Lembranças do bairro Tatuapé

Nasci em São Paulo no bairro Tatuapé. Morei por muitos anos naquela região, próximo ao parque São Jorge, na Quinta Parada, Estação Sebastião Gualberto da Central do Brasil e na Rua Triunfo. Hoje moro na Rua Pedro Berengarde, paralela a Rua Antonio de Barros.

A casa de meus avós foi a terceira a ser construída nessa rua.
Era uma comunidade na sua maioria portuguesa, mas também constituída por muitos italianos e espanhóis. As ruas eram rudimentares, precárias.

As crianças brincavam na rua de pega-pega, pulando corda, brincadeiras de roda e muitas outras usadas naquele tempo. Todos se conheciam e se respeitavam. Vivíamos como uma grande família com acertos e desacertos, mas que no final tudo era resolvido da melhor maneira possível.

Tínhamos uma escolinha particular, muito simples que ficava nos fundos de uma farmácia na Rua Antonio de Barros, que pertencia ao seu Chico como era conhecido no bairro. Farmacêutico muito conceituado que dava toda assistência aos moradores sempre que estes precisassem de cuidados com a saúde, não tinha médico no bairro.

Seu Chico com seus conhecimentos e remédios era chamado a qualquer hora, e atendia a clientes sem olhar para seu poder aquisitivo. Era muito respeitado pela vizinhança por ser uma pessoa atenciosa, prestativa e eficiente.

Suas filhas eram as professoras da escola. Que nos passava os ensinamentos que precisávamos para nos tornarmos dignos de ser um cidadão brasileiro. Estávamos em uma época em que alunos e professores se respeitavam mutuamente. Sou muito grata a Dna. Anita e Dna. Carmem que muito me ajudaram na minha formação para a vida.

A minha rua começava na Avenida Melo Freire hoje Avenida Radial Leste. Que também era de terra batida, cercada de um lado pelos trilhos da estrada de ferro e do outro por varias chácaras que iam até a Rua Tuiúti. Esse era o trecho que eu freqüentava quando me transferi da escolinha para o Grupo Escolar Visconde de Congonhas do Campo que estava sendo inaugurado.

Nós alunos íamos por essa rua sempre em turmas brincando, pulando de trilho em trilho da linha do trem ou pulando corda no meio da hoje Avenida Radial Leste, pois o movimento era quase nulo, mas o perigo existia, porém não tínhamos noção dele.

Crianças perderam a vida por não notarem a aproximação do trem.
Mesmo cientes desses acontecimentos continuavam indo pelos trilhos, pois o caminho era longo e assim achavam menos cansativo. Fazíamos tudo sem acompanhamento de adultos, a única segurança que tínhamos eram os conselhos dos pais, parentes, pessoas mais velhas e principalmente a mão de Deus.

Quando me lembro disso, custo a acreditar no tamanho da diferença dos dias de hoje, onde crianças jamais podem ir e vir das escolas sozinhas e nem ter uma liberdade necessária para poder dosar os seus limites.
Hoje aos 76 anos moro em Jacareí. Longe da Capital a liberdade das pessoas também é restrita, das crianças muito mais, o perigo da violência esta em toda à parte. Sempre que posso vou a minha querida São Paulo que mora em meu coração.

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