Léo, um cão paulistano

Léo era um cão que perambulava pelo Bairro de Pirituba em maio de 1994 e, na sua ‘vira-latice’ autêntica, aproximou-se de minha antiga chefe, dando-lhe uma cheirada carinhosa, uma lambida sincera e, pronto, foi o que bastou para que ela o acolhesse.

Como era de seu costume, deu um trato no cachorro, vacinou-o, esterilizou-o, cuidou de seus machucados, provavelmente conseguidos em brigas de rua, e o bicho ficou apresentável.

E foi assim apresentável que ele nos foi oferecido: – “olha como ele é simpático", dizia ela, fica com ele. Sabe como é, pedido de chefe a gente sempre analisa, assim como apelo de filhos não se recusa: -“mãe, ele é tão fofo, quietinho, fica com ele". Ficamos! E foi assim que o Léo veio morar conosco na Zona Leste.

Ficou conosco durante 15 anos! O que inicialmente parecia que não ia dar em nada, mas deu numa convivência maravilhosa; muita coisa aconteceu nesses anos e ele lá, impassível, sempre pronto a balançar seu rabo quando chegávamos. Podíamos chegar rindo ou chorando, vindo de uma festa ou de um velório, lá estava aquele rabo, sempre balançando com força, até vento fazia.

Léo era um cão especial, como todo cão parece ser para seu dono, mas tinha lá suas peculiaridades: não gostava de ração, adorava macarronada, principalmente se fosse à bolonhesa e com queijo ralado; um verdadeiro gourmet paulistano. Agora, entre suas excentricidades, a maior era desmaiar de emoção quando fazíamos muita festa com ele ao chegarmos a casa; tínhamos que disfarçar ao entrar, para que ele não ficasse muito excitado, senão, lá vinha desmaio…

Assim era o nosso ‘Léocão’, como o chamávamos.

Aí, nos últimos tempos, devido à idade e algumas doenças, o Léo que já andava meio cabisbaixo, começou a arrastar as patinhas traseiras, parou de comer, sua vida não ficou fácil. Fizemos o possível, até que tivemos que buscar coragem, não sei de onde, para tomar a última decisão em relação a essa criatura canina, que nos acompanhou e nos alegrou durante tanto tempo.

Cuidando para que não sofresse nos últimos instantes de sua vida, cercado por nós, com a concordância da veterinária e entre lágrimas, muitas lágrimas, optamos pelo seu sacrifício em meados do ano passado.

Às vezes nos pegamos olhando de relance para a porta quando venta um pouco, parecendo que seu rabo está balançando e provocando aquela brisa.

As lembranças, o amor incondicional e o seu olhar que transmitia gratidão, talvez por ter sido tirado da difícil vida de vira-lata de rua, isso ficará conosco para sempre…