O homem, em sua fértil imaginação, vive sempre preocupado com o futuro. Os mais arrojados ficam imaginando uma máquina que poderia levá-los ao futuro. Sonha em construir a "máquina do tempo" e, quem sabe, conseguiria averiguar o que estariam fazendo nossos descentes num futuro próximo ou longínquo. Doce ilusão!
Sem dúvida, ainda não chegamos a esse estágio; estamos muito longe desse acontecimento, isso se for possível.
Mas cá entre meus botões, existe uma máquina que oferece a possibilidade de voltarmos ao passado, de estabelecer uma ponte, onde é permitido estarmos em conexão com um passado por nós vivido.
Essa máquina chama-se "história". Ela retrata a história de nossa vida, inserida na história da vida daqueles que conosco ajudaram a construí-la. Está marcada dentro de cada um de nós, porque foi vivida, aconteceu de verdade, somos testemunhas.
Ela é impulsionada por um motor muito potente chamado lembrança. Seja uma lembrança boa ou má, cujo combustível é chamado saudade, e nunca se esgota.
O que está escrito no livro de nossa própria história, jamais se apagará. Levaremos isso pela eternidade. Com toda certeza, alguns deixaram sua marca por pouco tempo, sem muita presença; outros se destacaram mais por uma presença constante por sua liderança; outros, por serem tímidos ou medrosos, marcaram menos. E assim segue a atuação de cada um, marcando presença conforme sua personalidade.
Por exemplo: havia o forte, o briguento, o mediador, o comedido, o voluntarioso, o brincalhão, os mais sérios, o estudioso. Existia o bonitão das meninas; o mais feioso, porém mais simpático; o bom de bola, mas um fracasso na escola.
Uma coisa fica bem clara: cada um teve sua participação. E a participação individual de cada um ajudou na formação coletiva, gerando uma cultura própria, que sem dúvida é a cultura da Turma da Rua Costa Carvalho.
Isso ficou tão latente em nós que sempre sentimos a necessidade urgente de nos reunirmos. Por isso, o livro da nossa história é recheado de muitas páginas.
Lembro-me com muita clareza daquele sábado, dia 5 de julho de 1952, meio do século XX, quando chegamos de mudança em nossa casa da então chamada Rua Projetadaque posteriormente chamou-se Travessa Vupabuçu, hoje Rua Ourizona.
No dia seguinte, apesar de estarmos no inverno, o domingo se fazia ensolarado, muito claro. Logo pela manhã, levantei-me antes de meus irmãos; em seguida, desci e deparei-me com mamãe e papai na cozinha às voltas com um fogão de carvão. Ainda não havia gás no bairro, visto ser um local novo, e, sem muita experiência, tínhamos aflitos em acendê-lo com o intuito de preparar o café.
Sem que percebessem, sai logo para a rua com a ideia de fazer um reconhecimento da área. Aliás, sempre fui rueiro, desde criança.
A rua estava vazia, o sol brilhava, e o cheiro de mato borrifado pelo orvalho da manhã adentrou tão forte em minhas narinas que jamais pude esquecer aquele momento. Olhei ao redor e percebi que era um lugar bem desabitado, embora nossa casa estivesse inserida dentro de um conjunto residencial. As ruas estavam por asfaltar; grandes áreas de terrenos vazios, córrego a céu aberto. A rua dos eucaliptos (Avenida Frederico Hermann Jr.) apresentava um canteiro central que abrigava uma imensa "montanha" de areia, que posteriormente foi a tentação de nossas brincadeiras.
Para quem vinha do bairro do Canindé (localizado bem próximo ao centro da cidade, com muitos prédios e casas cuja avenida, onde eu morava, passava o bonde 49), até então com meus sete anos de idade, nunca em minha vida havia experimentado uma sensação de liberdade tão grande. Encantado com tudo aquilo dentro daquela paz e silêncio comecei a me indagar:
– Será que existem meninos neste lugar?
E ali fiquei por um tempo, não sei quanto, até que ouvi a voz de meu irmão com a clássica frase:
– A mamãe está lhe chamando.
Aos poucos, nossa tribo foi se descobrindo e se formando. Logo conheci meu vizinho, depois outro e outro. Mais garotos se mudaram, afinal de contas, o conjunto de residências era grande.
A área de mato que havia na entrada de nossa rua tornou-se um campinho de futebol; evidente que limpamos e preparamos com nossas mãos. Bem, o Mané tratorista, aquele negrão simpático, funcionário da Prefeitura, cujo depósito ficava ali pertinho, deu uma passada de máquina planando o campo. Logo apareceu uma bola e sentimos a necessidade de formar nosso time, até que alguém forneceu-nos as camisas.
Nós, da turma de baixo, montamos o Mirim Pinheiros. A turma da rua de cima montou o Hercules (por sinal, nosso freguês); na vilinha apareceu o Onze Paulistas; depois veio o Alvorada. Havia até campeonatos e festivais. Lotávamos de assistentes o campinho nos sábados à tarde e nas manhãs de domingos, para assistirem os jogos da molecada.
Nossa turma era formada por são paulinos, corinthianos, palmeirenses, lusos; mas não me recordo de nenhum santista. Juntos, assistimos muitos clássicos no Pacaembu e nunca soube de ter saído uma só briga entre nós. Claro, havia gozações; muitos esquentavam a cabeça, mas só ficava nisso. Bem diferente de agora.
Descobrimos que na região havia algumas lagoas, hoje Parque Vilalobos. E às vezes, muito às escondidas, íamos nos refrescar em tardes de calor. Era uma maravilhosa, mas também era um perigo!
