Mais Lembranças de Eudóxia – costumes de uma época

Eu tenho 96 anos não posso andar e na cama fico pensando em coisas que aconteceram quando eu era moça. E aí minha filha Neuza, para testar se ainda minha memória está boa, vive perguntando coisas.

E então eu me lembrei:
Quando eu tinha 15 anos, na época da Revolução de 24, eu trabalhava na rua 25 de Março já como bordadeira – eu bordava à maquina – Eu devia ser muito bonita porque na loja onde eu trabalhava, do Abraão e seu irmão Nagib, despertei atenção. O Nagib acho que começou a "arrastar a asa" pra mim porque um dia ele me chamou para o "quartinho"

– O que era esse "quartinho?"

-Sabe, a loja tinha um salão grande, onde as moças trabalhavam bordando. Não se podia levantar a cabeça porque tinha um homem que ficava o dia inteiro vigiando para que não tivesse conversa.
Quando vieram me dizer que ele estava me chamando no "quartinho", eu quase morri de susto. Era nesse "quartinho" que eles davam as broncas nas moças por qualquer motivo besta. Eu ainda falei:

– O que será que ele quer? Eu não fiz nada de errado.

No "quartinho" em vez da bronca, ele quis passar o braço pelo meu ombro e disse:

-Eu gosto de você e quero me casar com você. Quero casar mesmo.

Eu respondi que não podia, que tinha namorado. Nessa época eu já namorava o João, com quem depois me casei. Mas era um namoro de crianças – eu tinha 15 anos e ele 18. E era ainda namoro escondido.
Ele então disse;

-Deixa ele. Eu posso te dar uma vida boa, passeios, você fica dona da loja.

E eu:

– Não, eu tenho namorado…

E ele:

-Pensa bem e depois me dá a resposta

E consegui sair do "quartinho". Nenhuma das moças levantou a cabeça. Não se usava perguntar nada.
Mas, eu nunca mais falei nada e o assunto morreu ali.

No mesmo dia contei para minha mãe que era gananciosa e queria que eu deixasse o João para casar com o turco rico. Insistiu muito, mas eu bati o pé e disse que do João eu não largava.

Na época da Revolução de 24, quando a gente fugiu para a Lapa, entre os que cuidavam das pessoas, tinha um senhor, homem feito já, que quando nós saímos de lá para voltar para casa, ele me disse que ia me visitar para nós fazermos umas "brincadeiras"

E eu disse:

-Mãe não dá o endereço para ele.

Depois que o Nagib me "pediu em casamento" eu saí da loja e fui trabalhar na rua São Bento na Casa Paiva, uma loja muito grande e muito conhecida. Acho que foi para ganhar mais. Embaixo era a loja de roupas e em cima um grande salão onde ficavam as bordadeiras à mão e à máquina e as costureiras. Eles recebiam encomendas de enxovais completos para gente rica. Roupas de cama, mesa e banho e também vestidos com muitos bordados. De lá saiam coisas lindas. Uma vez eu me lembro que bordamos um enxoval completo para uma moça rica e era tudo tão bonito que quando ficou pronto foi exposto para que todos vissem. E uns meses depois veio a encomenda do enxoval do bebê que deveria nascer nove meses certinhos depois do casamento. Também foi um enxoval rico e caprichado.

Aí, minha mãe cismou e me fez deixar de trabalhar fora. Fiquei bordando em casa, mas era pouco serviço. Bordei o meu enxoval todo. Sabe, ainda tenho uma fronha bordada que a Neuza guarda no seu Baú da Memória.

Aí eu já tinha 17 anos e fiquei noiva. E morava na rua da Mooca.

Eu já era noiva, então tinha uns 17 ou 18 anos – porque noivei três anos, de 1926 a 29 quando casamos – quando um dia um outro turco riquíssimo, dono de lojas, parente do Nagib apareceu em casa, com um pacote de presente – parecia um relógio, penso eu – para falar comigo. Me encontrou com meu noivo João, ficou sem graça, logo se despediu e foi embora.

Minha mãe ficava danada porque preferia que eu me casasse com um homem rico. E eu teimei, teimei e fiquei com o João.
Minha mãe comprou uma leiteria e mudamos para a rua Inácio de Araujo. Foi aí que casamos em 1929, em 6 de julho e depois de 9 meses justinho, em 9 de abril a Neuza nasceu. Como se usava.

Agora estou comentando com a Neuza e estão me gozando porque eu tive muitos pretendentes, turcos ricos. Estão dizendo que eu era "sexi".
Olhando agora as fotografias, eu era bem bonita, tinha cabelos compridos que minha mãe enrolava em "papelotes". Não tinha muito estudo, só tinha o primário. Mas, minha mãe sabia ler e no tempo dos folhetins, ela reunia todas as vizinhas para ler as histórias.

Depoimento oral de Eudóxia Navarro Guerreiro, de 96 anos. Redigido por Neuza Guerreiro de Carvalho, sua filha.