Alfredina foi uma mulher durona.
Casou-se menina. Segundo contado por ela, tinha pouco mais de catorze anos, quando aconteceu. Em dez anos cinco filhos. Um após outro cinco homens. A vida não era fácil para ela. Ao contrário.
Marido trabalhador, chegava de volta do trabalho depois de escurecer.
Ela sozinha na luta diária. Era tratar dos filhos de dez, oito, seis, quatro e três anos. Tombos, gritaria, brigas, lutas entre eles, futebol dentro da cozinha. Tudo isso misturado com mamadeira, lanches, refeições, preparatórios para os maiores irem a escola. Leva e trás. Tudo fazia sem ajuda de ninguém.
Café da manhã, almoço e jantar, feitos num simples fogão à lenha, tipo acampamento de índio. A comida mais trivial possível. Simples mais gostosa: arroz, feijão, o saudoso bife na chapa, batata frita. As vezes uma salada de alface com tomate e pepino fatiados. Sobremesa bananas.
Arrumar seis camas, lavar toda a roupa da casa e as dos meninos e do marido no velho tanque. Tudo no braço.
Passar roupas, com ferro de passar cheio de brasas mantidas acesas no sopro. E ainda arranjava tempo para estender cera por todo o assoalho da casa, ajoelhada e depois passava um escovão pesado, com um bando de moleques agarrados em sua saia. Banho nos menores, os maiores mandava, e de vez em quando subia num caixote junto ao muro ao lado para bater um papo com a vizinha. Amiga de todas as horas e a quem se socorria, pedindo emprestada uma xícara de açúcar. Dona Nica .
Com toda essa correria, no fim da tarde entrava num banho, fazia ligeira maquiagem com pó de arroz Coty. Pintava os lábios com tintura feita com água de papel crepom.
Passava um pente nos cabelos muito pretos e esperava feliz a chegada do marido.
As noites sempre iguais, enquanto o pai lia o jornal, os filhos maiores faziam as lições da escola. Ela aproveitava a folga passageira e ouvia as novelas da Rádio São Paulo. Depois das nove e meia da noite, todos para a cama. Era uma vida simples, com as necessidades controladas. Outro dia começava. Rotina de sempre, assim passavam semanas e meses.
Haviam dias apoquentados. Era a molecada aprontando as maiores travessuras. Um caía do muro, outro machucava os joelhos do tombo da árvore. Quando algum ferimento não acontecia, ficavam atazanando .
Enchiam a paciência dela.
Numa tarde dessas nubladas e frias, a mansidão da mãe-leoa acabou de repente. Pegou o caçula e o número quatro, levou-os para o quarto. Colocou os dois na cama e exigiu que ficassem ali até ela voltar. Desceu a escada falando alto, com um cobertor debaixo do braço e estendeu no chão da sala sob a mesa de jantar. Amarrou os tornozelos de cada um deles e prendeu os meninos nos pés da mesa.
E fez uma grande ameaça mostrando o chinelo:
– Quem sair daqui vai tomar a maior surra. Vão ficar aí até o pai chegar!
Apesar de todas as molecagens, eles respeitavam a disciplina imposta pela mãe. Começava escurecer e o frio aumentou, em pouco tempo dormiram sob a mesa. Ela mais tranqüila voltou ao fogão.
Ficaram debaixo da mesa punidos até a hora que o pai chegou.
Nenhum deles teve a coragem de escapar daquele simbólico e fino fio de linha, amarrados ao pé da mesa.
Um simples fio de linha de carretel,vgarantia a tranqüilidade da mãe-leoa…