Desde aquela época, existe uma tubulação de água do antigo DAE que cruza o Rio Pinheiros, onde, mais tarde, foi construída ao lado a ponte da Cidade Universitária. Essa tubulação era usada por nós como ponte, e do outro lado, podíamos ver os teco-tecos subirem e descererem a puxar os planadores no campo que imagino ser do então Aeroclube de São Paulo, hoje Cidade Universitária.
Os quintais frutíferos, nem se fala! Era perito em roubar frutas. Que delícia!
Havia os tempos de brincadeiras: tempo de quadrado (papagaio; hoje, chamado de pipa), bolinha, pião, jogo de taco, balão. Brincadeiras como: mana-mula, palha ou chumbo, mãe da rua, lata, guerra de mamona, luta de espada. Com as meninas, brincadeiras mais leves como boca do forno, passa anel, pegador (pega-pega).
– Currupiu, piu, piu na careca do seu tio…
Veio a copa do mundo de cinquenta e quatro, Brasil fora. Contudo, quanta alegria em cinquenta e oito!
– Brasil Campeão do mundo!
– A taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem possa!
Saímos pelas ruas como loucos, os balões no céu eram incontáveis.
Sem dúvidas, foram bons tempos. Tantas e tantas brincadeiras, tudo isso era oferecido gratuitamente. Porém, nossos pais cobravam o seu preço impondo uma condição: o estudo; não tinha conversa, o estudo era prioridade.
Nossos professores eram severos. Não davam moleza, mas tínhamos muito respeito por eles. Ou estudava-se seriamente ou "bombava" de ano, o que é bem diferente de agora. Quando na rua encontrávamos nossa professora, sentíamos certa ponta de orgulho em dizer:
-Veja, aquela é minha professora.
Sei do trabalho que dei a elas, mas não foi nem a décima parte do que fazem os alunos de hoje, pergunte a seus mestres.
Que saudades da dona Hercília, que me alfabetizou na cartilha Sodré; dona Estelinha, que sei hoje mora no céu; dona Lourdes, muito severa. Todas foram maravilhosas. Só posso dizer obrigado. Que saudade do Grupo Escolar Alfredo Bresser.
Nossa tribo foi crescendo, éramos descendentes diretos dos recentes imigrantes que aqui vieram com seus ideais e esperanças. Sem dúvida, éramos de primeira ou segunda geração de italianos, portugueses, sírios, libaneses, alemães, japoneses, negros, chineses, e outras raças com nomes Azevedo, Macarron, Santos, Heckerman, Ossegawa, Camarotta, Gheleri, Fernandes, Barcellos, Saeta, Nogueira de Moraes, Cirne, Forster, Teixeira, Aluízio, Ianone, Leal, Mazoni, Faraoni, Forte, Magalhães, Casarini, Monteiro, De Donato, Vidal, Antonioli, Tognini, Mendonça, Guardado, Zimbardi, Garrini, Campos, Wong, Velho, Vieira, Bauab, Aibi, Micheloni, e tantas outros…
Um grupo cujas culturas foram se mesclando e formando uma própria. Todos nós morávamos no quadrilátero das ruas Costa Carvalho, Ferreira de Araujo, Nicolau Gagliardi, Ourizona, Vupabussu e Paraopeba.
Veio a adolescência. Novos times de futebol: Atlas, Brasil Unido, Guarani Futebol de Salão. Nada mais poderia nos separar. Bailes, festas, brincadeiras, gozações, muita alegria.
Na década de 60, a televisão começava a se impor na mídia. Nos grandes festivais de música popular apareciam ídolos, jovem guarda, bossa nova, rock, twist, hale-gale,, Beatles. Cinema com Doris Day, Rock Hudson, Brigite, Kirk Douglas, Sandra Dee, Charleston Heston" Gleen Ford, Sofia Lorem, Lolo e tantos outros artistas da época.
Hollywood, com toda força, mostrava o poderio americano, pós-segunda guerra mundial, com os filmes épicos.
A televisão entrou com força. E o mundo foi mudando.
Vietnã chocava o mundo, guerra fria, russos e chineses numa incógnita, o grande medo da época:
– Uma terceira guerra mundial?
No Brasil e em grande parte da América do Sul, os militares tomaram conta e impunham um regime ditatorial promovendo perseguições, mortes e prisões. Os que hoje são "líderes políticos" eram considerados fora da lei naquela época.
Depois, alguns foram para faculdade, outros trabalhar. Vieram os namoros, noivados, casamentos, filhos. A tribo se distanciou, foi se separando com os afazeres e as mesmas responsabilidades que nossos pais tiveram. Mas não se desfez. A raiz continua firme e forte, porque existe algo que nos une até hoje: e esse algo é o amor.
Como disse São Paulo (o apóstolo dos gentios): "Tudo passará, tudo cessará, menos o amor, porque ele é de Deus, e se é de Deus, ele é eterno”.
Jamais esquecerei esses meus adoráveis e queridos amigos e amigas que fizeram e ajudaram a construir a história da minha vida. Levarei eternamente comigo essas lembranças da "Turma da Rua Costa Carvalho".
Deixo aqui minha saudade ao meu querido irmão Carlinhos, ao Djalma (Nininho), ao Moacir, ao Dadu, Robles, Moacir e a outros que já se foram; aos nossos pais que não mais estão aqui, mas estão junto ao Pai Eterno. Também minha lembrança aos pais que aqui estão. A todos eles devemos, no mínimo, nossas vidas, só isso já basta. Com muita alegria e amor um beijo bem grande no coração de cada um.
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