Má distribuição de fogos no comício

Tudo começou na década de 50, eu garoto ainda uns nove anos mais ou menos, a disputa política em São Paulo entre o Dr. Adhemar de Barros e Prof. Jânio da Silva Quadros, o povo do bairro do Jaraguá era bem dividido em suas preferências políticas. Meu pai era Janista, mas ficava na dele; a maioria dos comerciantes era Adhemarista.

Os correligionários do Adhemar marcaram um comício em um terreno grande que tinha próximo a Estação do Jaraguá, era para um domingo de manhã. Tudo preparado, um grande palanque foi montado naquele lugar, bandeirinhas de várias cores, carros de sons para baixo e para cima, tudo bancado pelos comerciantes Adhemaristas. Os “puxa-sacos” se sentiam os astros do evento, abordavam quem descia dos trens e até turistas que vinham visitar o pico do Jaraguá, só para juntar o número maior de pessoas.

Os comerciantes promoviam farta distribuição de balas para a criançada, a molecada fazia muita algazarra e correria em volta do palanque e não vendo a hora do tal comício começar, tudo para nós era grande novidade. Para muitas pessoas do bairro, o Adhemar não era bem-vindo por causa da própria rivalidade política, em alguma eleição passada ele prometeu alguma coisa e não cumpriu (parece que seu apelido era Promessão).

Um pouco antes da chegada da comitiva, foram distribuídos os caramurus de quatro tiros, como eram chamados esses tipos de fogos. Alguns desses fogos caíram nas mãos de alguns sujeitos cachaceiros e arruaceiros, como tem em todo lugar. Ficou combinado que a maioria dos fogos era para soltar na hora em que ele subisse no palanque.

Chegou o grande momento. Tudo pronto, chegaram vários carrões pretos com muitos políticos e Dr. Adhemar seguia na frente abraçando todo mundo, acariciando o rosto da criançada, enfim, tudo para ser um domingo feliz. Alguns fogos já estouraram na sua chegada, na hora em que subiu no palanque o foguetório começou, só que os arruaceiros miravam os fogos na direção do palanque, onde estavam já o Adhemar, outras autoridades e alguns “puxa-sacos”, foi um “sururú” muito grande, corre-corre, ainda bem que ninguém se machucou, mas os homens correram para seus carros e sumiram na poeira. Desde aquela época, a política mudou muito pouco, só que hoje a malandragem e a pouca vergonha estão muito escancaradas.

Um grande abraço a todos os leitores.

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