Nessa época éramos três irmãos: O Newton, nascido em 29/03/1946; eu, Wagner, nascido em 02/12/1947; e a Célia, nascida em 15/01/1950. Morávamos em um sobradinho na Rua do Oratório de esquina com uma viela que dava acesso à Rua Cuiabá. Lembro-me que ganhamos um triciclo (aquela bicicletinha de três rodas), na qual eu só sabia descer a rua sentava meio de lado e alcançava no pedal só com um pé.
Em frente a minha casa do outro lado da rua, tinha uma casinha muito linda, com um telhado de três águas, um portãozinho de madeira, coberto por um telhadinho com muitas flores coloridas, onde morava uma professora que se chamava Dalila. A dona Dalila era amiga da minha avó Glória que também era professora, infelizmente não cheguei a conhecê-la, pois ela morreu pouco antes do meu nascimento.
Na Rua Cuiabá tinha a padaria do seu Álvaro que ficava a uns trezentos metros de onde morávamos. Toda tarde lá pelas cinco da tarde (17h), a mamãe ia comprar pão e sempre me levava a tiracolo (eu era um grude), como a essa hora da tarde costumava esfriar, ela colocava um paletó muito bonito, era lindo, de twuide amarelo com fios pretos, me dava o braço e lá íamos nós.
Haviam vários sobrados iguais e todos eles com tijolinho a vista, nós morávamos no último subindo a rua, de esquina. Na outra esquina na parte de baixo, que bifurcava com a Rua Cuiabá, havia um bebedouro redondo todo de ferro onde os cavalos bebiam água, tinha um terreno vago com um paredão enorme que era a lateral do último sobrado, ali nesse paredão, algumas vezes durante a noite uma Cia de cinema amador passava filmes, era muito gostoso, pois ali se reuniam muitos moradores que levavam suas famílias. Hoje nesse local funciona um posto de combustível.
Nos fins de semana, muitas vezes meu pai levava eu e meu irmão na casa dos meus avós (seus pais), que ficava a dois quarteirões de onde morávamos. Ele colocava uma calça branca, um chapéu cor de palha (muito bonito) e um sapato marrom com o bico arredondado todo furadinho e lá íamos nós, meia soquete listada, calças e camisas curtas. Minha avó Chiquinha servia café com leite e pão com manteiga. A manteiga era colocada na mesa sempre em uma pequena vasilha com água fria para não estragar. Nos fundos da casa dos meus avós tinha um portãozinho que saía no campo de futebol de propriedade deles, onde se reuniam familiares e amigos para partidas de futebol, o time chamava-se Portuguesinha da Mooca e meu avô era o presidente.
Quando não havia jogo íamos lá da mesma forma para brincar. Meu tio avô o Pierim que morava no mesmo quarteirão do meu avô, era um solteirão muito bem humorado, cuidava da bisa (sua mãe), tinha um bode e algumas cabras que ficavam no campo e auxiliavam na limpeza, aparando a grama. Algumas vezes até tentei montar nesse bode com o meu irmão segurando nos chifres, mas nunca consegui, o bicho era grande para mim e o medo era maior ainda. Havia nesse local um salão enorme onde era a sede do clube, lá se festejavam aniversários, carnavais, festas juninas e até casamentos. Reuniam-se ali todos os parentes e amigos, tinha também meus padrinhos Pedro irmão mais velho do meu pai e a madrinha Iracema que também eram meus tios e moravam na casa ao lado.
Nas festas juninas acendiam enormes fogueiras, o primo do meu pai, o Celeste, entre outros, era o baloeiro da turma, soltava enormes balões, lembro-me de um muito bonito, ele colocou um bambu em cruz amarrado um pouco abaixo da boca do balão, colocou quatro tochas acesas em um arame, amarrou uma em cada lado do bambu e quando o balão ganhou altura, se via os quatro pontos iluminados em forma de cruz.
Ir à casa dos meus avós era muito legal, eles tinham uma geladeira de madeira, toda pintada de branco, trincos iguais de balcão frigorífico. Duas ou três vezes por semana passava um caminhão carregado de pedras de gelo com mais ou menos um metro cada pedra e com um gancho eles espetavam as pedras e jogavam duas delas na porta da casa. Essas pedras eram recolhidas pelo meu avô e colocadas dentro da geladeira e mantinham a temperatura. Na rua do oratório havia algumas casas onde se via as pedras nas portas, eram as que possuíam geladeira.
Lembro-me que nessa ocasião meu irmão começou a estudar (precocemente), pois ele não tinha mais que seis anos e já naquela época arrumou uma coleguinha da sua classe e falava que era sua namorada. Lembro-me que certo dia ao voltarem da escola, subindo a Rua do Oratório já perto de casa, ela despediu-se dele falando tchau e atravessou a rua correndo, tendo sido apanhada por um veículo, foi muito triste e apesar de não ter morrido perdeu alguns dedinhos dos pés que ficaram ali no chão a mostra, fiquei impressionado de ver aquilo. Ela passou a usar um sapato com acréscimo para não mancar, igual ao do meu primo Loló que sempre passava por lá e apesar do sapato especial ainda mancava (ele não foi acidentado, já nasceu assim).
