Lembranças do Mandaqui

Uma volta no largo da estação do Mandaqui. Aquele telhado vermelho perdido no meio do arvoredo é o Hospital do Fogo Selvagem, na ladeira da Rua Voluntários da Pátria. Cabeças mulatas espiam pela janela. No entorno da praça, o Dagoberto tirou o espelhinho do bolso de dentro do paletó, olhou desconfiado, passou a mão pelo rosto escanhoado e sentiu um sulco saliente debaixo da bochecha. Estaria ele com a doença do pênfigo foliáceo? Não, não estava! Era apenas uma espinha na cara de pele oleosa. Depois do jantar, costumava pôr duas cadeiras de fronte da calçada da sua casa, na Rua Helena do Sacramento e punha-se a dialogar com o Severino Assis, que era maquinista e trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana e fazia o ramal da Rua João Teodoro até o Horto Florestal, conduzindo a locomotiva número 32.

Hoje era o dia de folga do Severino Assis e costumava sentar-se a fresca debaixo de um grande caramanchão e ficava jogando conversa fora até altas horas da noite. Quando dava para falar era aquela desgraça. Martirizava-se com o salário recebido. Uma miséria e tanto! A Nicolina, esposa do Dagoberto, também ficou escutando o que o homem estava dizendo para o Severino Assis. O marido falava que a crise era um fato marcante, que o preço da cebola estava pela hora da morte. Ela então, não quis ouvir mais nada.

– Pois é seu Severino, como lhe digo, a tabela de preços no Mercado Municipal da Cantareira estava afixada na porta de entrada com um anúncio que o preço havia subido demais porque a colheita da safra deste ano foi fraca.

O Anselmo Ortiz também se achegou a conversa. Trouxe consigo uma cadeira de palha grossa e sentou-se no meio da roda.

– Boa noite amigos!

E foi de cara acrescendo também o preço absurdo da vagem macarrão, a dezoito cruzeiros o quilo. Lá na quitanda do Modesto, na Pedra Branca, o preço da banana nanica está também pela hora da morte. – Imaginem vocês, a dúzia que custava vinte centavos, hoje o preço subiu para um cruzeiro.

– Uma onda de roubalheira – disse o Severino Assis, mostrando o holerite do salário recebido da estrada de ferro. Duzentos cruzeiros, já descontado todos os encargos trabalhistas que recaia sobre o salário.

– Imaginem só, o Paulão da carvoaria Pérola Negra também resolveu subir o preço do saco de carvão. Isso vai inflacionar ainda mais o custo de vida – disse o Anselmo Ortiz.

E conversa ficou por ali. Já era quase meia-noite e estava na hora de se recolher. O sereno da noite podia fazer mal ao Dagoberto, que sofria de asma.

Era uma gostosura só descer toda a ladeira da estrada de Santa Inez até a estaçãozinha do Mandaqui e cair direto no plano horizontal da Rua Voluntários da Pátria A fascinação daquele cenário maravilhoso, entre o recorte alto da igrejinha de São José até a baixada plana e sentir no ar uma frescura serrana. O ar é todo uma transpiração fria de águas e folhas. Ali, grande ar aberto e alto, e no fundo daquele esfumar acobreado côncavo fresco, na pequena praça de poucas casas, parecia um mosaico desenho geométrico. Bem perto da estaçãozinha andam barulhos de apitos e manobras, chio de chaves, trepidações de dormentes, descarga de fumaça das rodas da locomotiva despejando o ar comprimido da caldeira sobre os trilhos.

O José Ribamar, filho mais velho do telegrafista da estação, costumava todos os dias da semana tomar o trem que vinha do Horto Florestal, e na estação do Mandaqui comprava a passagem a trinta centavos até a estação de Santa Terezinha, onde estudava na escola estadual. Antes, porém, costumava passar em frente ao sobrado da tia Anna, na Rua Conselheiro Moreira de Barros, 352 e pedir a benção. Era uma tradicional postura de caráter das famílias italianas que tinham por costume receberem um bom conselho de educação e pedir a bênção para os mais velhos. Que tempos formidáveis aqueles dos idos anos 40.

– Na volta da escola você passa novamente por aqui, e venha almoçar comigo José – disse a amável tia Anna.

O Zé Ribamar tinha ganhado da mãe um terno novo de cambraia Scuracchio, feito sob medida pelo alfaiate Bonanno, do centro da cidade. Era a primeira vez que vestia aquela magnífica roupa. Tinha custado o olho da cara, mas a mãe não poupava esforços para dar ao filho único um padrão de vida um pouco melhor. Naquela infeliz manhã, tomou como de costume o trem da Cantareira, na estação Mandaqui. Não entrou no vagão como fazia sempre. Resolveu que iria viajar na plataforma do vagão, de trás da máquina maria-fumaça. Estava fazendo um calorzinho danado naquela hora da manhã. O comboio, depois do apito fino e estridente, se pôs em movimento. A paisagem era conhecida do José Ribamar.

Da terra úmida pelo orvalho da noite, emanavam vapores quentes, com o mormaço lúbrico da luz do sol, coado pelas folhagens verdes por sobre os dormentes escuros dos trilhos luzidios. O ar era cortado por seixos do carvão queimado pela maria-fumaça, jogando lufadas de fumaça e cinzas pelos ares. Custou ao José Ribamar perceber a bobagem que havia cometido ficando exposto na plataforma do vagão. Uma chuva de carvão incandescente voava pelos ares indo cair com o vento sobre a roupa nova do menino. Quando se apercebeu da imprudente situação, até adentrar no vagão, havia vários furos no terno novo. A mãe iria matá-lo quando visse aqueles buraquinhos pretos em quase todo o paletó.

O que há de se fazer? Já tinha acontecido o inevitável. Agora tinha que enfrentar os ralhos da mãe. Fora realmente um imprudente, uma vez que sabia do carvão queimado pela máquina 32 da maria-fumaça, costumava espalhar pelo ar as fagulhas incandescentes.

Que lástima! Mas o Mandaqui ficou marcado por ditos feitos na mente ainda de menino como um prosaico bairro de São Paulo, cheio de histórias memoráveis para se contar.