão. À sua direita o Martinelli e às sua esquerda o prédio do Banco do Brasil. Cada um com sua história.
O Altino Arantes com seus 36 andares e 161 metros, é todo em concreto armado, 17.951m² construídos, tem 161,22 metros de altura, 14 elevadores, 900 degraus e 1119 janelas. Durante 20 anos foi o prédio mais alto da cidade. Embora perdendo agora a posição de mais alto, continua imponente por ocupar um espaço em pleno planalto. De sua torre se vê parte do centro que guarda histórias e os limites geográficos da cidade, a Serra da Cantareira com o Pico do Jaraguá. Agora é ponto turístico e instituição cultural.
O saguão principal desse edifício tem quase 400 metros quadrados, paredes de mármore de 16 metros de altura e piso de granito decorado com brasões de bronze. Muito belo é o seu grande lustre de cristal nacional em estilo "decô-eclético" com 13 metros de altura, 2 metros de diâmetro e dez mil peças de cristal pesando uma tonelada e meia.
O edifício abriga ainda um Museu, que preserva a memória de instituição, uma Biblioteca. Vale a pena visitar.Principalmente a sua torre.
O Martinelli, com seus 130m de altura, o pai dos arranha-céus paulistanos, o divisor de águas da verticalização da cidade com seus iniciais 17 andares projetados, a sua ampliação para 24 e depois ainda com a mansão do comendador no topo, equivalente a mais seis andares. Ocupa toda a ladeira da São João, mais meios quarteirões da rua São Bento e Líbero Badaró. A sua história já foi escrita e reescrita.
Olhe agora à sua direita e verá o Vale do Anhangabaú na sua ultima urbanização que prestigiou pedestres. Tente olhar o seu piso com os desenhos. O conjunto de esculturas ao lado do Teatro Municipal, suas águas e seu belo jardim, bem cuidado porque é o jardim da Votorantim agora ocupando o que foi o prédio do hotel Esplanada. Na década de 50, o clube Trocadero nesse hotel, foi sede de muitos bailes.
E o Viaduto do Chá. O segundo, de 1938 substituindo o primeiro, de 1892. E a historia chega, contando sobre os dois Viadutos do Chá.
A idéia da ligação entre o planalto inicial e o outro lado do morro, começou a tomar vulto em 1877 com a proposta do cidadão Jules Martin de levantar um viaduto sobre o Vale onde passava o córrego do Anhangabaú, com a condição de poder cobrar a passagem sobre ele para cobrir o capital empregado. O contrato foi assinado em 1885.
Mas, havia um obstáculo que era a casa do Barão de Tatuí e sua esposa (viúva do Barão de Itapetininga) Eles moravam em um sobradão que ficava na rua de São José (Líbero Badaró) exatamente na entrada do proposto viaduto. Eles se opuseram sistematicamente à desapropriação da casa e conseqüente demolição necessária à construção do viaduto. Levados a juízo foram derrotados com sentença saída em maio de 1889.
Entre a idéia da construção – 1877 – o início das obras – 1888 – a demolição da casa do Barão de Tatuí – 1889 – e a inauguração – 1892 decorreram 15 anos.
O viaduto era feito em treliça de aço, ligando dois patamares. Simbolicamente poder-se-ia dizer que o Viaduto do Chá é a rua Direita e a rua Barão de Itapetininga, no momento em que o chão desaba. Como se fosse uma rua aérea. Tinha 240m de comprimento por 14 de largura. Cobrava pedágio: 60 réis (três vinténs) para pedestres e 200 réis para bondes (de burros)
Mesmo reformado quando os bondes elétricos começaram a circular, se tornou insuficiente para a demanda da cidade. Foi durante a gestão do prefeito Fábio Prado que a idéia de se construir um novo Viaduto realmente tomou vulto e saiu do sonho. Feito concurso coube à Sociedade Comercial e Construtora executar o projeto de Elisiário da Cunha Bahiana.
Em fins de 1936, as centenas de estacas e as centenas de curiosos que paravam na grade do velho viaduto, viam surgir o embrião de uma grande obra. O novo viaduto foi construído ao lado do velho, deslocando seu eixo para o lado da Avenida São João como conseqüência do aparecimento das Praças do Patriarca e Ramos de Azevedo.
Sua estrutura é de cimento armado aplicando quase exclusivamente materiais nacionais como cimento, ferro e areia, que dispensou a demorada aquisição de materiais no estrangeiro.
Compõe-se de três vãos: o do centro tem o comprimento de 66 metros com extremidades apoiadas em dois pegões maciços, dos quais partem dois vãos extremos que medem 17,50 metros cada um. Pelo vão central e maior, passa a Avenida Anhangabaú, ligando as avenidas Nove de Julho e São João. Pelos vãos laterais corre a rua Formosa e um espaço que passou a fazer parte integrante do Vale.
A largura total desse novo viaduto é de 27 metros, subdividida em três faixas: duas calçadas laterais e uma faixa central carroçável de 17 metros de largura. É o dobro de largura do antigo Viaduto Seu comprimento é de 240m,
À sua esquerda está o Viaduto Santo Ifigênia. É uma obra urbana executada entre 1911 e 1913 com projeto arquitetônico dos italianos Giulio Michetti e Giuseppe Chiaropi. As peças todas foram encomendadas na Bélgica e montadas aqui, e mesmo assim com mão de obra estrangeira, porque não havia mão de obra especializada. Liga o Largo de São Bento ao Largo Santa Ifigênia e o objetivo de sua construção foi facilitar o trânsito de carros e carruagens que enfrentavam a difícil ladeira da Avenida São João.
Esse viaduto tem 225 metros de comprimento por 13,60m de largura. Tem gradis da belle époque com destaque para o estilo art nouveau, belíssimos. Em 1978 teve a estrutura recuperada e ganhou uma escada para o Anhangabaú. Seu piso é visualmente bonito e preservado constitui um dos belos aspectos da cidade.
Olhe agora para trás e à esquerda, e verá o belo prédio dos Correios e Telégrafos, uma construção Ramos de Azevedo inaugurada em 1933. Em reforma deve abrigar mais um Centro Cultural. E bem para trás fontes de água modificando o visual de uma região árida de cimento e ferro. E o Boulevard São João, ladeado por prédios antigos "querendo" ser reformados e recuperados e cinemas em decadência.
E a Avenida São João se perde em direção ao Oeste da cidade.
Foi suficiente uma parada no centro para conhecer melhor São Paulo e sua história.