O ano do quarto centenário de São Paulo foi muito comemorado, lembro-me que colocaram uma placa comemorativa vermelha e preta muito bonita na porta das casas, inclusive na do meu avô Julio. Um pouco para baixo da nossa casa, do outro lado da rua tinha a quitanda do seu José. Ele tinha dois filhos o Nelson e o Flavio. O Nelson era bem mais velho e nunca deu bola para nós, mas o Flavio era só um pouquinho mais velho e quase sempre íamos, a tarde, na quitanda do seu pai onde ele ficava e sempre saia uma laranja ou uma banana no peito, isso quando o seu José não estava. Mas criança é criança e às vezes saia alguma encrenca. Certa vez não me recordo o motivo o Flavio e o Newton se estranharam e o Newton ficou com tanta bronca que combinou comigo,vamos pegá-lo. Mas como ele era mais velho e maior que nós? O Newton arquitetou um plano: ele (o Flavio) toda a tarde passa na nossa porta e dobra a esquina para comprar pão na padaria do seu Álvaro.
Nós vamos ficar escondidos atrás do muro e assim que ele dobrar a esquina eu jogo essa pedra no pé dele e a gente corre e entra em casa (era uma pedra de cimento do tamanho de um tijolo) o Newton mal aguentava segurar. O plano deu certo e muito certo, como sempre lá pelas cinco da tarde lá vem o Flavio, está indo na padaria, na volta a gente pega ele. Coitado do Flavio, assim que ele dobrou a esquina o Newton soltou a pedra que acertou em cheio o seu pé, corremos e entramos no quintal e ficamos olhando, o Flavio gritava muito, ai, ai, ai e o seu pé espirrava sangue,o Newton eu não sei, mas eu fiquei apavorado, pensava coitado do Flavio e agora! Não foi muito fácil os próximos dias pelo menos para mim, tava morrendo de medo de sair de casa e se o Flavio me pega? Coitado do Flavio ficou com o pé enfaixado uns quinze dias, o que foi bom pra nós, deu tempo de passar a raiva do cara e ficou tudo por isso mesmo.
No primeiro sobrado que ficava no início do quarteirão morava um italiano que naquela época devia ter mais ou menos uns 80 anos, era o seu Putche. Era avô de um rapaz muito bonzinho que se chamava Kêko. Ele tinha um cachorrinho vira lata de pelo liso que andava sempre ao seu lado. Atrás dos sobrados havia terrenos enormes com mato, ficavam de frente para a Rua Cuiabá.
Certa vez estáva eu, o Newton e o Flavio nesse terreno baldio brincando com um arco e flecha feita de vareta de guarda chuva, quando apareceu o seu Putche com o seu pequeno cãozinho. Coitado… O Flavio mirou a flecha, claro que não esperava acertar, mas acertou, bem na rodela do bichinho ,que correu uns cinco metros gritando muito com a vareta enfiada que caiu em seguida. Logo, quem correu fomos nós, e o seu Putche atrás, gritando palavrões indecifráveis na sua língua, ele era muito velho e nós muito novos para correr tanto, quase deu empate, mas vencemos.
Em um dos sobrados morava o Chico e a Mariza irmãos com quem tínhamos uma boa amizade, ele da idade do Newton ela um pouco mais velha, com os quais passamos parte muito feliz da nossa infância. Reuníamos-nos às vezes na casa deles, às vezes na nossa. Gostávamos de brincar de cineminha; com uma caixa de sapatos em pé e uma manivela de arame recortávamos as figuras de uma revista muito famosa na época que se chamava "Grande Hotel"; as figuras eram em preto e branco. Após recortá-las, fazíamos as emendas com sabão, enrolávamos no arame da manivela, acendíamos uma vela atrás e girávamos a manivela e assim contávamos uma história inventada na hora.
Não era muito fácil, pois toda a hora o vento apagava a vela, gastava-se quase uma caixa de fósforos em dez minutos. Apesar de bem pequena a Célia chegou a participar algumas vezes dessa brincadeira. O seu Francisco que também era o pai do Chico era magro, alto, pouco cabelo e muito legal. Ele nos levava em uma feira por ali, perto de onde morávamos e comprava fatias enormes de melancia, bem vermelha muito doce e quase não cabia em nossas mãos, nas mordidas sujávamos até os olhos, comíamos ali mesmo na feira. A dona Marina sua esposa era baixa e muito gorda, porém muito boazinha. A sua casa, um sobradinho pouco abaixo do nosso, era super limpa, ela encerava a sala e a cozinha que ficava um brilho só. Eles eram chiques tinham até geladeira. Ela sempre nos dava gelatina vermelha, era uma delicia. Não tinha uma única vez que não derramávamos no chão e tímidos sempre ouvíamos a mesma coisa, o grito… "Mão Furada".
Continua…
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